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domingo, 2 de julho de 2017

Coisas que se passaram em 2016/2017

I. Se há sensivelmente um ano e meio se afirmasse que o Benfica de Rui Vitória iria sagrar-se bicampeão e confirmar definitivamente a hegemonia interna do clube da Luz, muito boa gente (eu incluído) rir-se-ia com gosto. Mas, ao contrário de quase todas as expectativas, foi isso mesmo que aconteceu. Por aqui, ainda que se considere que o atual treinador do Benfica beneficiou de uma conjuntura algo favorável, sobretudo neste segundo ano, com um plantel vários furos acima da concorrência e uma estrutura do futebol consolidada, há que reconhecer que se o Benfica evoluiu de um coletivo totalmente disfuncional, com cada um a correr para seu lado, para uma equipa organizada e que dá liberdade aos jogadores mais talentosos para soltarem o seu futebol, também o deve ao trabalho de Rui Vitória e da sua equipa técnica. O mérito a quem o merece.

II. Sem querer “fazer prognósticos à segunda-feira”, sempre me pareceu que a decisão de entregar um plantel com tantos executantes de qualidade a um treinador com a matriz de jogo de Nuno Espírito Santo tinha tudo para correr mal. O Porto viu-se eliminado das taças internas e da Liga dos Campeões demasiado cedo – é verdade que aqui caiu aos pés da futura vice-campeã, mas apenas porque falhou pateticamente o primeiro lugar num grupo facílimo – e essa circunstância permitiu-lhe concentrar-se exclusivamente no campeonato e disputá-lo quase até ao fim, mas nem esse facto apaga a pálida imagem deixada pelos pupilos do ex-treinador de Rio Ave e Valência ao longo de toda a temporada. Com um sistema de jogo rígido e um futebol retilíneo e aos repelões, que não potenciava minimamente a qualidade individual existente, só por um acaso do destino o desfecho podia ser outro que não zero títulos e o despedimento do treinador.

III. Se em relação ao Porto de Nuno Espírito Santo as expectativas não saíram propriamente defraudadas, porque não se esperava muito do protegido de Jorge Mendes, o mesmo não se pode dizer do Sporting de Jorge Jesus, que depois de bater o recorde de pontos do clube e de perder o título por uma unha negra em 2015/2016, tinha tudo para manter a toada em 2016/2017, pese embora as vendas de João Mário e Slimani. Mas o que se viu foi um Sporting que, em janeiro, já só tinha o campeonato para disputar, sendo que nem nesta competição se apresentou competitivo, tendo ficado a 12 pontos do primeiro lugar e tendo encaixado uns incríveis 36 golos em 34 jogos! Além da crença de que é tão competente que até com três ou quatro marretas na linha defensiva consegue colocar uma equipa a defender bem, o erro capital de Jorge Jesus foi ter abdicado de praticamente tudo o que de bom construiu na temporada transata para tentar encaixar Bas Dost e Gelson Martins no onze titular. Ao avaliar – erradamente – o incrível ponta de lança holandês como “um pinheiro” e ao querer fazer de Gelson o principal (e único?) motor ofensivo da equipa, Jorge Jesus modificou posicionamentos e movimentações que tinham funcionado no passado, para que a bola passasse a entrar nestes dois jogadores nas melhores condições possíveis. É verdade que, com isso, conseguiu fazer de Gelson um dos jogadores mais influentes do campeonato e de Dost o melhor marcador destacado, mas…à custa de quê? De um Sporting mais desequilibrado atrás, com laterais e médio defensivo muitas vezes expostos devido ao posicionamento excessivamente largo dos extremos, e mais previsível no último terço, com a bola a entrar sempre nos mesmos espaços e sempre da mesma forma. Em suma, uma época falhada e que deve fazer refletir seriamente os responsáveis leoninos.

IV. A Premier League, por todas as razões e mais algumas, era a competição sobre a qual recaíam todos os olhares e o melhor elogio que se pode fazer é que não defraudou em nada as expetativas. Na ressaca de uma Premier League completamente atípica, com o inesperado Leicester a sagrar-se campeão, assistiu-se desta feita a um campeonato bem disputado, nivelado por cima, taticamente mais rico do que é habitual (a título de exemplo, Chelsea, Tottenham, Manchester City e Arsenal jogaram regularmente com três defesas, uma autêntica raridade em solo britânico), com a maior parte das principais equipas a melhorarem as respetivas pontuações e classificações. Aliás, a ordem do top 6 foi justa e refletiu, de um modo geral, a qualidade de jogo apresentada pelas equipas: um Chelsea à imagem do seu treinador, ou seja, organizado sem bola e cerebral com ela, que é meio caminho andado para ter sucesso em Inglaterra; um Tottenham superiormente trabalhado por Mauricio Pochettino, mas que revelou alguma falta de tarimba e experiência nos momentos decisivos; um Manchester City a praticar, a espaços, o melhor futebol da prova, mas penalizado pela extrema irregularidade exibicional; um Liverpool com boas intenções, mas contagiado pela vertigem do futebol inglês e com um plantel curto para ambicionar a mais do que o 4º lugar; uma das piores versões do Arsenal de que há memória na era Wenger e que ficou naturalmente fora dos lugares de acesso à Liga dos Campeões, pela primeira vez em muitos anos; e, por fim, um Manchester United mais ofensivo do que se esperava, atendendo ao historial recente de José Mourinho, mas a demonstrar que ter muito volume de jogo não é igual a ter bom volume de jogo, como atestam os apenas 54 golos marcados (menos 25/30 golos do que as cinco equipas que ficaram à sua frente!) e os 15 empates concedidos em 38 jogos.

V. Em Espanha, o Real Madrid venceu finalmente o campeonato, que lhe fugia há quatro épocas, e juntou-lhe ainda a segunda Liga dos Campeões consecutiva, um feito inédito na história recente da competição. Tenho lido análises diametralmente opostas sobre os méritos de Zinedine Zidane – por um lado, há quem sustente que o treinador teve pouca ou nenhuma influência nestas conquistas e, por outro lado, há quem seja da opinião que quando se ganha troféus tão prestigiados, tem que haver necessariamente competência do treinador. A minha opinião estará algures no meio: não concordo, de todo, com a segunda premissa, mas tenho que admitir que nunca tinha visto um Real estrategicamente tão bem preparado para os jogos decisivos (nem com Mourinho), pelo que me parece justo afirmar que também houve dedo de Zidane na excelente época do conjunto madrileno. Porém, a meu ver, o fator realmente diferenciador foi mesmo o incrível plantel do Real, o mais bem apetrechado do mundo nos dias que correm e certamente um dos melhores da história do clube. Quanto ao Barcelona, bastará uma frase para resumir o que foi a época blaugrana: nem a genialidade de Messi foi suficiente para evitar a mais que anunciada derrocada do Barcelona de Luis Enrique.

VI. Na Serie A, o trabalho de Massimiliano Allegri na Juventus não pode ser menosprezado – em três anos, três dobradinhas e duas finais da Liga dos Campeões! – mas tenho para mim que qualquer treinador minimamente competente, ao herdar a máquina bem oleada deixada por Conte, teria conseguido um pecúlio semelhante, pelo menos a nível interno. O desnível individual em relação às restantes equipas é abissal e a organização estrutural do hexacampeão não tem par em Itália. Do meu ponto de vista, o treinador que importa destacar em terras italianas é Mauricio Sarri, cujo Nápoles apresenta um dos modelos de jogo mais completos e complexos da atualidade e que está em crescendo de época para a época. Aliás, não é de agora que acho o Calcio um campeonato extremamente subvalorizado: apesar da hegemonia da Juventus nos últimos anos, é uma prova que se caracteriza pela abundância de treinadores com propostas de jogo interessantes (Sarri, Paulo Sousa, Eusebio Di Francesco, Spaletti, Montella, Pioli, Gasperini, etc), pela variabilidade táctica e pela qualidade dos espectáculos. Para que haja maior alternância no campeão, só falta mesmo uma capacidade de investimento ao nível do que acontece atualmente na Premier League e na La Liga, de forma a que as principais equipas se possam aproximar do nível da Juventus, mas acredito que, com a entrada em força de capital chinês, não deverá faltar muito para que o salto qualitativo aconteça.

VII. Em relação ao sempre polémico tema da Bola de Ouro, neste momento restam poucas dúvidas de que Cristiano Ronaldo arrecadará, pela quinta vez, o conceituado galardão. E este ano, ao contrário do que aconteceu em 2016, não tenho muito a obstar: é indesmentível a preponderância de Ronaldo para as conquistas do Real Madrid, nomeadamente na Liga dos Campeões (recordo que Ronaldo marcou 10 golos nos 7 jogos da fase a eliminar, a maior parte deles decisivos!), e esse critério, ainda que não seja o meu, é perfeitamente aceitável e defensável. O meu único lamento, quando ainda faltam 6 meses para o prémio ser atribuído, prende-se com o facto da unanimidade em torno da justiça de novo triunfo do melhor jogador português de sempre não fazer jus a mais uma sensacional época de Lionel Messi, que levou o Barcelona às costas até quando lhe foi humanamente possível: no fundo, a prestação do craque argentino justificava claramente uma maior dose de emoção e incerteza na hora de entregar a Bola de Ouro.

VIII. Contrariamente às previsões da maioria dos comentadores desportivos, para quem a vitória de Portugal na Taça das Confederações era praticamente um dado adquirido, a seleção portuguesa acabou por não ir além das meias-finais, tendo caído perante o Chile, no desempate por grandes penalidades. O desfecho não me surpreendeu, tal como não me surpreenderá se Portugal tiver uma participação relativamente modesta no Mundial do próximo ano. O que vou dizer certamente escandalizará muitas pessoas, mas cá vai: Portugal não tem um modelo de jogo consolidado e comum a todos os escalões (e tinha condições para o ter), não está sequer a procurar fazer a imprescindível renovação de valores (e tinha condições para a fazer) e o que aconteceu é que se limitou a ganhar uma competição a eliminar da mesma maneira fortuita que, por exemplo, o Chelsea de Di Matteo também ganhou uma Liga dos Campeões, ou seja, com uma abordagem de risco mínimo, alguma qualidade individual e uma improvável e irrepetível conjugação de fatores que não pode controlar. Obviamente, nada disto é sustentável a médio/longo prazo – como ficou evidente nesta Taça das Confederações, em que só por manifesta infelicidade o Chile, uma seleção teoricamente do nosso nível, não resolveu a questão no tempo regulamentar – e se nada de verdadeiramente significativo se alterar até lá, temo bem que as fragilidades desta seleção ficarão à vista de todos no Mundial de 2018.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Balanço de Final de Ano

1. O Sporting, na novela mais quente do Verão, trocou Marco Silva por Jorge Jesus e, à passagem da 13ª jornada, está na liderança isolada do campeonato, com dois pontos de vantagem sobre o Porto e sete sobre o Benfica. Além disso, comparativamente com o mesmo período da época passada, o Sporting tem menos um golo marcado, mas tem mais onze pontos, mais cinco vitórias, menos quatro empates, menos seis golos sofridos, ainda não perdeu…Sinal de que tudo vai bem no reino do leão? Com certeza que não. Não partilhando da opinião veiculada sobretudo por adeptos dos rivais de que este Sporting joga pouco futebol – defensivamente, a diferença é do dia para a noite, e mesmo em termos ofensivos, já se veem movimentações e intenções dos jogadores que não se viam com Marco Silva e não se veem nem no Porto nem no Benfica – parece-me haver um défice claro de qualidade individual, o que retarda necessariamente o crescimento da equipa enquanto coletivo e pode ajudar a explicar algumas vitórias tangenciais, que podiam perfeitamente ter resultado em empates. O modelo de jogo de Jorge Jesus é complexo e exigente a todos os níveis e, para estar em Dezembro a jogar já perto do seu potencial máximo, eram precisos executantes com uma qualidade técnica e de decisão que não está ao alcance de um João Pereira, de um Naldo, de um Adrien, de um Teo ou de um Slimani (só aqui já está meia equipa habitualmente titular). Ewerton, André Martins, Aquilani, Carrillo, Matheus Pereira e Montero, esses sim têm essa capacidade, mas, por uma razão ou por outra, não têm estado entre as primeiras opções de Jesus, pelo que o futebol do Sporting tem tardado em dar o salto qualitativo. Resumindo: a meu ver, apesar dos indicadores positivos, o Sporting será tanto mais candidato ao título quanto mais vezes incluir no onze inicial os jogadores acima referidos. Noutro âmbito, a chegada do fantástico Bryan Ruiz constitui a melhor notícia do defeso em Portugal, talvez a par da contratação de Mitroglou pelo Benfica.

2. Há quem seja da opinião que Julen Lopetegui é um treinador com uma boa ideia de jogo, mas que não sabe bem como operacionalizá-la, nem quais os melhores jogadores para a executar. Acho precisamente o contrário: o treinador espanhol sabe pôr uma equipa a jogar como quer e também sabe escolher os executantes mais adequados para o seu modelo de jogo, mas boas ideias é tudo o que não tem, pelo menos a nível ofensivo. É tudo rígido, padronizado e previsível, mas estou plenamente convencido de que Lopetegui quer e sempre quis que o Porto jogasse como joga: sem bola, uma reação rápida e agressiva à perda, com um meio-campo essencialmente de suor e rigor tático; com bola, uma circulação em “U”, sempre por fora e com largura máxima em todos os momentos, para que depois os laterais e os extremos desequilibrem ofensivamente. Alguma vez o Porto de Lopetegui foi ou pretendeu ser algo diferente disto? Não me parece. E é por essa razão que o Porto não se consegue assumir definitivamente como o candidato mais forte ao título, como era, de resto, sua obrigação: uma ideia de jogo sem qualidade, que não potencie toda a qualidade individual existente, mesmo que esteja superiormente operacionalizada, não deixa de ser uma ideia de jogo sem qualidade.

3. No Benfica, Luís Filipe Vieira, que se não está com a corda ao pescoço em termos financeiros, disfarça muito mal, decidiu abrandar o investimento massivo no futebol e abdicou do bicampeão Jorge Jesus (que, para grande transtorno seu, foi parar ao outro lado da Segunda Circular…) para ir buscar o mais económico Rui Vitória. Rui Vitória é um treinador que subiu na carreira a pulso e que tem conseguido resultados interessantes, sobretudo no problemático Vitória de Guimarães, mas o futebol pouco elaborado das suas equipas não augurava nada de bom e estes primeiros meses à frente do Benfica apenas têm confirmado essas suspeitas. O que se vê é um treinador de equipa pequena a tentar, sem sucesso, operacionalizar um modelo de equipa grande e, seja qual for a opção tomada daqui para a frente, as perspetivas não são animadoras: se quiser trabalhar o modelo em que acredita, o mesmo não vai ser suficiente, porque a concorrência está forte e colocou a fasquia alta; se quiser trabalhar um modelo em que não acredita, não tem competência para tal, pelo que os resultados dificilmente serão positivos. Prevêem-se tempos difíceis na Luz, ainda para mais sem um plantel extraordinário em termos individuais…No entanto, além dos consagrados Júlio César, Gaitán, Jonas e Mitroglou, há um valor seguro para o futuro: Nélson Semedo. Quanto aos hipervalorizados Renato Sanches e sobretudo Gonçalo Guedes…Bem, vamos esperar para ver.

4. Em Inglaterra, a Premier League, ao contrário do que se apregoa, é um campeonato competitivo, mas nivelado por baixo, como se comprova pelos constantes insucessos das equipas inglesas nas competições europeias: o Manchester City tem todas as condições para dominar o campeonato, mas joga abaixo do seu potencial, porque não tem uma liderança técnica capaz de elevar a equipa para um patamar superior (não está em causa a competência de Pellegrini, que é um treinador que aprecio); Van Gaal está ultrapassado e já não parece ter capacidade para operacionalizar a 100% a sua interessante ideia de jogo; Mourinho estagnou completamente e, neste momento, é um treinador que não se diferencia dos demais e que tanto pode ser campeão num ano, como no ano seguinte andar pelo meio da tabela; Wenger continua a repetir os mesmos erros, ano após ano, e o Arsenal estava melhor servido com uma equipa técnica mais moderna e bem preparada. O Tottenham de Pochettino e o Everton de Roberto Martínez são equipas que procuram um “jogar” mais evoluído do que é habitual em terras de Sua Majestade, e a contratação de Klopp pelo Liverpool é uma ótima notícia para a evolução do futebol inglês, mas não é suficiente, nem de perto nem de longe. É necessário que as equipas com maior poderio financeiro da Premier League contratem não só jogadores de grande qualidade, mas também treinadores que consigam rentabilizar ao máximo toda a qualidade individual existente, para que as restantes equipas também sintam necessidade de evoluir e subir a fasquia, contratando jogadores de qualidade e sobretudo treinadores com ideias e métodos de trabalho diferentes. Por exemplo, só num campeonato nivelado por baixo e em que as equipas grandes estejam mais próximas em qualidade das equipas mais pequenas do que o contrário, é que é possível que equipas com modelos de jogo rudimentares como o Leicester e o Crystal Palace estejam, em Dezembro, tão acima na tabela classificativa. O facto de o melhor treinador britânico em atividade ser provavelmente Alan Pardew também devia ser um indicador, no mínimo, preocupante. A Premier League tem evoluído muito na última década e o conhecimento técnico-tático existente é agora maior do que nunca, mas, no meu entender, ainda tem um longo caminho a percorrer até poder justificar o epíteto de “melhor liga do mundo”. Talvez a mais que anunciada chegada de Guardiola seja a pedrada no charco de que o futebol inglês necessita.

5. Em Espanha, não há muito a destacar: Florentino Pérez, não contente com a decisão absurda de afastar Ancelotti do comando técnico do Real Madrid, resolveu animar ainda mais as coisas e entregou aquele que é, provavelmente, o melhor plantel do mundo a…Rafa Benítez. Sim, aconteceu mesmo. No momento em que escrevo estas linhas, a vantagem pontual do Barcelona já é de cinco pontos, por isso ficarei muito surpreendido se Messi, Neymar, Iniesta & Cia não revalidarem o título de campeões espanhóis em Maio, desta feita sem o lendário Xavi Hernández. O Barcelona de Luis Enrique é, nos dias que correm, uma equipa super vertical, que pratica um futebol direto e de procura constante da baliza contrária, e que, por isso, já não consegue controlar tão bem os ritmos de jogo e o adversário, mas a qualidade individual assombrosa e a falta de oposição interna deverão chegar para vencer tranquilamente o título (porém, muita atenção ao Atlético de Madrid!). Destaque para o aparecimento na equipa principal do jovem Sergi Roberto, que agarrou a oportunidade que Luis Enrique foi obrigado a dar-lhe (saída de Xavi, lesão prolongada de Rafinha, problemas físicos de Iniesta, etc) e tem agora o caminho aberto para se afirmar como um dos grandes médios espanhóis do futuro.

6. A Serie A, um campeonato caído em desgraça e que bem precisa de novos estímulos, deu a conhecer ao mundo dois treinadores de enorme valor: Maurizio Sarri e Paulo Sousa, este bem conhecido do público português. A Fiorentina de Paulo Sousa e sobretudo o Nápoles de Sarri são equipas que procuram controlar o jogo através da posse de bola e da pressão alta desde o primeiro minuto e que não têm problemas em jogar com três e quatro médios de características ofensivas ao mesmo tempo, o que constitui claramente um sinal de que o futebol italiano, se houver um esforço coletivo dos clubes, pode perfeitamente reinventar-se e reerguer-se. Infelizmente, Juventus, Inter e Milan, os clubes que, pelo seu peso histórico, mais possibilidades tinham de comandar esta mudança de mentalidades, preferiam manter ou ir buscar treinadores que pensam e trabalham como 90% dos treinadores mundiais, por isso o campeonato perdeu algum do interesse que poderia ter. No entanto, já que Rudi García da Roma se revelou uma desilusão, quero acreditar que Sarri e Paulo Sousa estão a lançar algumas bases importantes para o futuro a médio prazo do Calcio.

7. Na Bundesliga, o Dortmund contratou um dos treinadores mais talentosos da atualidade – Thomas Tuchel – e mantém um plantel repleto de jogadores que tinham lugar em quase todos os grandes clubes europeus, com Hummels, Gündogan, Kagawa, Mkhitaryan, Reus e Aubameyang à cabeça, mais o muito promissor Weigl, mas Guardiola é mesmo de outro planeta e o Bayern chega ao dobrar do campeonato com 43 pontos em 48 possíveis e cinco pontos de vantagem sobre o Dortmund. Além dos resultados esmagadores, o genial treinador catalão continua a inovar taticamente como nenhum outro e a dar lições em todos os jogos, embora muitos nem sequer se apercebam disso: recordo que o Bayern, a jogar habitualmente num 2-3-5 (!) com Boateng como único jogador de características defensivas e Robben, Müller, Douglas Costa, Coman e Lewandowski na frente, mesmo que os adversários concretizassem todos os remates enquadrados com a baliza de Neuer, continuaria a liderar a Bundesliga. Incrível! Já para não falar da facilidade com que o Bayern troca de sistema de jogo para jogo ou mesmo durante o jogo, alterando entre 4-3-3, 4-4-2, 3-5-2, 3-4-3 e 2-3-5 como se nada fosse, e do rendimento estratosférico de jogadores como Alaba, Douglas Costa, Müller, Lewandowski ou mesmo Boateng. Luis Enrique merece o prémio de melhor treinador de 2015, pelos títulos que conquistou, mas não tenho dúvidas nenhumas de que o treinador referência foi, para não variar, Pep Guardiola.

8. Sobre a Bola de Ouro, cujos resultados serão conhecidos no dia 11 de Janeiro, apenas duas notas rápidas, porque há algumas pessoas com problemas de memória. Primeiro, para os que são da opinião que é um escândalo Luis Suárez não estar no lugar de Cristiano Ronaldo nos três finalistas, convém lembrar que o avançado uruguaio só em Abril/Maio é que começou a render a bom nível e a contribuir com alguma qualidade para a manobra ofensiva do Barcelona para além dos golos…Até lá, foi quase sempre um corpo estranho na equipa e sentiu grandes dificuldades de adaptação, por isso a escolha de Ronaldo é mais do que compreensível, pese o final de época algo apagado. Segundo, Neymar teve um ano incrível, não só na finalização, mas também na criação, e assumiu-se definitivamente como jogador de eleição, mas só merece a Bola de Ouro se se esquecer tudo o que Messi fez até se lesionar em Setembro. É bom não esquecer que Messi rubricou possivelmente a melhor época da carreira – o que quer dizer muito, tendo em conta o nível elevadíssimo que atingiu com Guardiola – com exibições quase sobre-humanas, em que foi o principal motor criativo de um Barcelona que ganhou tudo o que havia para ganhar. Mas a Bola de Ouro sempre foi isto: aconteça o que acontecer, para a opinião pública, o que interessa é como se acaba o ano. Posto isto, Messi, Neymar e Ronaldo seriam as minhas escolhas para a Bola de Ouro, por esta ordem.

O "Com Pés e Cabeça" aproveita para desejar a todos os leitores um Feliz Natal e um Bom Ano Novo!

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Uma nova realidade: Benfica


Com três jogos disputados, emerge no Benfica uma nova realidade, obrigatoriamente ditada pela mudança de equipa técnica e alterações na composição do plantel. Três partidas onde já foi possível identificar pormenores positivos e negativos, que para já vão moldando a nova face da águia.

As comparações com o Benfica de Jesus são inevitáveis. E desde logo uma premissa óbvia: a permanência do 4-4-2 como sistema de base. Mas para além disso, o que mais foi notório neste começo?

Uma intenção de circulação de bola menos vertical e mais horizontal, não necessariamente mais lenta mas a privilegiar a variação do centro de jogo até espaços se abrirem para progressão. Aquando da presença de jogadores mais maduros, construção a um, dois toques. Procura de atrair dum lado para explorar o outro;

Com bola, o desvio para o interior dos médios-ala. O incentivo a posicionar mais elementos dentro do miolo adversário (quando em posse no centro), libertando a responsabilidade de largura para os laterais;

Quando com espaço, o interesse em transitar para o meio-campo ofensivo solicitando o passe vertical nos avançados, que, após aproximação, libertam de primeira em quem está de frente para o jogo (médios-centro);

Ocupação pouco racional dos espaços por parte do quarteto de meio-campo quando sem bola. Insuficiência de coberturas pela dupla de centro-campistas, especialmente quando o foco está perto da linha lateral, proporciona demasiados espaços livres em zonas fundamentais. O "6" a acompanhar, individualmente, entradas diagonais e\ou verticais de adversários no último terço, despovoando o centro do meio-campo sem haver compensação por parte tanto pelo 2º avançado como pelos alas;

Alguns bons momentos de (re)criação com bola em zonas avançadas, destacando-se claramente Pizzi e Jonas como referências;

Carcela a deixar água na boca pela qualidade e velocidade de execução;

Ederson assusta com bola nos pés;

Jonathan Rodriguez a lembrar Chicharito. Entrega e disponibilidade apesar da pouca cultura de jogo, algo trapalhão com bola, constantemente a procurar a profundidade e a atacar zonas de finalização;

Nélson Semedo e Gonçalo Guedes a reclamarem mais minutos pela qualidade que demonstram.

No entanto, a pré-época é madrasta para análises precoces. Pelo pouco tempo de trabalho para implementar dinâmicas, pela influência de rotinas anteriores, pelo baixo nível de intensidade aferente aos jogos disputados. Apenas com uma maior amostra será realmente possível reconhecer padrões que afiram a qualidade dos processos.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Um derby ... razoável


8 de Fevereiro, o eterno derby do futebol português: Sporting vs Benfica.

Tacticamente, as equipas entraram para o jogo sem surpresas (mesmo esquema táctico de parte a parte); mas do lado do Benfica uma pequena alteração com André Almeida a figurar no centro do terreno ao lado de Samaris. Apesar de ter sido um jogo com intensidade física, com os jogadores a encararem o jogo com garra e vitalidade, do ponto de vista futebolístico o jogo não foi um “must see” que todos quereríamos assistir.

O anfitrião, no seu próprio estádio, não protagonizou um bom jogo de futebol, recorrendo sempre a um jogo mais directo e a valorizar a velocidade de Carrillo e a virtuosidade de Nani – sempre as referências do jogo ofensivo do Sporting. Tacticamente organizados e com linhas sempre juntas (quase todas as 2ªs bolas foram ganhas pelos verdes e brancos), a superioridade numérica que teve no meio-campo não foi suficiente para criar um fio de jogo atractivo, com passes curtos e desmarcações entre as linhas do Benfica. Defensivamente, a linha defensiva do Sporting não se mostrou suficientemente coordenada (apesar da boa exibição dos jovens centrais Paulo Oliveira e Tobias Figueiredo), assim como os interiores João Mário (sempre a jogar mais adiantado que o colega de meio-campo) e Adrien mostraram alguma permeabilidade defensiva, fazendo com que o Benfica na 1ª parte conseguisse jogar entre-linhas com Samaris a sair a jogar e Jonas a descobrir espaços para receber o passe vertical.

Todavia, do lado benfiquista o jogo foi ainda mais pobre. O Benfica mostrou-se tecnicamente débil, dificultando a construção de jogo numa primeira fase (onde em maior evidência realçamos Eliseu e Jardel, que mostraram ter problemas claríssimos em conseguir jogar com a bola controlada); a nível táctico, o Benfica mostrou-se ao seu nível, com o sector defensivo sempre atento a ler o jogo: controlando bem a profundidade e sabendo ajustar a linha defensiva nos momentos que devia. De quando em vez, vimos um Jonas inspirado a receber jogo ofensivo e clarividente em levar a sua equipa para a frente, tentando motivar os seus colegas de ataque. Tarefa que não conseguiu, mas não por culpa própria, porque hoje vimos um Salvio a decidir mal e a tentar elevar o jogo à sua capacidade individual; um Ola John a demorar muito com a bola no pé; e um Lima a não ser a referência ofensiva que o Benfica precisava, completamente ofuscado pelo bom jogo dos centrais adversários. Esta pobreza ofensiva fez com que o Rui Patrício tivesse uma noite bem descansada: não foi obrigado a fazer nenhuma defesa esforçada. Nem a entrada de Talisca aos ’64min - que por certo tinha o objectivo de receber dentro do bloco leonino, progredindo com bola para tentar um passe de morte ou fazendo uso da sua meia distância - conseguiu perturbar o guarda-redes da casa.

Na 2ª parte, vimos um Sporting mais atrevido, a trocar mais a bola e com mais jogadas de perigo: Montero por duas vezes obrigou Artur a ir ao relvado e Carrillo num bom cabeceamento também tentou a sua sorte. É bom realçar que William Carvalho voltou ao seu bom plano, sendo um esteio defensivo e uma mais-valia a lançar os ataques leoninos com bons passes verticais a chamar a jogo Montero, Carrillo e Nani.

Os golos, nos últimos minutos do jogo, são um exemplo representativo do que foi o jogo: um jogo aguerrido, sem muitas jogadas deslumbrantes, com atitude e seriedade dos jogadores de ambas as equipas e que resultaram em 2 ressaltos e, consequentemente, 2 golos.

Quem gosta de futebol, pedia mais e merecia melhor de um jogo que é sempre um marco na história do futebol português!

PS: Excelente arbitragem do árbitro Jorge Sousa. Nota bastante positiva para uma exibição que demonstrou que a equipa de arbitragem tem de ser o conjunto menos notado em jogos de futebol.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Paços de Ferreira e o fim de um recorde

O Benfica perdeu em Paços de Ferreira. Um resultado que, face ao que se passou em campo, é perfeitamente aceitável, diga-se. Foi apenas a terceira perda de pontos dos encarnados na competição, depois do empate na Luz frente ao Sporting e da derrota em Braga, frente ao Sporting de Braga.

Este registo valoriza ainda mais a vitória de hoje do Paços. Uma equipa muito bem orientada por Paulo Fonseca, que tem mostrado que a sua passagem falhada pelo Porto foi apenas um momento menos feliz da sua carreira. O seu Paços, tal como o Paços da sua primeira passagem pelo clube, é uma equipa que joga "à grande". Uma equipa muito organizada em todos os momentos do jogo, uma equipa que conhece bem os fundamentos do jogo e que consegue colocá-los em prática, e uma equipa que retira um grande rendimento de todos os seus jogadores, pois consegue pegar nas características individuais de cada atleta, e uni-las através de ideias comuns e transversais a todos. Só assim se explica que o treinador possa, por exemplo, colocar um médio de raiz (Romeu) no eixo defensivo, e ainda assim não se notar diferença em termos de rendimento.

Nada neste Paços parece ser feito ao acaso. A equipa dispõe-se principalmente num 4x4x2, sendo que no momento ofensivo é frequente passar a um 4x2x3x1, com o 9 (quer Cícero, quer Bruno Moreira) a funcionar como a referência na frente, maioritariamente para as bolas longas dos defesas, e com um segundo jogador que, dependendo das suas próprias características, tanto funciona como 10 ou como segundo avançado. No caso de ontem, foi a segunda opção, com a inclusão de Edson Farias no 11. Mas essencialmente, tudo neste Paços roda à volta de dois jogadores que actuam lado a lado na zona central do terreno e que são fulcrais para o modelo de jogo: Sérgio Oliveira e Seri. Com funções semelhantes dentro do modelo, são, no entanto, jogadores com perfis ligeiramente diferentes, e complementam-se quase na perfeição, dando à equipa grande qualidade nas fases de construção e no momento de organização ofensiva. É muito graças a eles que o Paços consegue adoptar a postura de "grande" em campo. O Sérgio é a referência na construção, o jogador que dá critério à posse da equipa e que liga a equipa através do passe. É hoje um dos bons valores portugueses da Liga e, a confirmarem-se os rumores de que voltará ao Porto na próxima temporada, terá uma segunda oportunidade para poder mostrar, na casa que o lançou para o futebol, o valor que lhe é reconhecido desde muito cedo na sua carreira. Já o Seri (que, curiosamente, também chegou ao futebol português através do Porto) é o médio de ligação entre sectores desta equipa. Um pequeno grande jogador de 1,68m, com um pulmão inesgotável, muito forte no preenchimento de espaços e que possui também várias valências ao nível técnico e do passe. O seu estilo de jogo, mais baseado no aspecto físico (corre vários quilómetros em todos os jogos, e sobretudo, sabe como, quando e para onde correr) complementa muito bem o estilo mais técnico e requintado do Sérgio. Uma das duplas mais interessantes da Liga.

Uma equipa que vale a pena seguir com atenção, este Paços. Quanto ao Benfica, destaque para um aspecto que me parece ter tido muita influência na derrota da equipa: a ausência de Gaitán. É impressionante a falta que o craque argentino faz a este Benfica, sobretudo ao nível da criatividade e da criação de oportunidades de golo. Em Paços de Ferreira, as soluções ofensivas do Benfica resumiram-se, quase sempre, a cruzamentos para a área. E aí, sem uma clara referência no jogo aéreo (Jonas e Lima, apesar de competentes nesse aspecto do jogo, não se destacam pela sua capacidade de ganhar bolas no ar), a defesa do Paços foi conseguindo, com maior ou menor dificuldade, resolver todos os lances. Perante isto, o Benfica foi incapaz de encontrar soluções ofensivas para chegar à baliza pacense. E isto também ajuda a explicar o fim de um recorde assinalável e que já durava desde Abril de 2012: com o nulo deste jogo, o Benfica quebrou uma série de 81 (!) jogos sempre a marcar.

E eis que, quando se pensava que o campeonato poderia começar a resolver-se, este volta a estar em aberto e, com a segunda metade da época pela frente, certamente que ainda teremos direito a assistir a muitas voltas e reviravoltas.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

O Futebol é Tóxico?

A falência do Banco Espírito Santo está na ordem do dia. Curiosamente pouco se tem falado nas implicações deste facto em relação ao futebol nacional. Talvez porque seja um tema de certa forma hermético. Talvez porque estamos em período de férias. Talvez porque é uma questão demasiado delicada e ninguém parece devidamente habilitado a levantar a ponta do véu sobre certos negócios e engenharias financeiras que nos últimos tempos têm suportado a atividade dos clubes, em particular os mais fortes. Talvez porque todos têm telhados de vidro nesta matéria e é difícil apontar o dedo aos outros...


É conhecida a relação próxima que o Grupo Espírito Santo mantinha com o futebol. A começar pela presença de um dos homens fortes do Grupo até há bem pouco tempo nos órgãos dirigentes do Sporting (José Maria Ricciardi), passando pelos patrocínios aos 3 Grandes, pelo suporte à gestão dos passivos dos clubes e suas Sociedades Anónimas e culminando na gestão direta de Fundos de Investimento exclusivos de Benfica e Sporting. É óbvio e natural que a queda da família Espírito Santo e seu grupo empresarial tenha reflexos profundos na vida e gestão dos principais clubes portugueses, mais que não seja porque deixaram de poder contar com os seus principais interlocutores na banca.

Os relatórios e contas das 3 SAD, a 30 de junho de 2013, apontavam para uma exposição global de Benfica, Sporting e FC Porto ao BES num valor superior a 200 milhões de euros, sendo cerca de dois terços relativos a dívida de curto prazo. Mais de metade desta exposição é responsabilidade da SAD benfiquista. 

É impossível dissociar a recente febre de venda de ativos benfiquistas desta realidade. Ao contrário do que tem acontecido com os seus rivais nota-se desmesurada urgência na realização de transferências por parte do Benfica. Vende-se tudo, a qualquer preço, desde que haja comprador. Vão-se os anéis tentando preservar os dedos.

Encontro dois motivos que justificam esta necessidade:

1 - O Benfica contraiu em dezembro do ano passado um empréstimo obrigacionista no valor de 50 milhões de euros com maturidade de 1 ano e emissão organizada pelo Banco Espírito Santo de Investimento, SA. Desde 2010, pelo menos, que o Benfica cumpre o pagamento das obrigações contraindo novo empréstimo obrigacionista. Sempre com o BES como parceiro privilegiado. Agora já não há BES e desconfio que a facilidade para contrair novo empréstimo desta dimensão daqui a 4 meses não será a mesma...

2 - O Benfica Stars Fund é um fundo de investimento criado em setembro de 2009 com duração prevista para 5 anos. Sim, o prazo deste fundo de valores mobiliários termina daqui a 2 meses. Do Relatório e Contas da Benfica SAD relativo à época de 2012/13: "À data do presente relatório ainda não foi tomada uma decisão sobre a opção a tomar no final do período previsto para o Fundo. A contabilização dos activos e passivos decorrentes do Benfica Stars Fund, assim como o reconhecimento dos rendimentos no período, foi efectuada no pressuposto da continuidade do Fundo após 30 de Setembro de 2014.

Embora a Espírito Santo Activos Financeiros, SGPS (ESAF) tenha transitado para o Novo Banco não é líquido que, com a nova administração, haja continuidade do Benfica Stars Fund. E o que é certo é que vários dos jogadores que tinham parte dos seus direitos económicos no Fundo já foram vendidos (Kardec, André Gomes, Rodrigo, Garay, Cardozo).

quarta-feira, 23 de julho de 2014

O entendimento inevitável

Já por aqui falei sobre o alheamento e desvalorização a que os principais clubes de futebol portugueses votaram os assuntos relacionados com a Liga por ocasião das recentes eleições para os seus órgãos dirigentes. É um alheamento que decorre do esvaziamento de competências da própria Liga e que já tem alguns anos. Sem a arbitragem, a disciplina e a justiça é convicção dos principais clubes que as matérias que ainda competem à Liga não justificam o seu envolvimento direto. A Liga ficou, assim, à mercê dos clubes pequenos, de vistas curtas, subordinados a lógicas de protagonismos e egos pessoais. Ficou, em suma, um caos. E os clubes com maiores responsabilidades assistindo, impávidos, numa atitude de quem acredita que os problemas existentes estariam condenados a resolver-se sem terem necessidade de utilizar os seus esforços, capacidades e influências.


Não podiam estar mais errados! Há uma matéria fundamental e determinante que ainda reside no âmbito de competências da Liga: a organização das competições. Sem competições não há negócio! E sem orçamento para as organizar não há competições! E hoje a Liga não tem dinheiro. Não tem patrocinadores, não tem abertura legislativa para regular as apostas online, nem tem meios disponíveis para forçar alterações no que respeita aos direitos televisivos. Com o início das competições profissionais agendado para o próximo fim de semana (1ª jornada da fase de grupos da Taça da Liga) ainda ninguém sabe se haverá condições para que elas decorram com normalidade. Não há dinheiro para pagar a árbitros, a funcionários, a delegados e observadores e para a restante panóplia de pequenas despesas imprescindíveis que asseguram a realização dos jogos.

O Governo, via Secretário de Estado do Desporto e da Juventude, manifestou a sua preocupação; a Federação manifestou igualmente preocupação e convocou clubes e Liga para uma reunião com vista ao estabelecimento de uma plataforma de entendimento que promovesse a procura de soluções para o imbróglio gerado no seio da Liga. Essa reunião serviu, na prática, para "puxar as orelhas" aos responsáveis pelos clubes e para os intimar a que se organizem, que se entendam e que resolvam os problemas que criaram.


Os clubes acusaram o "toque" e nasceu uma comissão de trabalho liderada pelos 3 grandes. É assim que funciona o futebol português. Parecem um bando de catraios birrentos que necessitam de uns açoites para se comportarem devidamente e fazerem o que lhes compete.

Paralelamente vai ser interessante acompanhar o posicionamento das principais figuras neste processo. Bruno de Carvalho, que lutou por entendimentos e consensos sem qualquer sucesso e que, birrento, acabou por votar favoravelmente na lista de Mário Figueiredo, como se posicionará agora? Pinto da Costa, que aparece ao lado dos contestatários em manifestações em bombas de gasolina mas que prima pela ausência nos momentos em que se tomam, de facto, decisões, que papel terá? E Luís Filipe Vieira que não perde nenhuma oportunidade de marcar pontos em termos de liderança e sentido de responsabilidade (toda a comunicação social fez questão de realçar que foram dele as ideias de criação desta comissão e da participação ativa dos 3 grandes no processo), que fará quando vierem à tona assuntos em que tenha posições discordantes dos restantes?

A não perder os próximos episódios desta triste novela...

Declarações de Hermínio Loureiro, à saída da reunião entre a FPF e os clubes:


segunda-feira, 21 de julho de 2014

João Teixeira

Há certos jogadores que não enganam. Este é um deles. Um par de jogos como titular na equipa principal foram suficientes para se perceber a enorme pérola que a formação benfiquista possui. O que mais surpreendeu foi a maturidade com que encarou as várias situações que foi encontrando ao longo do jogo. Não há linha de passe segura? Conduz até um adversário sair à bola para depois soltar. Há escolha entre lateralizar ou verticalizar pela zona central? Sempre espaço central e fá-lo com eficácia. É necessário equilibrar a última linha pela saída de um central ou lateral? Lá vai o miúdo. É preciso deixar a zona de ação e fazer cobertura ao homem que saiu na pressão? Invariavelmente, ele diz presente.

As qualidades são muitas e o potencial parece indicar que, a longo-prazo, João Teixeira procurará desafios que a Liga Portuguesa não lhe conseguirá oferecer. Mas há que dar tempo para que a evolução seja sustentada (sem a pressão habitual dos adeptos que esperam sempre o aparecimento do próximo Rui Costa) e dentro dum contexto que o obrigue a crescer.

Com Fejsa de fora até 2015 e Rúben Amorim como única melhor opção a curto-prazo para o lugar, será uma afronta se o jovem jogador não ficar no plantel. Mesmo que não faça tantos minutos como faria se saísse por empréstimo, as vantagens de crescer sob a orientação de um dos melhores treinadores da Europa são muitas e poder treinar diariamente com grandes jogadores, inserido num contexto de qualidade e que o obrigue constantemente a lutar para melhorar, é algo que o ajudará a evoluir no caminho certo... para que não se torne em mais um caso mal gerido.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

A construção sem fim

A carreira de um treinador é madrasta para quem pretende alcançar a perfeição. Ao lidar frequentemente com situações fora do seu controlo e com a obrigação de muitas vezes encarar os objetivos propostos com armas inferiores ao que se precisa, surge a necessidade da reinvenção... constante. Lesões, castigos, vendas, seja o que for, haverá sempre algo a bloquear o sonho do jogar perfeito.

Vejamos a situação atual de Jorge Jesus no Benfica. Do plantel campeão do ano passado, Garay, Siqueira e Markovic (praticamente) já saíram. Rodrigo e André Gomes estão vendidos e o mais certo é ficarem de fora das opções para o plantel a curto-prazo. Oblak está com um pé no Valência e a situação de Enzo Perez e Gaitán continua por clarificar. Ou seja, do 11 base da época passada, Jorge Jesus pode vir a perder mais de metade.

No entanto, os objetivos mantêm-se: Campeonato, Taça e brilharete nas competições europeias. Dê por onde der, Jesus vai ser obrigado a reconstruir ideias e princípios de jogo, com 95% de certezas que a qualidade global do plantel deste ano vai ser inferior ao do anterior que foi, provavelmente, o melhor desde que chegou ao Benfica.

Tendo Jesus até agora nunca abdicado do deu 4-4-2, fica no ar a dúvida de como irá organizar as ideias do seu Benfica. Taticamente, o ano passado foi o melhor até agora, até porque a qualidade individual dos jogadores assim o proporcionou. Talvez a melhor equipa da Europa a defender com poucos elementos, essa qualidade permitia ao Benfica atacar com muitos, mantendo o equilíbrio no momento da perda e reagia invariavelmente da melhor maneira. Mérito do treinador e da capacidade de adaptação dos jogadores às situações de jogo.

Uma das grandes evoluções do Modelo de Jesus no último ano foi ter os médios-ala mais próximos do centro do terreno. Existiam mais opções por dentro, os laterais davam largura e o jogo benfiquista fluía duma maneira que não era vista desde 09\10. Grande parte desse salto qualitativo foi ter Markovic e Gaitán nos flancos, jogadores que pelas suas características "obrigaram" a essa mudança. Era notório, por exemplo, aquando da entrada de Salvio no onze, o decréscimo no jogar do Benfica. O argentino procura mais situações de 1x1, muitas delas em direção à linha final e apesar de dar mais verticalidade perde noutros (vários) momentos para o sérvio. Saindo Markovic e Gaitán, Jesus será obrigado a criar princípios que retirem o melhor dos novos titulares, mas fica a dúvida se isso irá obrigar a um jogo ofensivo mais largo, com apoios mais distantes, e por consequência, com menos controlo da Transição e dos espaços.

Quantos dos que saíram (ou sairão) apanharam Jesus de surpresa? E para colmatar essas saídas, quantos dos que chegaram (ou chegarão) são exatamente aqueles que o treinador pediu? Assim é a vida de um treinador. Fatores internos e externos obrigam a haver uma constante renovação nas ideias de jogo, adaptando-se às circunstâncias e sempre com os objetivos lá em cima. Difícil? Sim. Apaixonante? Sem dúvida. É um trabalho sem fim, com um objetivo utópico e que por muito complicado que seja a certas alturas, é como uma droga: quanto mais se entranha mais falta se sente quando não lá estamos.