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domingo, 2 de julho de 2017

Coisas que se passaram em 2016/2017

I. Se há sensivelmente um ano e meio se afirmasse que o Benfica de Rui Vitória iria sagrar-se bicampeão e confirmar definitivamente a hegemonia interna do clube da Luz, muito boa gente (eu incluído) rir-se-ia com gosto. Mas, ao contrário de quase todas as expectativas, foi isso mesmo que aconteceu. Por aqui, ainda que se considere que o atual treinador do Benfica beneficiou de uma conjuntura algo favorável, sobretudo neste segundo ano, com um plantel vários furos acima da concorrência e uma estrutura do futebol consolidada, há que reconhecer que se o Benfica evoluiu de um coletivo totalmente disfuncional, com cada um a correr para seu lado, para uma equipa organizada e que dá liberdade aos jogadores mais talentosos para soltarem o seu futebol, também o deve ao trabalho de Rui Vitória e da sua equipa técnica. O mérito a quem o merece.

II. Sem querer “fazer prognósticos à segunda-feira”, sempre me pareceu que a decisão de entregar um plantel com tantos executantes de qualidade a um treinador com a matriz de jogo de Nuno Espírito Santo tinha tudo para correr mal. O Porto viu-se eliminado das taças internas e da Liga dos Campeões demasiado cedo – é verdade que aqui caiu aos pés da futura vice-campeã, mas apenas porque falhou pateticamente o primeiro lugar num grupo facílimo – e essa circunstância permitiu-lhe concentrar-se exclusivamente no campeonato e disputá-lo quase até ao fim, mas nem esse facto apaga a pálida imagem deixada pelos pupilos do ex-treinador de Rio Ave e Valência ao longo de toda a temporada. Com um sistema de jogo rígido e um futebol retilíneo e aos repelões, que não potenciava minimamente a qualidade individual existente, só por um acaso do destino o desfecho podia ser outro que não zero títulos e o despedimento do treinador.

III. Se em relação ao Porto de Nuno Espírito Santo as expectativas não saíram propriamente defraudadas, porque não se esperava muito do protegido de Jorge Mendes, o mesmo não se pode dizer do Sporting de Jorge Jesus, que depois de bater o recorde de pontos do clube e de perder o título por uma unha negra em 2015/2016, tinha tudo para manter a toada em 2016/2017, pese embora as vendas de João Mário e Slimani. Mas o que se viu foi um Sporting que, em janeiro, já só tinha o campeonato para disputar, sendo que nem nesta competição se apresentou competitivo, tendo ficado a 12 pontos do primeiro lugar e tendo encaixado uns incríveis 36 golos em 34 jogos! Além da crença de que é tão competente que até com três ou quatro marretas na linha defensiva consegue colocar uma equipa a defender bem, o erro capital de Jorge Jesus foi ter abdicado de praticamente tudo o que de bom construiu na temporada transata para tentar encaixar Bas Dost e Gelson Martins no onze titular. Ao avaliar – erradamente – o incrível ponta de lança holandês como “um pinheiro” e ao querer fazer de Gelson o principal (e único?) motor ofensivo da equipa, Jorge Jesus modificou posicionamentos e movimentações que tinham funcionado no passado, para que a bola passasse a entrar nestes dois jogadores nas melhores condições possíveis. É verdade que, com isso, conseguiu fazer de Gelson um dos jogadores mais influentes do campeonato e de Dost o melhor marcador destacado, mas…à custa de quê? De um Sporting mais desequilibrado atrás, com laterais e médio defensivo muitas vezes expostos devido ao posicionamento excessivamente largo dos extremos, e mais previsível no último terço, com a bola a entrar sempre nos mesmos espaços e sempre da mesma forma. Em suma, uma época falhada e que deve fazer refletir seriamente os responsáveis leoninos.

IV. A Premier League, por todas as razões e mais algumas, era a competição sobre a qual recaíam todos os olhares e o melhor elogio que se pode fazer é que não defraudou em nada as expetativas. Na ressaca de uma Premier League completamente atípica, com o inesperado Leicester a sagrar-se campeão, assistiu-se desta feita a um campeonato bem disputado, nivelado por cima, taticamente mais rico do que é habitual (a título de exemplo, Chelsea, Tottenham, Manchester City e Arsenal jogaram regularmente com três defesas, uma autêntica raridade em solo britânico), com a maior parte das principais equipas a melhorarem as respetivas pontuações e classificações. Aliás, a ordem do top 6 foi justa e refletiu, de um modo geral, a qualidade de jogo apresentada pelas equipas: um Chelsea à imagem do seu treinador, ou seja, organizado sem bola e cerebral com ela, que é meio caminho andado para ter sucesso em Inglaterra; um Tottenham superiormente trabalhado por Mauricio Pochettino, mas que revelou alguma falta de tarimba e experiência nos momentos decisivos; um Manchester City a praticar, a espaços, o melhor futebol da prova, mas penalizado pela extrema irregularidade exibicional; um Liverpool com boas intenções, mas contagiado pela vertigem do futebol inglês e com um plantel curto para ambicionar a mais do que o 4º lugar; uma das piores versões do Arsenal de que há memória na era Wenger e que ficou naturalmente fora dos lugares de acesso à Liga dos Campeões, pela primeira vez em muitos anos; e, por fim, um Manchester United mais ofensivo do que se esperava, atendendo ao historial recente de José Mourinho, mas a demonstrar que ter muito volume de jogo não é igual a ter bom volume de jogo, como atestam os apenas 54 golos marcados (menos 25/30 golos do que as cinco equipas que ficaram à sua frente!) e os 15 empates concedidos em 38 jogos.

V. Em Espanha, o Real Madrid venceu finalmente o campeonato, que lhe fugia há quatro épocas, e juntou-lhe ainda a segunda Liga dos Campeões consecutiva, um feito inédito na história recente da competição. Tenho lido análises diametralmente opostas sobre os méritos de Zinedine Zidane – por um lado, há quem sustente que o treinador teve pouca ou nenhuma influência nestas conquistas e, por outro lado, há quem seja da opinião que quando se ganha troféus tão prestigiados, tem que haver necessariamente competência do treinador. A minha opinião estará algures no meio: não concordo, de todo, com a segunda premissa, mas tenho que admitir que nunca tinha visto um Real estrategicamente tão bem preparado para os jogos decisivos (nem com Mourinho), pelo que me parece justo afirmar que também houve dedo de Zidane na excelente época do conjunto madrileno. Porém, a meu ver, o fator realmente diferenciador foi mesmo o incrível plantel do Real, o mais bem apetrechado do mundo nos dias que correm e certamente um dos melhores da história do clube. Quanto ao Barcelona, bastará uma frase para resumir o que foi a época blaugrana: nem a genialidade de Messi foi suficiente para evitar a mais que anunciada derrocada do Barcelona de Luis Enrique.

VI. Na Serie A, o trabalho de Massimiliano Allegri na Juventus não pode ser menosprezado – em três anos, três dobradinhas e duas finais da Liga dos Campeões! – mas tenho para mim que qualquer treinador minimamente competente, ao herdar a máquina bem oleada deixada por Conte, teria conseguido um pecúlio semelhante, pelo menos a nível interno. O desnível individual em relação às restantes equipas é abissal e a organização estrutural do hexacampeão não tem par em Itália. Do meu ponto de vista, o treinador que importa destacar em terras italianas é Mauricio Sarri, cujo Nápoles apresenta um dos modelos de jogo mais completos e complexos da atualidade e que está em crescendo de época para a época. Aliás, não é de agora que acho o Calcio um campeonato extremamente subvalorizado: apesar da hegemonia da Juventus nos últimos anos, é uma prova que se caracteriza pela abundância de treinadores com propostas de jogo interessantes (Sarri, Paulo Sousa, Eusebio Di Francesco, Spaletti, Montella, Pioli, Gasperini, etc), pela variabilidade táctica e pela qualidade dos espectáculos. Para que haja maior alternância no campeão, só falta mesmo uma capacidade de investimento ao nível do que acontece atualmente na Premier League e na La Liga, de forma a que as principais equipas se possam aproximar do nível da Juventus, mas acredito que, com a entrada em força de capital chinês, não deverá faltar muito para que o salto qualitativo aconteça.

VII. Em relação ao sempre polémico tema da Bola de Ouro, neste momento restam poucas dúvidas de que Cristiano Ronaldo arrecadará, pela quinta vez, o conceituado galardão. E este ano, ao contrário do que aconteceu em 2016, não tenho muito a obstar: é indesmentível a preponderância de Ronaldo para as conquistas do Real Madrid, nomeadamente na Liga dos Campeões (recordo que Ronaldo marcou 10 golos nos 7 jogos da fase a eliminar, a maior parte deles decisivos!), e esse critério, ainda que não seja o meu, é perfeitamente aceitável e defensável. O meu único lamento, quando ainda faltam 6 meses para o prémio ser atribuído, prende-se com o facto da unanimidade em torno da justiça de novo triunfo do melhor jogador português de sempre não fazer jus a mais uma sensacional época de Lionel Messi, que levou o Barcelona às costas até quando lhe foi humanamente possível: no fundo, a prestação do craque argentino justificava claramente uma maior dose de emoção e incerteza na hora de entregar a Bola de Ouro.

VIII. Contrariamente às previsões da maioria dos comentadores desportivos, para quem a vitória de Portugal na Taça das Confederações era praticamente um dado adquirido, a seleção portuguesa acabou por não ir além das meias-finais, tendo caído perante o Chile, no desempate por grandes penalidades. O desfecho não me surpreendeu, tal como não me surpreenderá se Portugal tiver uma participação relativamente modesta no Mundial do próximo ano. O que vou dizer certamente escandalizará muitas pessoas, mas cá vai: Portugal não tem um modelo de jogo consolidado e comum a todos os escalões (e tinha condições para o ter), não está sequer a procurar fazer a imprescindível renovação de valores (e tinha condições para a fazer) e o que aconteceu é que se limitou a ganhar uma competição a eliminar da mesma maneira fortuita que, por exemplo, o Chelsea de Di Matteo também ganhou uma Liga dos Campeões, ou seja, com uma abordagem de risco mínimo, alguma qualidade individual e uma improvável e irrepetível conjugação de fatores que não pode controlar. Obviamente, nada disto é sustentável a médio/longo prazo – como ficou evidente nesta Taça das Confederações, em que só por manifesta infelicidade o Chile, uma seleção teoricamente do nosso nível, não resolveu a questão no tempo regulamentar – e se nada de verdadeiramente significativo se alterar até lá, temo bem que as fragilidades desta seleção ficarão à vista de todos no Mundial de 2018.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Balanço de Final de Ano

1. O Sporting, na novela mais quente do Verão, trocou Marco Silva por Jorge Jesus e, à passagem da 13ª jornada, está na liderança isolada do campeonato, com dois pontos de vantagem sobre o Porto e sete sobre o Benfica. Além disso, comparativamente com o mesmo período da época passada, o Sporting tem menos um golo marcado, mas tem mais onze pontos, mais cinco vitórias, menos quatro empates, menos seis golos sofridos, ainda não perdeu…Sinal de que tudo vai bem no reino do leão? Com certeza que não. Não partilhando da opinião veiculada sobretudo por adeptos dos rivais de que este Sporting joga pouco futebol – defensivamente, a diferença é do dia para a noite, e mesmo em termos ofensivos, já se veem movimentações e intenções dos jogadores que não se viam com Marco Silva e não se veem nem no Porto nem no Benfica – parece-me haver um défice claro de qualidade individual, o que retarda necessariamente o crescimento da equipa enquanto coletivo e pode ajudar a explicar algumas vitórias tangenciais, que podiam perfeitamente ter resultado em empates. O modelo de jogo de Jorge Jesus é complexo e exigente a todos os níveis e, para estar em Dezembro a jogar já perto do seu potencial máximo, eram precisos executantes com uma qualidade técnica e de decisão que não está ao alcance de um João Pereira, de um Naldo, de um Adrien, de um Teo ou de um Slimani (só aqui já está meia equipa habitualmente titular). Ewerton, André Martins, Aquilani, Carrillo, Matheus Pereira e Montero, esses sim têm essa capacidade, mas, por uma razão ou por outra, não têm estado entre as primeiras opções de Jesus, pelo que o futebol do Sporting tem tardado em dar o salto qualitativo. Resumindo: a meu ver, apesar dos indicadores positivos, o Sporting será tanto mais candidato ao título quanto mais vezes incluir no onze inicial os jogadores acima referidos. Noutro âmbito, a chegada do fantástico Bryan Ruiz constitui a melhor notícia do defeso em Portugal, talvez a par da contratação de Mitroglou pelo Benfica.

2. Há quem seja da opinião que Julen Lopetegui é um treinador com uma boa ideia de jogo, mas que não sabe bem como operacionalizá-la, nem quais os melhores jogadores para a executar. Acho precisamente o contrário: o treinador espanhol sabe pôr uma equipa a jogar como quer e também sabe escolher os executantes mais adequados para o seu modelo de jogo, mas boas ideias é tudo o que não tem, pelo menos a nível ofensivo. É tudo rígido, padronizado e previsível, mas estou plenamente convencido de que Lopetegui quer e sempre quis que o Porto jogasse como joga: sem bola, uma reação rápida e agressiva à perda, com um meio-campo essencialmente de suor e rigor tático; com bola, uma circulação em “U”, sempre por fora e com largura máxima em todos os momentos, para que depois os laterais e os extremos desequilibrem ofensivamente. Alguma vez o Porto de Lopetegui foi ou pretendeu ser algo diferente disto? Não me parece. E é por essa razão que o Porto não se consegue assumir definitivamente como o candidato mais forte ao título, como era, de resto, sua obrigação: uma ideia de jogo sem qualidade, que não potencie toda a qualidade individual existente, mesmo que esteja superiormente operacionalizada, não deixa de ser uma ideia de jogo sem qualidade.

3. No Benfica, Luís Filipe Vieira, que se não está com a corda ao pescoço em termos financeiros, disfarça muito mal, decidiu abrandar o investimento massivo no futebol e abdicou do bicampeão Jorge Jesus (que, para grande transtorno seu, foi parar ao outro lado da Segunda Circular…) para ir buscar o mais económico Rui Vitória. Rui Vitória é um treinador que subiu na carreira a pulso e que tem conseguido resultados interessantes, sobretudo no problemático Vitória de Guimarães, mas o futebol pouco elaborado das suas equipas não augurava nada de bom e estes primeiros meses à frente do Benfica apenas têm confirmado essas suspeitas. O que se vê é um treinador de equipa pequena a tentar, sem sucesso, operacionalizar um modelo de equipa grande e, seja qual for a opção tomada daqui para a frente, as perspetivas não são animadoras: se quiser trabalhar o modelo em que acredita, o mesmo não vai ser suficiente, porque a concorrência está forte e colocou a fasquia alta; se quiser trabalhar um modelo em que não acredita, não tem competência para tal, pelo que os resultados dificilmente serão positivos. Prevêem-se tempos difíceis na Luz, ainda para mais sem um plantel extraordinário em termos individuais…No entanto, além dos consagrados Júlio César, Gaitán, Jonas e Mitroglou, há um valor seguro para o futuro: Nélson Semedo. Quanto aos hipervalorizados Renato Sanches e sobretudo Gonçalo Guedes…Bem, vamos esperar para ver.

4. Em Inglaterra, a Premier League, ao contrário do que se apregoa, é um campeonato competitivo, mas nivelado por baixo, como se comprova pelos constantes insucessos das equipas inglesas nas competições europeias: o Manchester City tem todas as condições para dominar o campeonato, mas joga abaixo do seu potencial, porque não tem uma liderança técnica capaz de elevar a equipa para um patamar superior (não está em causa a competência de Pellegrini, que é um treinador que aprecio); Van Gaal está ultrapassado e já não parece ter capacidade para operacionalizar a 100% a sua interessante ideia de jogo; Mourinho estagnou completamente e, neste momento, é um treinador que não se diferencia dos demais e que tanto pode ser campeão num ano, como no ano seguinte andar pelo meio da tabela; Wenger continua a repetir os mesmos erros, ano após ano, e o Arsenal estava melhor servido com uma equipa técnica mais moderna e bem preparada. O Tottenham de Pochettino e o Everton de Roberto Martínez são equipas que procuram um “jogar” mais evoluído do que é habitual em terras de Sua Majestade, e a contratação de Klopp pelo Liverpool é uma ótima notícia para a evolução do futebol inglês, mas não é suficiente, nem de perto nem de longe. É necessário que as equipas com maior poderio financeiro da Premier League contratem não só jogadores de grande qualidade, mas também treinadores que consigam rentabilizar ao máximo toda a qualidade individual existente, para que as restantes equipas também sintam necessidade de evoluir e subir a fasquia, contratando jogadores de qualidade e sobretudo treinadores com ideias e métodos de trabalho diferentes. Por exemplo, só num campeonato nivelado por baixo e em que as equipas grandes estejam mais próximas em qualidade das equipas mais pequenas do que o contrário, é que é possível que equipas com modelos de jogo rudimentares como o Leicester e o Crystal Palace estejam, em Dezembro, tão acima na tabela classificativa. O facto de o melhor treinador britânico em atividade ser provavelmente Alan Pardew também devia ser um indicador, no mínimo, preocupante. A Premier League tem evoluído muito na última década e o conhecimento técnico-tático existente é agora maior do que nunca, mas, no meu entender, ainda tem um longo caminho a percorrer até poder justificar o epíteto de “melhor liga do mundo”. Talvez a mais que anunciada chegada de Guardiola seja a pedrada no charco de que o futebol inglês necessita.

5. Em Espanha, não há muito a destacar: Florentino Pérez, não contente com a decisão absurda de afastar Ancelotti do comando técnico do Real Madrid, resolveu animar ainda mais as coisas e entregou aquele que é, provavelmente, o melhor plantel do mundo a…Rafa Benítez. Sim, aconteceu mesmo. No momento em que escrevo estas linhas, a vantagem pontual do Barcelona já é de cinco pontos, por isso ficarei muito surpreendido se Messi, Neymar, Iniesta & Cia não revalidarem o título de campeões espanhóis em Maio, desta feita sem o lendário Xavi Hernández. O Barcelona de Luis Enrique é, nos dias que correm, uma equipa super vertical, que pratica um futebol direto e de procura constante da baliza contrária, e que, por isso, já não consegue controlar tão bem os ritmos de jogo e o adversário, mas a qualidade individual assombrosa e a falta de oposição interna deverão chegar para vencer tranquilamente o título (porém, muita atenção ao Atlético de Madrid!). Destaque para o aparecimento na equipa principal do jovem Sergi Roberto, que agarrou a oportunidade que Luis Enrique foi obrigado a dar-lhe (saída de Xavi, lesão prolongada de Rafinha, problemas físicos de Iniesta, etc) e tem agora o caminho aberto para se afirmar como um dos grandes médios espanhóis do futuro.

6. A Serie A, um campeonato caído em desgraça e que bem precisa de novos estímulos, deu a conhecer ao mundo dois treinadores de enorme valor: Maurizio Sarri e Paulo Sousa, este bem conhecido do público português. A Fiorentina de Paulo Sousa e sobretudo o Nápoles de Sarri são equipas que procuram controlar o jogo através da posse de bola e da pressão alta desde o primeiro minuto e que não têm problemas em jogar com três e quatro médios de características ofensivas ao mesmo tempo, o que constitui claramente um sinal de que o futebol italiano, se houver um esforço coletivo dos clubes, pode perfeitamente reinventar-se e reerguer-se. Infelizmente, Juventus, Inter e Milan, os clubes que, pelo seu peso histórico, mais possibilidades tinham de comandar esta mudança de mentalidades, preferiam manter ou ir buscar treinadores que pensam e trabalham como 90% dos treinadores mundiais, por isso o campeonato perdeu algum do interesse que poderia ter. No entanto, já que Rudi García da Roma se revelou uma desilusão, quero acreditar que Sarri e Paulo Sousa estão a lançar algumas bases importantes para o futuro a médio prazo do Calcio.

7. Na Bundesliga, o Dortmund contratou um dos treinadores mais talentosos da atualidade – Thomas Tuchel – e mantém um plantel repleto de jogadores que tinham lugar em quase todos os grandes clubes europeus, com Hummels, Gündogan, Kagawa, Mkhitaryan, Reus e Aubameyang à cabeça, mais o muito promissor Weigl, mas Guardiola é mesmo de outro planeta e o Bayern chega ao dobrar do campeonato com 43 pontos em 48 possíveis e cinco pontos de vantagem sobre o Dortmund. Além dos resultados esmagadores, o genial treinador catalão continua a inovar taticamente como nenhum outro e a dar lições em todos os jogos, embora muitos nem sequer se apercebam disso: recordo que o Bayern, a jogar habitualmente num 2-3-5 (!) com Boateng como único jogador de características defensivas e Robben, Müller, Douglas Costa, Coman e Lewandowski na frente, mesmo que os adversários concretizassem todos os remates enquadrados com a baliza de Neuer, continuaria a liderar a Bundesliga. Incrível! Já para não falar da facilidade com que o Bayern troca de sistema de jogo para jogo ou mesmo durante o jogo, alterando entre 4-3-3, 4-4-2, 3-5-2, 3-4-3 e 2-3-5 como se nada fosse, e do rendimento estratosférico de jogadores como Alaba, Douglas Costa, Müller, Lewandowski ou mesmo Boateng. Luis Enrique merece o prémio de melhor treinador de 2015, pelos títulos que conquistou, mas não tenho dúvidas nenhumas de que o treinador referência foi, para não variar, Pep Guardiola.

8. Sobre a Bola de Ouro, cujos resultados serão conhecidos no dia 11 de Janeiro, apenas duas notas rápidas, porque há algumas pessoas com problemas de memória. Primeiro, para os que são da opinião que é um escândalo Luis Suárez não estar no lugar de Cristiano Ronaldo nos três finalistas, convém lembrar que o avançado uruguaio só em Abril/Maio é que começou a render a bom nível e a contribuir com alguma qualidade para a manobra ofensiva do Barcelona para além dos golos…Até lá, foi quase sempre um corpo estranho na equipa e sentiu grandes dificuldades de adaptação, por isso a escolha de Ronaldo é mais do que compreensível, pese o final de época algo apagado. Segundo, Neymar teve um ano incrível, não só na finalização, mas também na criação, e assumiu-se definitivamente como jogador de eleição, mas só merece a Bola de Ouro se se esquecer tudo o que Messi fez até se lesionar em Setembro. É bom não esquecer que Messi rubricou possivelmente a melhor época da carreira – o que quer dizer muito, tendo em conta o nível elevadíssimo que atingiu com Guardiola – com exibições quase sobre-humanas, em que foi o principal motor criativo de um Barcelona que ganhou tudo o que havia para ganhar. Mas a Bola de Ouro sempre foi isto: aconteça o que acontecer, para a opinião pública, o que interessa é como se acaba o ano. Posto isto, Messi, Neymar e Ronaldo seriam as minhas escolhas para a Bola de Ouro, por esta ordem.

O "Com Pés e Cabeça" aproveita para desejar a todos os leitores um Feliz Natal e um Bom Ano Novo!