Tem sido amplamente discutida nos últimos dias a pertinência da decisão de Veloso nos primeiros minutos do Portugal - Alemanha, quando após roubar a bola a Lahm na primeira fase de construção alemã, e encontrando a defesa alemã inevitavelmente desequilibrada, opta pelo passe a Ronaldo. De forma geral, a decisão tem sido catalogada como errada. Consegue-se perceber porquê, mas será que chega a análise superficial?
Do ponto de vista meramente teórico, de situação de 3x2+1 em que os jogadores são meros intérpretes de uma situação hipotética, percebe-se quem defende o erro de Veloso. Ronaldo chega posteriormente, Almeida já lá estava. Almeida estava em zonas interiores (mais perto da baliza), Ronaldo recebe a bola na lateral e num ângulo desfavorável. Mertesacker comporta-se superiormente: perante a cobertura de Hummels encurta caminho ao portador e abranda ligeiramente quando sente o deslocamento de Ronaldo nas suas costas. E agora, Veloso?
Veloso opta por Ronaldo porque as decisões no futebol não acontecem ao acaso. No futebol, como na vida, no nosso subconsciente durante aqueles milésimos de segundos joga-se um jogo probabilístico e emocional de alta intensidade que tem tremenda influência quando somos forçados a tomar decisões deste calibre. A grande matriz impulsionadora desta tomada de decisão são as experiências anteriores que se fazem representar no nosso cérebro por marcadores somáticos, terminologia sustentada e superiormente defendida por António Damásio no seu Erro de Descartes. Isto parece fazer ainda mais sentido em algo tão imediato e tão rápido como uma decisão deste género: se para tomar a decisão o nosso cérebro precisasse de uma reflexão profunda sobre o assunto a oportunidade desvaneceria-se.
Os marcadores somáticos associam emoções e estados fisiológicos positivos a decisões. Se perante o estímulo da decisão x o meu colega falhar o golo no treino, e perante a decisão y em que eu opto por outro colega ele conseguir marcar, provavelmente eu optarei mais vezes pela decisão y. Associa-se a ela um estado fisiológico positivo, um marcador somático que marca positivamente aquela decisão. O contrário também se passa: se de todas as vezes em que eu tento fintar no treino perder a bola, ou receber feedback negativo do treinador, o marcador somático negativo associado a esse processo fará com que eu evite aquele comportamento. Se por outro lado eu tiver particular sucesso a rematar de fora da área, não preciso de incentivo: da outra vez correu bem, porque não? Isto explica, por exemplo, porque é que os finalizadores em crise de confiança evitam o remate, procuram situações alternativas, escondem-se desse momento do jogo.Passando à situação concreta, eu tenho a ligeira desconfiança de que, não obstante todas as condicionantes,
das vezes em que o Veloso passou a bola a Ronaldo a equipa dele teve mais sucesso que quando resolveu entregar a bola a Hugo Almeida: marcador somático positivo associado a passar a bola ao Ronaldo.
E agora: Veloso decidiu bem ou mal?