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quarta-feira, 16 de julho de 2014

Retrospetiva do Mundial

Terminou a maior competição do panorama futebolístico. Foram 4 semanas de futebol, numa competição recheada de golos, surpresas, festa e com a confirmação que o antigo ditado ainda se aplica: "São 11 contra 11 e no fim ganha a Alemanha". Mas foi realmente este um dos melhores Mundiais de sempre? Vejamos: 

AS 4 SEMI-FINALISTAS

Das 4 equipas que chegaram às decisões finais, apenas uma apresentava um futebol de qualidade: a Alemanha. E aqui fala-se em futebol de qualidade com a premissa de ideias coletivas de valor, não da dependência de individualidades para atingir a vitória. 

Comecemos pelo 4º classificado: o Brasil. Desde o 1º jogo que os canarinhos apresentavam deficiências coletivas graves. Superioridade na zona da bola? Nem a defender, quanto mais a atacar. Apesar de não defenderem com referências individuais per se, em todos os jogos existiram uma mão-cheia de erros defensivos a surgirem da tentação de seguir o adversário e não a ocupação racional dos espaços. No ataque era cada um por si. A partir do momento em que a bola entrava num dos 4 homens da frente, o objetivo era sempre procurar espaços longe do portador, sem nunca haver a preocupação (e paciência) para procurar melhorar as circunstâncias do lance e os melhores timings de entrada. Além disso, a pressão a que os jogadores foram expostos antes e durante o Mundial pagou-se caro a partir do momento em que os erros começaram a sobrepor-se à qualidade individual dos jogadores. Os 10 golos sofridos nos últimos 2 jogos são uma consequência disso mesmo. Contra equipas mais competentes o véu caiu e deixou as (graves) falhas à mostra. Sem rumo nem capitão ao leme, os brasileiros caíram numa espiral negativa, orfãos da capacidade para se levantarem devido à falta de ideias coletivas de qualidade. Culpa de Scolari que nunca conseguiu dar à equipa princípios de jogo de valor, dum país que esperava demais daquilo que a seleção foi oferecendo e duma federação que se recusa a evoluir, como se copiar ideias de que faz as coisas bem fosse uma afronta.

A Holanda é um caso paradigmático deste Mundial. Equipa baseada (será "baseada" a palavra correta quando não sabiam fazer outra coisa?) em transições rápidas, foi avançando na competição pelas veleidades dadas pelos adversários. Mas uma coisa é verdade: com espaço, esta Holanda é muito perigosa. Van Persie é fantástico a movimentar-se e Robben foi figura maior duma equipa que jogava com o seu ADN. Mas... e quando não existia espaço para transitar em velocidade? Pois. As coisas complicavam e muito. Em organização ofensiva, a Holanda era extremamente previsível: bola num flanco, roda pelo trinco\centrais e bola para o outro flanco. Constantemente. A variação do centro de jogo é uma boa opção para abrir espaços no adversário. Mas tal só dá frutos se após a criação de espaço houver intenção de entrar pela zona central e desequilibrar em definitivo o adversário. Caso contrário é bola a rodar, sempre por fora do bloco, e cruzamento. E era isso que acontecia, com um rácio de aproveitamento claramente deficitário. Já defensivamente, o dedo a apontar a Van Gaal surge pelas marcações individuais (até no meio-campo!) dos seus jogadores. Ao defenderem com linhas recuadas e 3 defesas-centrais, promoviam a aglomeração de jogadores em zonas importantes. Mas isso não equivale a defender bem. Foram várias as vezes em que a defesa holandesa se viu aos papéis com o arrastar de marcações dos seus homens mais recuados. Não existiam referências zonais a ocupar e o foco era sempre o adversário. Para alguém que no passado deu passos tão importantes na evolução do futebol, Van Gaal deixou muito a desejar.

A Argentina foi um caso semelhante, em menor escala mas com um trunfo de peso: Lionel Messi. Sem ele, os argentinos não teriam conseguido chegar onde chegaram. Analisaremos a performance do astro argentino mais à frente, pois para já importa analisar a qualidade da equipa de Sabella... que não foi muita. Parecia um filme saído dum relvado dos anos 80. 3 ou 4 jogadores para atacar, os restantes para defender. Equipa completamente partida em transição e com extremas dificuldades em controlar os espaço a meio-campo pela falta de plasticidade da linha média. Com bola existiam boas intenções (portador com linhas de passe próximas, boa ocupação do espaço central, mobilidade dos apoios) mas nada de transcendente. E muitas vezes eram Lavezzi e Di Maria, no seu jeito desengonçado, que lá desequilibravam o adversário com a reconhecida facilidade no 1x1\2. A chegada à final foi feita constantemente no limite, com um único golo de diferença em todos os jogos. Salvou Messi mas os problemas eram visíveis e com a extraordinária qualidade individual presente na equipa, Sabella devia e podia ter feito muito mais.

A Alemanha foi consistentemente a melhor equipa deste Mundial. Com alguns defeitos sim, mas no panorama global mereceu ganhar a competição porque jogou o melhor futebol. São, a par da Espanha, o país com melhores perspetivas futuras em termos de jogadores e ideias de jogo. Nos primeiros dois encontros alguns erros posicionais em posse deixavam no ar dúvidas quanto ao controlo do espaço, com a equipa desequilibrada e sujeita a transições perigosas pelo mau posicionamento das suas peças. Mas rapidamente resolveram o problema. O controlo da profundidade a defender alto foi, para mim, o ponto alto desta seleção. Ofensivamente beberam daquilo que Guardiola deu este ano ao Bayern e construíram uma equipa forte em posse e mortífera em contra-ataque. Juntando a isso jogadores de craveira ao nível do melhor existe, as condições estavam criadas para se tornarem imparáveis. Especial menção para Muller e Lahm, dois portentos da inteligência que em qualquer posição do onze seriam considerados dos melhores do Mundo.

O MELHOR DA COMPETIÇÃO

A eleição de Lionel Messi como melhor jogador do Mundial deixou muitos surpresos e irritados. A mim não. Messi foi, ao longo da prova, o jogador que mais e melhor agiu nas mais variadas situações com que foi confrontado. Constantemente obrigado a lidar com lances de inferioridade numérica devido a um Modelo com princípios ultrapassados, fazia quase sempre a diferença e optava pela melhor decisão, mesmo que essa decisão implicasse não partir para o drible ou simplesmente manter a posse. Aproveitando a temática, no Lateral Esquerdo fizeram uma excelente análise. Recomendado. 

Um dos maiores argumentos usados para se justificar a "inferioridade" de Messi face a Maradona é o facto de Maradona ter "carregado" a equipa às costas para a vitória dum Mundial. Bem, Messi não ganhou o troféu mas fez exatamente o mesmo. Dentro daquilo que um único homem pode fazer face aos contextos apresentados pelo jogo, Messi deu à sua seleção a hipótese de lutar pelo título mais importante do futebol.. Não foi o melhor marcador, não foi o maior assistente, mas foi aquele que melhor resposta deu às condicionantes do jogo. E por isso merece, mais que qualquer outro, a nomeação de melhor jogador da prova.

A NOSSA SELEÇÃO

Portugal saiu do Mundial de cabeça baixa. Em terceiro lugar do grupo com 4 golos marcados e 7 sofridos, a seleção foi o espelho duma decepção há muito anunciada. Pouco interessa discutir a convocatória e os fatores externos condicionantes. Não foi por falta de vontade e empenho que Portugal caiu tão cedo. Foi por falta de ideias. Os erros cometidos pela equipa foram muitos, desde falta de criatividade da equipa em momento ofensivo até ao ridículo, quase caricaturesco, comportamento da linha defensiva. São tantas as dificuldades que fica no ar a dúvida até que ponto a federação dará liberdade a Paulo Bento para continuar no cargo nos próximos tempos. Já não existe a qualidade da altura de Deco, Rui Costa, Ricardo Carvalho, Figo, ou até uma base de jogadores que jogue junta e tenha boas rotinas (Porto 03\04) e isso exige ainda mais competência a quem gere o futebol nacional. Uma coisa é certa: se não houver mudança (não necessariamente no treinador mas na abordagem do mesmo) as coisas manter-se-ão na mesma.

Em jeito de conclusão, este Mundial foi para mim uma decepção. Equipas a jogar com princípios há muito ultrapassados só prejudica a evolução do futebol. O espectador gosta de golos e foi isso mesmo que houve, em fartura até. No entanto, não surgiram pela qualidade ofensiva das equipas mas pela desorganização defensiva latente. Foi uma prova nivelada por baixo e a análise deve ser feita em termos absolutos, não em termos relativos. Dizem que o clima afetou o futebol praticado. Não refutando esse facto, tal argumento não pode nem deve ser desculpa para a pobreza de ideias demonstrada na competição. Os próximos Mundiais serão na Rússia e no Qatar, dois países com climas ainda mais extremos que o Brasil. Como será aí então?

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Enzo Pérez

Enzo Pérez fez ontem o segundo jogo pela Argentina, depois de ter jogado 57min frente à Bélgica. E, surpresa surpresa, fez um grande jogo.

Enzo é fantástico em todos os momentos, mas em particular num: quando tem a bola e vê espaço para progredir. Bola colada ao pé, condução sempre (que possível) direcionada em direção à baliza e com um timing de passe só superado por Messi. Senão vejamos:



É incompreensível como Sabella apenas o vê como opção secundária quando ele é o médio mais completo da equipa. Di Maria e Lavezzi podem ser portentos nos duelos individuais mas Enzo também o é quando a situação assim o pede. E dá 10-0 no resto dos momentos aos acima citados.

Os problemas da Argentina já aqui foram analisados. Sabella, não há nada que saber: equipa em 4-4-2 losango, com Mascherano, Enzo, Gago e Di Maria como médios, Messi e Aguero (Lavezzi) na frente. Em Organização Defensiva, quando a bola estiver numa das laterais o interior desse lado sai ao portador, avançado do lado da bola a "abafar" e a impedir o passe recuado, médio-ofensivo corta linha de passe interior, médio-defensivo em cobertura orientado pelo referencial bola-baliza e interior do lado contrário a fechar ao meio. Com bola em zona central, médio-ofensivo baixa para a linha dos interiores a proteger o meio, um dos avançados saí na pressão e o 2º avançado equilibra a equipa em cobertura.

Mas mesmo que seja para manter o 4-3-3\4-4-2 na final, Enzo tem, indiscutivelmente, lugar. Veremos se contra a Alemanha Sabella voltará a deixar o seu melhor médio no banco.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

A catástrofe brasileira: o rei vai nu

No futebol a equação está longe de ser simples, mas o jogo é uma amálgama de duas faces de uma mesma moeda: qualidade individual na resolução de problemas micro do jogo, princípios e ideias a sustentar uma intencionalidade colectiva na resolução de problemas de maiores dimensões.

Enquanto os adversários foram sendo a Croácia, o México, o Chile ou até a Colômbia, a maior qualidade individual brasileira em quase todos os sectores foi levando paulatinamente a água ao seu moinho, com maior ou menor dificuldade. As equipas de forma geral eram mais organizadas, mas quem tem Óscar, Hulk, Neymar ou Thiago Silva (entre outros) na resolução deste tipo de problemas de ordem mais reduzida arrisca-se a ganhar qualquer jogo.

Perante esta realidade, era fácil de perceber que quando este Brasil encarasse um adversário igualmente forte a nível individual e que a isso juntasse ideias, intencionalidade colectiva, que juntasse à capacidade de resolver problemas individualmente no centro do jogo (com e sem bola) a capacidade de pensar o jogo por um mesmo cérebro, as coisas podiam correr mal. Junte-se a isso um decréscimo significativo na qualidade individual, pelas ausências do jogador mais influente do sector defensivo (Thiago Silva) e do jogador mais influente do sector ofensivo (Neymar) e Scolari tinha uma bomba-relógio nas mãos.

Desenganemo-nos: nem a selecção alemã tem futebol suficiente para atropelar a congénere brasileira por 7-1, nem o troféu está entregue por ter acontecido este resultado. A aleatoriedade constitui uma parte considerável do jogo, e os golos surgiram hoje em momentos-chave, inquinando completamente o jogo à partida. Não sirva isso no entanto para ocultar que o rei da Copa, o penta-campeão mundial e todo poderoso Brasil, vai mesmo nu.

sábado, 5 de julho de 2014

Até uma próxima

Mais um jogo a roçar a perfeição de James Rodríguez. Criatividade, criatividade e mais criatividade. Cada toque na bola é um aproximar do que pode vir a ser mágico:


Hoje despede-se do Mundial do Brasil um dos seus maiores intérpretes. 6 golos marcados e uma chegada aos quartos de final com uma seleção que não tem ninguém sequer perto do seu nível. Felizmente, os golos que marcou dar-lhe-ão uma notoriedade internacional que já faltava a um dos maiores prodígios do futebol atual. Que vá para um clube ao seu nível e consiga conquistar títulos verdadeiramente importantes que tamanho talento merece.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Os desequilíbrios da Alemanha

É das ideias de jogo que mais me agrada, aquela que apresenta a Alemanha. Tem como intenção ser dominadora com a bola e criar desequilíbrios nas estruturas adversárias através de uma circulação variada mas, sempre com maior valorização do corredor central. Faz uso dos movimentos horizontais de Muller e da movimentação profunda dos interiores, para que Özil e Götze possam jogar no meio e assim combinar através de tabelas e entradas em profundidade. Teriam ainda mais variabilidade e qualidade ofensiva se tivessem dois laterais que oferecessem profundidade ao jogo alemão (incrível a diferença do jogo alemão com Lahm a lateral). No entanto, e curiosamente, pode ser o momento ofensivo o principal responsável para que a Alemanha não vá mais longe.

Para que uma equipa possa ganhar com maior regularidade é necessário que haja equilíbrio, principalmente em Organização Ofensiva, se este princípio não for respeitado o jogo torna-se mais partido, menos controlado pelas equipas que assumem a posse como intenção para desequilibrar o adversário. Para que haja equilíbrio é necessário que as equipas saibam que, tirando as situações de golo, o próximo passo é perder a bola portanto, é necessário que cada perda de bola não resulte numa situação potencial de golo para o adversário, como aconteceu na primeira parte contra a Argélia. 



Este é um dos factores que provoca os desequilíbrios no momento de perda da Alemanha, nos corredores laterais, e particularmente no último terço, raramente criam apoios por trás da linha da bola, o que torna difícil recuperar a bola na zona da perda ou, pelo menos, condicionar o primeiro passe da equipa adversária. Foi assim que a Argélia criou tanto perigo, roubo nos corredores, onde os laterais tinham muitas dificuldades, e depois um passe longo a sair da zona onde tinham roubado a bola. Valeu Neuer.


Valeu Neuer a compensar os constantes erros de posicionamento dos centrais quando a Alemanha tinha a bola no último terço, sempre muito longe entre eles, sem pensarem no momento da perda. Apesar das imagens serem relativas a apenas um lance de perigo da Argélia, estes erros foram uma constante no jogo da Alemanha e se, neste jogo Neuer chegou para segurar a Alemanha no momento da perda, o mesmo não se vai verificar de certeza contra a França.

Para além deste ponto, do momento da perda, há mais dois que devem merecer reflexão para Löw, estes no momento de Organização Defensiva. Em primeiro lugar, o comportamento da linha defensiva quando o portador da bola não se encontra pressionado, mantém-se sempre muito alta. O outro factor que merece reflexão é a dificuldade que os extremos apresentam para ajustarem o seu posicionamento quando a equipa adversária troca rapidamente o corredor, é muito fácil criar situações de 2x1 contra o lateral alemão.

Acredito que se estes comportamentos não forem alterados veremos no próximo jogo uma Alemanha a passar por grandes dificuldades.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Notas dos Oitavos-de-Final (2)

França-Nigéria

Mesmo sem Ribéry, por lesão, e Nasri, por motivos disciplinares, a França tem uma selecção de impor respeito a qualquer adversário. Tem organização, equilíbrio e bons princípios ofensivos, por isso Deschamps está de parabéns pela qualidade colectiva que conseguiu incutir na sua equipa. A nota só não é mais elevada, porque não me parece que ele esteja totalmente ciente de onde está a maior força da equipa: o meio-campo carece de imaginação e não tem soluções no banco que tragam algo de novo a esse nível (Gourcuff, infelizmente, já deu o que tinha a dar, e Grenier lesionou-se no estágio de preparação), pelo que é quase obrigatório que Valbuena, Griezmann e Benzema, os seus três jogadores mais criativos, joguem juntos na frente de ataque. Contudo, Deschamps não parece estar muito convencido de que essa é a melhor opção e tem tentado conciliar Giroud e Benzema no seu 4x3x3, com este último a fechar o flanco esquerdo. É uma hipótese, claro, porque Giroud é um jogador acima da média, mas Valbuena, Griezmann e Benzema entendem-se às mil maravilhas e tornam esta França uma equipa mais imprevisível e versátil, menos dependente das recuperações altas do meio-campo para criar perigo e mais competente a furar blocos baixos e densos. É verdade que foi com Valbuena, Benzema e Giroud que a França ganhou 5-2 à Suíça, mas esse foi um jogo atípico, em que os jogadores suíços baixaram os braços demasiado cedo devido à sucessão de erros individuais, pelo que deve haver algumas cautelas nessa análise. Neste jogo dos oitavos-de-final, embora tenha dado sempre a sensação de que a França estava a jogar em ritmo de passeio e que o aparente domínio da Nigéria era consentido, ficou bem patente aquilo que Griezmann é capaz de trazer a esta equipa, quando foi lançado aos 62 minutos: não só isolou Benzema no lance imediatamente anterior ao primeiro golo, como também esteve na jogada que deu origem ao autogolo de Yobo, tendo coincidindo a sua entrada em jogo com a fase em que a França puxou dos galões e mostrou toda a sua superioridade. Coincidência? Talvez sim, talvez não, mas acredito que muito do sucesso da França neste Mundial do Brasil vai depender da perspicácia de Deschamps no que toca a esta questão. De resto, há a salientar, pela negativa, a entrada bárbara de Matuidi sobre Onazi, que se o árbitro tivesse feito cumprir as regras e exibido o correspondente cartão vermelho directo, podia ter colocado a selecção gaulesa em grandes apuros, num jogo globalmente pouco conseguido.

Alemanha-Argélia

Tenho lido algumas análises a este jogo em que se diz que o resultado é tremendamente injusto e que a Argélia fez por merecer outra sorte. Concordo que os primeiros vinte minutos foram penosos para a Alemanha, muito por causa da abordagem arrojada e corajosa da Argélia, mas a partir daí, a Alemanha estabilizou o seu jogo, terminou a primeira parte claramente por cima e na segunda parte, só uma excelente exibição de Mbolhi (não o conhecia, mas o melhor elogio que lhe posso fazer é que foi o guarda-redes que mais me impressionou neste Mundial) permitiu à Argélia levar o jogo para prolongamento, o que já aí, a meu ver, não se justificava. Aliás, do lado dos argelinos, há que dizer que o único aspecto do seu jogo que merece elogios é a atitude ambiciosa, não tendo receio de pressionar alto uma selecção muitíssimo mais forte a todos os níveis. De resto, a organização defensiva não é brilhante, nem de perto nem de longe, e os processos ofensivos são algo rudimentares para esta fase da competição. Um conjunto de jogadores esforçados e com uma alma e uma crença enormes, mas não mais que isso e ficam pelo caminho quando tinham que ficar. Quer isto dizer que a Alemanha é uma equipa temível e que fez um grande jogo? Claro que não. Esta geração é provavelmente a melhor de sempre do futebol alemão, mas não tem uma liderança técnica à altura. Löw é alguém que aparenta ter boas intuições e privilegiar as coisas certas, mas depois tem opções técnicas incompreensíveis e dá ideia de querer copiar uma determinada matriz de jogo, mas sem perceber muito bem o que está a fazer. Por exemplo, o critério e a paciência na construção e o privilégio pelo corredor central para desenvolver os ataques parecem revelar que Löw conhece bem o tipo de jogadores que tem, mas que ideia é aquela de jogar com centrais adaptados a laterais? E largura e profundidade, quem dá? O resultado é uma equipa com algumas ideias, mas com um jogo posicional deficiente, com demasiados jogadores por dentro e à frente da linha da bola, o que não só emperra o processo ofensivo, como deixa a linha defensiva permanentemente exposta. Com Durm e Lahm nas laterais (ou mesmo Grosskreutz, se Löw quisesse manter o jogador do Bayern no meio-campo), esta Alemanha seria muitíssimo mais difícil de bater. Assim, não sei bem o que esperar, mas quem tem um leque de jogadores de tanta qualidade pode aspirar a tudo. Para concluir, não posso deixar de fazer dois destaques individuais: Neuer, pois foi muito por causa do seu exemplar controlo da profundidade (não há nenhum guarda-redes actualmente que faça tão bem de líbero como ele) que a Alemanha conseguiu asfixiar a Argélia na segunda parte e no prolongamento, e Müller, que é um jogador sensacional e que está a mostrar neste Campeonato do Mundo que, ao contrário do que se disse durante a época, pode muito bem ser o falso 9 que Guardiola tanto procura no seu Bayern de Munique.

Argentina-Suíça

Sob o comando de Sabella, a Argentina é um desastre à espera de acontecer. Além de ter um colectivo disfuncional em praticamente todas as fases do jogo, existem também lacunas individuais em alguns sectores, o que é inaceitável na selecção com uma das bases de recrutamento mais vasta: como se já não bastasse ter deixado de fora da convocatória Otamendi, Banega, Pastore, Gaitán e Tévez (podia ainda falar de Cambiasso e Zanetti, mas já nem vou por aí…), Sabella ainda se dá ao luxo de prescindir de Enzo, que é só o melhor médio que tem, e de ter entre as primeiras opções jogadores de qualidade discutível, como Romero, Fernández, Rojo, Mascherano (pelo menos como médio) e Maxi Rodríguez. O resultado é uma equipa mal distribuída em campo, com um bloco para defender e outro bloco para atacar, sem jogo interior e completamente «Messidependente», pois o astro argentino é o único que ainda vai tentando dar algum sentido a tanto desnorte. Perante tanta falta de qualidade colectiva, aproveitou a Suíça (que, é bom lembrar, conta nas suas fileiras com jogadores como Lichtsteiner, Ricardo Rodríguez, Inler, Xhaka, Mehmedi, Drmic e Shaqiri, entre outros) para causar embaraços à selecção alviceleste? Nem por isso, ou não fossem treinados por quem são. Defender com todos e atacar com três jogadores, é esta a receita de Ottmar Hitzfeld para o sucesso, seja em que situação for, por isso não admira que a selecção suíça tenha tido apenas duas oportunidades de golo em 120 minutos, contra um adversário que defende pior do que muitas equipas da Liga ZON Sagres. Assim sendo, a Argentina, mesmo com um futebol sofrível e muito aos repelões, lá foi construído sucessivas ocasiões de golo e o tento de Di María no último minuto do prolongamento só pecou por tardio. Agora vem a Bélgica, cujas individualidades ofensivas vão certamente dar as dores de cabeça que a Suíça não foi capaz de dar. Ainda sobre o extremo do Real Madrid, disseram os comentadores de serviço que foi o melhor jogador em campo. Não sei que jogo é que eles viram, mas acontece que Di María fez um jogo horripilante e só teria sido o melhor em campo se o objectivo do futebol fosse ver quem tomava as piores decisões e perdia mais bolas. Como não é, o melhor em campo foi, e a larga distância de todos os outros, Lionel Messi, que fez provavelmente o seu melhor jogo neste Mundial.


Bélgica-Estados Unidos

Num dos jogos mais emocionantes destes oitavos-de-final, Bélgica e Estados Unidos mediram forças, mas nenhuma das equipas me enche as medidas. Acho o trabalho táctico de Wilmots e de Klinsmann relativamente pobre, com a diferença que a Bélgica tem um conjunto de jogadores de fazer inveja a muitas selecções de maior reputação, nomeadamente a Portugal, e os Estados Unidos não. Deste modo, num jogo entre duas equipas sem qualidade colectiva assinalável (a organização e a transição defensiva dos Estados Unidos, por exemplo, são terríveis), o domínio avassalador da Bélgica acabou por ser natural, devido à maior valia individual que possui, e se os Estados Unidos não saíram deste jogo com uma derrota pesada, bem podem agradecer a Tim Howard, que rubricou a melhor exibição individual de um guarda-redes neste Mundial. Contudo, apesar do festival de golos falhados, a Bélgica nunca pareceu ter o jogo minimamente controlado e os Estados Unidos foram criando perigo aqui e ali, tendo mesmo, já com o jogo em 2-0 para a Bélgica, encostado os «Diabos Vermelhos» às cordas na segunda parte do prolongamento e não fazendo o empate por muito, muito pouco. Se uma equipa mediana como os Estados Unidos conseguiu expor as debilidades da Bélgica (dificuldades na gestão do jogo, mau jogo posicional, com o meio-campo e a defesa facilmente atraídos por referências individuais, etc), fará uma selecção com outros argumentos…Mas não sei se essa selecção será a Argentina. Em termos individuais, este foi, sem dúvida, o jogo dos craques incompreendidos: Lukaku e sobretudo De Bruyne têm mais do que lugar no Chelsea e Bradley e Dempsey são demasiado novos e têm demasiada qualidade para estarem exilados na MLS.


terça-feira, 1 de julho de 2014

Análise: França

Será possível jogar bem sem ser agressivo e intenso em todos os momentos do jogo? A resposta, obviamente, é sim. Jogar futebol não se resume, nem de perto nem de longe, a ter jogadores constantemente a correr atrás da bola, a pressionar o adversário em todas as zonas, a atacar o mais rápido possível, a rematar sempre que há oportunidade. Antes disso há que saber onde pressionar definindo zonas estratégicas, escolher os momentos de entrada dentro do bloco adversário, rematar apenas quando as boas oportunidades surgem. Um bom exemplo é a França, seleção que até agora não perdeu no Mundial e já assegurou presença nos quartos de final da prova. Não são particularmente intensos, não pressionam em espaços adiantados, tomam o seu tempo para atacar e quando o fazem, fazem-no pela certa.

Olhemos mais em detalhe para o Modelo francês: disposição tática em 4-3-3, com um único pivô defensivo. Primeira linha de pressão perto do meio-campo, marcação zonal em todo o terreno tendo como principal preocupação a ocupação do espaço central do campo. Espaço entre-linhas constantemente ocupado pelo trinco, neste caso Cabaye. Linha defensiva a encurtar o espaço, sem referências individuais a menos que seja em zona de cobertura.


Muitos dos princípios defensivos são bons mas há aspetos a melhorar. Em termos coletivos, o principal problema é o espaço nas costas dos extremos. Assim que a primeira linha de pressão é batida e a bola entra à frente do lateral, surge alguma indefinição na decisão. Quem sai à bola? Lateral na bola e interior na cobertura? Ou interior na bola e lateral na cobertura? Por vezes demoram tempo a coordenar-se e dão espaço ao portador para cruzar. Valbuena consegue minimizar este defeito ao aproximar-se da zona da bola mas Benzema, no período que esteve em campo, raramente contribuiu para isso, deixando ainda mais o flanco esquerdo sujeito a entradas adversárias.

No entanto, quase em compensação por este defeito, a linha defensiva está extremamente bem organizada e lida com cruzamentos da melhor maneira possível. Sempre numa linha de cobertura próxima, gerem a profundidade e a largura (ocupação das 3 zonas fundamentais: 1º poste, zona de penalty, 2º poste) de forma excepcional.


Aqui estão 2 bons exemplos disso. Linha de 3 a controlar os espaços à frente da baliza, cada um dentro das zonas designadas. No primeiro cruzamento, saída do lateral ao portador, bola perto da linha final e a linha de 3 em cima do limite da pequena área. Tudo otimo. No segundo, bola atrasada, subida em bloco da linha, Debuchy e Pogba a demorarem a chegar na pressão mas o ajuste da defesa é impecável, controlando a profundidade e deixando em fora de jogo o avançado nigeriano. O único problema no meio disto tudo? Patrice Evra. Sofrível o tempo que demora a perceber os posicionamentos que deve adotar. No 2º cruzamento, em vez de ocupar devidamente a sua posição ao 2º poste protegendo a baliza de um possível cruzamento largo, vêm a passo e se Matuidi não vêm a marcar o homem em movimento de ruptura, ninguém lá estaria. Aqui fica mais um exemplo da (falta de) qualidade de Evra:


Repare-se a passividade assim que a bola saí da sua zona. Em vez de ajustar ao meio, fica atraído pelo homem na sua zona, perto da linha lateral. Deixa lá o homem Evra, aí não há problema em entrar a bola!

Foquemo-nos no aspeto ofensivo. As saídas de bola a partir da defesa são sempre feitas com segurança. O trinco bem próximo dos centrais, laterais a darem profundidade apenas quando necessário, linhas de passe verticais disponíveis nos interiores. Koscielny dá imensa qualidade à saída de bola. E tudo está bem... até a bola entrar nos pés de Matuidi. Jogar ao lado de Pogba e Cabaye dá outra luz à falta de qualidade técnica do médio PSG. Monstro físico? Sim... quando não varre os adversários. Monstro tático? Só se houver muito espaço para percorrer. Constantes dificuldades na recepção e pouca criatividade em posse deixam o processo ofensivo gaulês manco de um dos lados.

Mas tal pode ser esquecido quando olhamos para a frente de ataque. Valbuena, Griezmann, Benzema e Giroud. 4 grandes jogadores para apenas 3 posições dão qualidade e liberdade a Deschamps para os organizar de acordo com aquilo que o jogo pede. A mobilidade sem bola que cada um deles dá ao ataque francês, se for bem direcionada, pode causar muitos problemas a qualquer seleção.


Aqui, o bom aproveitamento do espaço entre-linhas, em zona central. Passe vertical para Benzema que conduz, fixa, liberta, recebe tabela de Griezmann e apenas falha na finalização. É nestes momentos que a França produz um futebol que poucas seleções conseguem replicar. Se o fizer numa base mais regular e conseguir conter muitos dos cruzamentos que saem dos pés do laterais, podem elevar ainda mais a barra do seu futebol ofensivo.

O próximo duelo coloca frente-a-frente Alemanha e França. A maior valia individual da seleção germânica certamente fará pender, em certas alturas, o jogo a seu favor. Mas conseguindo a França apoiar-se nos seus princípios defensivos e fazendo valer a criatividade e mobilidade do seu trio atacante, procurando espaços fulcrais na defesa alemã e certamente que fará mossa no adversário. De qualquer maneira, será o jogo mais interessante dos quartos de final.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Notas dos Oitavos-de-Final (1)

Brasil-Chile

O Brasil de Scolari, com um futebol aos trambolhões, lá vai ultrapassando os obstáculos que lhe aparecem pela frente, mas está quase tudo errado: é o duplo pivô que só serve para destruir jogo, é o ponta-de-lança dos anos 80 que só lá está para responder a cruzamentos, é Neymar a jogar por dentro, é Oscar a jogar por fora, é Willian, Hernanes e Bernard praticamente sem minutos, são as substituições troca por troca em qualquer altura do jogo…Não há organização, não há ideias, não há jogo interior, é fé no Neymar e esperar que ele faça umas coisas giras com a bola. Este Brasil, a jogar em 3x5x2 com Júlio César, Thiago Silva, Dante, David Luiz, Dani Alves, Marcelo, Fernandinho, Hernanes, Oscar, Neymar e Hulk e com Sampaoli no banco, era a selecção mais poderosa em prova e a maior candidata à vitória final, talvez a par da França. Assim como está, claramente não é e, apesar do factor casa e das individualidades de luxo que tem, acho que é uma questão de tempo até ficar pelo caminho, como o Chile, aliás, se encarregou de demonstrar. O Brasil teve as melhores oportunidades de golo? Talvez, mas só quando o Chile rebentou fisicamente e foi obrigado a jogar num bloco mais baixo, um registo em que claramente não se sente tão confortável. Até lá, o jogo foi repartido e o Júlio César também teve que ser chamado a intervir um par de vezes. E se aquela bola à trave do Pinilla tem entrado…Scolari está a meter-se a jeito, a única dúvida que há é saber durante quanto mais tempo é que a sorte vai durar. De resto, nota muita negativa para Howard Webb, que continua a demonstrar uma falta de categoria nada consentânea com a distinção de «melhor árbitro do mundo». É preocupante que um árbitro tão reputado não saiba o que é uma falta nem um cartão amarelo.

Colômbia-Uruguai

A Colômbia, sob a batuta daquele que é, para mim, o melhor jogador do Mundial até à data, James Rodríguez, despachou o Uruguai por 2-0 e já está nos quartos-de-final. No entanto, a equipa de Pekerman, embora seja uma das boas selecções da prova, não é tudo aquilo que dizem que é. Ofensivamente tem alguma qualidade (o primeiro golo de James é sensacional, mas é a jogada que dá origem ao segundo golo que melhor ilustra aquilo que esta equipa é capaz de fazer no ataque), mas falta imaginação no meio-campo (Guarín? Quintero?) e, sobretudo, maior qualidade nos processos defensivos. Mau controlo da largura, mau controlo da profundidade, linha defensiva muitas vezes mal alinhada, muito espaço entre linhas…Quando há tempo para formar duas linhas de quatro elementos bem definidas, ainda disfarça, mas quando isso não acontece, abrem-se buracos por todo o lado, que podem ser aproveitados por uma equipa com mais qualidade do que Grécia, Costa do Marfim, Japão e Uruguai. Sinceramente, via o Chile com mais capacidade colectiva para eliminar o Brasil, mas a Colômbia também vai ser um osso duro de roer e não foi à toa que fez o pleno de vitórias até agora. Quanto ao Uruguai, são aquilo que já eram em 2010, quando beneficiaram e muito de um sorteio favorável para chegarem às meias-finais do Mundial da África do Sul: uma selecção de rapazes pouco talentosos (Tabárez certamente deve ter um conjunto recheado de opções, para se dar ao luxo de deixar Lodeiro e Gastón Ramírez no banco de suplentes…), cujas maiores armas são a disponibilidade física e a agressividade. Não vão deixar saudades.


Holanda-México

A Holanda é um caso parecido com o do Brasil, mas sem a parte da qualidade individual. Sim, porque tirando Van Persie e Robben, que são de outro campeonato e ainda estão na plenitude das suas capacidades, esta selecção holandesa tem um conjunto de jogadores relativamente modesto. Há ali mais dois ou três jogadores de bom nível, alguns deles já em final de carreira, e pouco mais. Além disso, a equipa tem uma organização sofrível (é doloroso ver Van Gaal, que é só um dos treinadores que mais contribuiu para a evolução do jogo, a mandar os seus jogadores marcarem homem-a-homem no campo todo…) e pura e simplesmente não sabe o que há de fazer à bola quando a outra equipa não lhe deixa espaço para jogar. Com tantos defeitos, como se explica que tenha levado de vencida um adversário tão bem organizado como o México? Há duas explicações para isso: em primeiro lugar, o recuo estratégico do México que, depois de uma boa primeira parte, quis defender a vantagem demasiado cedo e deixou-se encostar às cordas; e em segundo lugar, as alterações cirúrgicas de Van Gaal, que deram a Robben a liberdade de movimentos que ele não tinha tido até aí. O resto é a categoria individual do extremo do Bayern, de cujos pés saíram praticamente todos os (poucos) lances de perigo da Holanda e que ainda ganhou, no último fôlego, o penalty que daria o 2-1. No entanto, apesar da derrota, esta selecção mexicana deixa uma imagem muito positiva neste Mundial e, no meu entender, merecia ser tão falada como o Chile ou a Colômbia, só para dar dois exemplos de selecções do mesmo patamar competitivo. A sua organização defensiva, por exemplo, é estupenda e é a prova de que é perfeitamente possível criar rotinas e automatismos numa selecção, mesmo com o menor tempo disponível para treinar. Depois, claro, é o mesmo problema de sempre - faltam executantes que consigam transportar esta proposta de jogo para outra dimensão.

Costa Rica-Grécia


Há poucos chavões que me irritem mais no futebol do que este: «Cada um joga com as armas que tem, esta Grécia não dá para mais…» Tretas. Se uma equipa que conta com jogadores como Torosidis, Manolas, Sokratis, Holebas, Katsouranis, Karagounis (se tem 37 anos, não parece…), Kone, Lazaros, Fetfatzidis, Samaras, Salpingidis, Gekas e Mitroglou não tem qualidade individual para mais do que defender com muitos e bombear bolas para a frente o jogo todo, não sei quem é que tem. Tanto tem que contra a Costa Rica fez uma primeira parte bem agradável, com um futebol mais apoiado do que é costume, e em que podia inclusivamente ter-se adiantado no marcador. Se não querem jogar tudo o que sabem porque acham que não lhes vai trazer resultados e preferem adoptar uma postura mais calculista e menos arriscada, tudo bem, é uma opção e não tenho nada a ver com isso. Agora não me venham é dizer que o fazem porque não têm matéria-prima, porque isso é mentira! Quanto ao jogo em si, foi pautado pelo equilíbrio, com um ligeiro ascendente da Grécia na primeira parte e com uma Costa Rica mais perigosa na segunda parte, pelo menos até à expulsão. A partir daí, a Grécia tomou conta do jogo, mas sem grande engenho e acabou por marcar quando pouco tinha feito para aproveitar a vantagem numérica. No prolongamento, aí sim a história foi outra, com a Grécia a fazer o que lhe competia e a conseguir várias vagas de ataque, que esbarraram sempre nas mãos do excelente guarda-redes da Costa Rica, Keylor Navas. Foi injusto perderem nos penaltis? Sem dúvida, mas não lhes fez mal nenhum provar um pouco do seu próprio veneno... Do lado da surpreendente Costa Rica, além da organização defensiva, que é do melhor que se viu neste Mundial e que vai certamente causar muitas dificuldades à Holanda, apetece-me destacar um jogador em particular. Sim, eu sei que o Campbell é o jogador da moda, porque é irrequieto, vai para cima e não pára quieto um segundo, mas não é dele que vou falar…Vou falar antes do número 10, Bryan Ruiz. Já tem 28 anos, joga a passo e o melhor que conseguiu na carreira foi um Fulham da vida, mas é só o melhor jogador desta Costa Rica. É o mais inteligente, o mais criativo, o mais maduro. Acelera quando tem que acelerar, temporiza quando tem que temporizar, percebe sempre o que se está a passar à sua volta com extrema facilidade e quando pega na bola, não há ninguém que lha tire. Mas será que ninguém lhe pega? Num colectivo forte, que jogasse um futebol apoiado, de pé para pé, teria sido melhor aproveitado e teria tido certamente uma carreira com outra expressão. Um dos craques deste Mundial.




domingo, 29 de junho de 2014

O Aluno e o Mestre

Acabou o sonho do Mundial para o Chile. A selecção de Alexis Sánchez, Vidal e companhia foi eliminada pelo Brasil nas grandes penalidades, após um jogo espectacular, com duas selecções de grande qualidade e com muita qualidade individual em campo. Mas, além das estrelas presentes dentro das 4 linhas, existem também estrelas na parte de fora do rectângulo de jogo cuja influência sobre quem está lá dentro é enorme. É o caso de Jorge Sampaoli, seleccionador chileno.

Sou um fã declarado de Sampaoli desde os seus tempos na Universidade do Chile. Na altura, a formação chilena jogava e encantava pela América do Sul, vencendo a Copa Sul-Americana em 2011 e chegando às meias-finais da Copa Libertadores em 2012. E o líder daquela equipa dava nas vistas, pelas ideias alternativas e pela facilidade com que as implementava na sua equipa. Don Sampa é mesmo assim: tem uma facilidade tremenda em fazer os seus jogadores entenderem aquilo que pretende. Uma das suas muitas qualidades. É o próprio que afirma acreditar que unir os jogadores pelo prazer de jogar futebol e não por obrigação é o primeiro e o mais importante passo para fazer os jogadores darem 110%. Hoje (ontem) a sorte não quis nada com ele. Fez tudo o que estava ao seu alcance, mas a sorte traiu-o. Primeiro, no último lance do prolongamento, quando Pinilla atira à barra, e depois, no último penalti, que Jara cobra "bem de mais" e atira ao poste. 2 sinais de que este não era o dia do Chile, por muito que tenham procurado o sucesso.

Mas a passagem era merecida. A forma como esta selecção de Sampaoli se apresenta em campo é deliciosa. Desde logo, pela atitude. O Chile encara todos os adversários da mesma forma: ao ataque. É uma equipa que não gosta de defender, mas sim de ofender o adversário. Atacando-o incessantemente, superiorizando-se fisicamente e demonstrando uma classe superior com bola. Defensivamente, são incansáveis. Uma pressão alta e sufocante, durante todo o jogo, de forma colectiva. Pressionam, não só a bola, mas também as linhas de passe mais próximas do portador. E fazem-no em qualquer zona do campo. A sua ousadia defensiva não conhece limites, tanto em termos colectivos, como em termos individuais. E depois, ofensivamente, jogam um futebol bonito, rápido, vertical, apoiado e com uma excelente relação com a bola. Atacam maioritariamente pelos corredores laterais, mas não têm problemas em fazê-lo também pela zona central. Intensidade, verticalidade, bola no pé. Percebe-se porque razão Sampaoli é identificado como um dos discípulos de "El Loco", Marcelo Bielsa.

E é exactamente aqui que o título deste artigo se envolve no corpo do texto. O "aluno" Sampaoli, até aqui, já tinha demonstrado seguir da melhor forma o "mestre" Bielsa. Mas Don Sampa é especial. Segue a filosofia "Bielsiana", mas acrescenta-lhe outra qualidade defensiva e outra intensidade (que já de si é imensa). E acrescenta-lhe também outras ideias. Inova. Pensa o futebol de uma forma única. Cria uma nova filosofia. A filosofia "Sampaoliana".

Será este um dos casos em que o aluno ultrapassa o mestre? O tempo o dirá. Mas estou tentado a apostar que sim.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

O desnorte em 10 segundos

Comportamentos defensivos novamente. Como não se deve fazer.

Bradley baixa para pegar no jogo e sai a jogar curto para um colega que faz um movimento semelhante ao seu. Ricardo Costa acompanha o seu "osso" até ao meio-campo adversário.



A bola entra no lateral-esquerdo Beasley. Nani novamente apático na pressão (deu golo hoje como deu contra a Alemanha). Ricardo Costa está agora a pressionar o portador da bola para lá do meio-campo defensivo do adversário.



Num ligeiro momento de clarividência, Ricardo Costa apercebe-se que está 60 metros afastado de onde deveria estar e numa corrida desenfreada regressa ao local de partida. Grave também é verificar que nenhum dos seus colegas ocupou o lugar desprotegido do sector defensivo. Ia chamar-lhe "linha defensiva", mas não consigo.





domingo, 22 de junho de 2014

Equipa de Homens?

"Temos de ser uma equipa de homens" - Paulo Bento.

Depois de uma pesada derrota contra a candidata Alemanha, que expôs ainda mais as debilidades patentes da nossa Seleção, hoje apela-se à atitude, à raça, ao querer e à determinação. Curiosamente, tudo aspetos que estiveram mais que presentes no jogo da 1ª ronda. O problema de Portugal não foi e raramente é a falta de atitude. É um chavão muitas vezes usado por quem não sabe como mais explicar as derrotas e maus resultados de determinada equipa ou jogador.

"Olha para eles, andam ali a passo!" ou "Estes nem sequer suam a camisola, havia de ser eu!". Qualquer jogador que entre em campo, salvo algumas excepções, joga para ganhar, ainda para mais a este nível. A quem olha de fora pode dar a ideia que em certos momentos o jogador X está desinteressado, que não corre porque não quer e por isso merece ser criticado. Mas se quem opina o faz sem as bases corretas corre o (grande) risco de dizer asneiras. E se assim o fizer irá certamente influenciar a opinião de outros, que por sua vez acabam por ceder à tentação da crítica fácil sem sequer ponderarem as verdadeiras razões. Infelizmente este acaba por ser o raciocínio de muita gente. À falta de vontade para pensar bem nas coisas, subjugam-se à crítica fácil.

Mas deixando de lado este pequeno desabafo, há que pensar, com cabeça, naquilo que nos espera hoje. Como em tudo na vida, a adaptabilidade a diferentes situações é uma qualidade extremamente útil mas sem nunca pôr de lado a nossa identidade. No futebol o pensamento aplica-se na mesma medida. Qualquer equipa que jogue primariamente em função do adversário estará destinada a sofrer com a caoticidade do jogo.

Setores afastados, marcações individuais, dificuldades enormes em controlar os espaços, ineficácia em posse, dependência das transições para Ronaldo, falta de linhas de passe próximas ao portador, desiquilíbrio no posicionamento das coberturas. Estas foram algumas das razões objetivas daquilo que se passou no último jogo dentro das 4 linhas para Portugal perder, e bem, contra uma seleção muito mais inteligente e adulta. Não foi falta de atitude ou de querer. Foi falta de cabeça. Falta de ideias. Falta de maturidade tática.

Veremos como hoje responderá no campo a equipa liderada por Paulo Bento. Estragos foram feitos mas nada que não seja (em parte) passível de ser resolvido. Antes de mais, colocar em campo quem melhor pode contribuir para o sucesso da equipa: William e Amorim e Postiga. E deixar de depender tanto de Ronaldo.

sábado, 21 de junho de 2014

Costa Rica: o "Tomba-Gigantes"

É oficial: a Costa Rica é a surpresa deste Mundial. Incluída no grupo D, juntamente com Inglaterra, Itália e Uruguai, poucas pessoas augurariam aos costa-riquenhos uma boa participação na competição. Eventualmente poderiam pontuar e dificultar as coisas às outras 3 selecções, mas as expectativas ficavam-se por aí e era quase uma loucura prever uma qualificação para os oitavos-de-final para esta selecção oriunda da América Central.

Ora, finalizada que está a 2ª jornada no Grupo D, a Costa Rica tem 6 pontos, decorrentes de duas vitórias (3-1 ao Uruguai e 1-0 à Itália), e é a primeira selecção do grupo a qualificar-se para a próxima fase. Um "semi-milagre". E digo "semi-milagre", pois esta qualificação não caiu do céu. Há mérito, mas sobretudo, há muito trabalho de qualidade nesta selecção.

Comecemos pelo aspecto defensivo. A Costa Rica é uma selecção que defende em 5-4-1, com uma linha de 5 defesas (Díaz na esquerda, Gamboa na direita e Umaña, Duarte e González no meio), 4 médios (Bolaños na esquerda, Ruiz na direita e Tejeda e Celso Borges no meio, com Tejeda mais posicional e Borges a sair mais na pressão ao portador da bola) e o Joel Campbell na frente. Defendem sempre num bloco baixo, mas bem trabalhado e coordenado. Numa primeira fase, a pressão é apenas passiva, sem uma clara intenção de forçar o erro. Convidam o adversário a avançar no terreno e a colocar a bola entre linhas, onde aí sim, a pressão é intensa e está bem trabalhada. O central do lado da bola avança no terreno e sai ao portador da bola, enquanto o resto da defesa ajusta para jogar a 4 (o central que joga mais no centro faz a cobertura ao central que sai à bola). Os 2 médios jogam de perfil e formam uma segunda linha, procurando estar bem posicionados para eventuais segundas bolas, com os alas a fecharem por dentro, numa linha mais avançada que os médios, formando uma espécie de quadrado na zona central.

Quando a bola é metida em profundidade, à procura do espaço nas costas da defesa, também é visível a coordenação da linha defensiva e a boa leitura de jogo dos defesas. Sobem em bloco e de forma organizada, para encurtar o espaço, e isso leva a que os jogadores adversários fiquem constantemente em posição de fora-de-jogo. No jogo de ontem, os italianos foram apanhados 11 vezes em situação de fora-de-jogo. Mario Balotelli, o avançado da equipa italiana, lidera agora este Mundial em...foras-de-jogo. 6. E ainda existiram mais 2 lances onde o evitou apenas devido ao génio de Pirlo e à sua estratosférica capacidade de passe, que conseguiu evitar uma quase perfeita subida da linha defensiva costa-riquenha, como podem observar neste vídeo (o 3º, aos 07:00 e aos 07:41, respectivamente).

No aspecto ofensivo, a Costa Rica faz-se valer das transições e da qualidade individual dos seus jogadores mais ofensivos (Ruiz e Campbell são jogadores acima da média, e Bolaños também é bastante evoluído tecnicamente e no entendimento do jogo, sabendo quase sempre dar o melhor seguimento à bola). No entanto, estes jogadores inserem-se numa organização ofensiva bem trabalhada e equilibrada. A construção inicia-se normalmente com a procura de Joel Campbell, que serve de referência para fixar a bola num primeiro momento, saltando muitas vezes uma fase de construção. Este sai frequentemente do meio dos centrais e vagueia bastante pela frente de ataque, procurando receber a bola nos corredores laterais ou aproveitando o espaço entre o central e o lateral para dar profundidade e para procurar concluir a jogada rapidamente e com poucos toques na bola. A equipa procura sempre manter o equilíbrio. O lateral do lado da bola dá maior largura, enquanto que o lateral do lado contrário é mais contido e fica mais recuado. No meio, Celso Borges é o "box-to-box" e solta-se mais, procurando aparecer no último terço do terreno para fazer o último passe e/ou para finalizar, enquanto que Tejeda é o médio mais posicional, que se fixa mais pela zona central e que procura sempre equilibrar a equipa quando em organização ofensiva.

Pelas alas, tanto Bolaños como Ruiz procuram sempre o espaço interior, embora de formas diferentes. Bolaños fá-lo com bola e procura sempre causar o desequilíbrio. Por ser bastante evoluído tecnicamente, é um perigo constante para a defesa adversária. Tanto procura a meia-distância como transporta para o meio, apenas para abrir o espaço no corredor para a subida do lateral esquerdo, Díaz. Já Ruiz é uma das pedras basilares desta selecção. Procura sempre aparecer entre linhas e é frequente vê-lo a ocupar o espaço entre os centrais quando Campbell vem procurar a bola aos corredores. É um "vagabundo" no ataque, aparecendo em qualquer um dos corredores (laterais ou central), para receber a bola ou para arrastar o defesa, criando o espaço. As suas movimentações, em conjunto com as de Campbell, causaram o pânico entre os defesas italianos, que se dão claramente melhor quando possuem uma referência fixa naquela zona.

O lance do golo sumariza muito do que é a Costa Rica em termos ofensivos.



Bolaños, no espaço interior, abre espaço para a subida de Díaz no corredor esquerdo, coloca-lhe a bola, e sai o cruzamento para a área, onde Ruiz, que aparece sempre perto de Campbell, finaliza de cabeça ao 2º poste.

Esta selecção da Costa Rica tem todo o mérito e é, até agora e com toda a justiça, a melhor equipa do Grupo D. Uma selecção muito bem trabalhada em todos os momentos do jogo, e que consegue fazer omeletes com ovos que não são propriamente da melhor qualidade. E uma selecção que contraria vivamente a velha máxima de que "em tão pouco tempo, não é possível para um seleccionador criar rotinas e estruturar com qualidade uma equipa". É possível, sim. E os costa-riquenhos são a prova viva disso.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Veloso e os Marcadores Somáticos

Tem sido amplamente discutida nos últimos dias a pertinência da decisão de Veloso nos primeiros minutos do Portugal - Alemanha, quando após roubar a bola a Lahm na primeira fase de construção alemã, e encontrando a defesa alemã inevitavelmente desequilibrada, opta pelo passe a Ronaldo. De forma geral, a decisão tem sido catalogada como errada. Consegue-se perceber porquê, mas será que chega a análise superficial?

Do ponto de vista meramente teórico, de situação de 3x2+1 em que os jogadores são meros intérpretes de uma situação hipotética, percebe-se quem defende o erro de Veloso. Ronaldo chega posteriormente, Almeida já lá estava. Almeida estava em zonas interiores (mais perto da baliza), Ronaldo recebe a bola na lateral e num ângulo desfavorável. Mertesacker comporta-se superiormente: perante a cobertura de Hummels encurta caminho ao portador e abranda ligeiramente quando sente o deslocamento de Ronaldo nas suas costas. E agora, Veloso?




Veloso opta por Ronaldo porque as decisões no futebol não acontecem ao acaso. No futebol, como na vida, no nosso subconsciente durante aqueles milésimos de segundos joga-se um jogo probabilístico e emocional de alta intensidade que tem tremenda influência quando somos forçados a tomar decisões deste calibre. A grande matriz impulsionadora desta tomada de decisão são as experiências anteriores que se fazem representar no nosso cérebro por marcadores somáticos, terminologia sustentada e superiormente defendida por António Damásio no seu Erro de Descartes. Isto parece fazer ainda mais sentido em algo tão imediato e tão rápido como uma decisão deste género: se para tomar a decisão o nosso cérebro precisasse de uma reflexão profunda sobre o assunto a oportunidade desvaneceria-se.


Os marcadores somáticos associam emoções e estados fisiológicos positivos a decisões. Se perante o estímulo da decisão x o meu colega falhar o golo no treino, e perante a decisão y em que eu opto por outro colega ele conseguir marcar, provavelmente eu optarei mais vezes pela decisão y. Associa-se a ela um estado fisiológico positivo, um marcador somático que marca positivamente aquela decisão. O contrário também se passa: se de todas as vezes em que eu tento fintar no treino perder a bola, ou receber feedback negativo do treinador, o marcador somático negativo associado a esse processo fará com que eu evite aquele comportamento. Se por outro lado eu tiver particular sucesso a rematar de fora da área, não preciso de incentivo: da outra vez correu bem, porque não? Isto explica, por exemplo, porque é que os finalizadores em crise de confiança evitam o remate, procuram situações alternativas, escondem-se desse momento do jogo.

Passando à situação concreta, eu tenho a ligeira desconfiança de que, não obstante todas as condicionantes,
das vezes em que o Veloso passou a bola a Ronaldo a equipa dele teve mais sucesso que quando resolveu entregar a bola a Hugo Almeida: marcador somático positivo associado a passar a bola ao Ronaldo.

E agora: Veloso decidiu bem ou mal?

quarta-feira, 18 de junho de 2014

A importância de um cérebro

Este Mundial vou com os olhos fechados
1. Teria sido importante um cérebro para várias personagens da maior desilusão deste Mundial, a Espanha.

2. Em primeiro lugar, seria importante para Del Bosque, para que não escolhesse os jogadores seleccionáveis e o 11 titular, em função de estatutos (como Casillas, ou a saída de Pique em detrimento de Ramos), ou em função de pressões externas (como Diego Costa), quase uma obrigação depois de se ter naturalizado e de ter feito uma grande época.

3. Em segundo lugar, seria novamente importante para Del Bosque, para que respeitasse uma geração que ganhou tantas coisas, a maior de sempre de selecções certamente, e que, no último Mundial de muitos, se vê vergada sem qualquer respeito, se vê descaracterizada, tudo porque se introduziu um novo avançado (que não é tudo o que se quer fazer dele, apesar de ter qualidade), que muitos dizem que serve para dar profundidade num jogo que seria "mastigado", mas que, em tudo o que tocou nesta competição estragou, sem qualquer qualidade a jogar entre - linhas (será coincidência que hoje tenhamos visto mais jogo directo do que nunca na selecção espanhola), com um primeiro toque de costas para lá de fraco, que foge totalmente do registo destes jogadores, que nem na profundidade se conseguiu movimentar. Não merecia Xavi.

4. Em terceiro lugar, para Casillas, que parece que tem o seu congelado desde algum tempo para cá. A defesa do segundo golo não lembra a ninguém.

5. O último cérebro seria para Ramos. Não chegou ficar ligado, e de que maneira, à goleada holandesa, hoje voltou a fazer das suas.




A jogada começa com dois erros de Xabi Alonso, primeiro na decisão que toma, poderia mais facilmente ter dado um passe mais perto em Busquets, que estava de frente, e depois no gesto técnico, que o faz falhar o passe. No entanto, é de notar a passividade de Javi Martìnez, dado que, com um/dois passos para o seu lado direito e teria aberto uma linha de passe ainda mais simples para Xabi Alonso. Depois começa o show de Ramos. Quando o jogador chileno toca pela primeira vez na bola bate Ramos, o que é normal, dado a velocidade com que tudo decorre. Nesse instante, Javi Martinez sai na contenção, e bem. Quem não esteve tão bem foi Ramos, que em vez de rapidamente se ajustar para ficar na cobertura a Javi, defendendo o espaço central, ficou em cima do jogador chileno, sem se saber bem a fazer o quê. Quando se apercebe da asneira foi tarde, já a bola estava a passar entre as pernas. Mas, o recital não acaba aqui, se parar o vídeo no segundo 43, vê Ramos a olhar para a bola, sem qualquer contacto visual com o avançado chileno e, consequentemente, muito longe para defender o que interessava, o espaço central que, curiosamente, é onde está a baliza. No meio disto tudo, convém destacar o mérito do Chile, com um dos bons golos deste Mundial.

6. Para terminar, é importante frisar que há muitos Ramos por esse mundo fora, que agradam a muita gente, porque saltam à vista, ou porque são muito fortes e agressivos, ou porque são muito rápidos ou porque tem um pouco das duas, no entanto, falta-lhes o mais importante, um cérebro.

A Beleza do Futebol

A própria palavra atrai imediatamente qualquer fã de futebol. Golo. Um dos principais objectivos do jogo. Uma explosão de emoções em dezenas, centenas, milhares ou milhões de pessoas, conforme a magnitude que estes atingem.

Neste Mundial têm sido uma constante e uma agradável surpresa. Na jornada inaugural da fase de grupos, tivemos 49 golos em 16 jogos. Ou melhor, em 15 jogos. O Irão x Nigéria foi a pobre excepção que confirma a regra: neste Mundial, os ataques estão claramente a superiorizar-se às defesas, e ninguém parece ter receio de procurar o golo. Das 32 selecções presentes na competição, apenas 6 falharam em consegui-lo nesta jornada.

Uma média superior a 3 golos por jogo. E golos para todos os gostos e feitios. Sejam cabeceamentos irrepreensíveis, jogadas individuais soberbas, jogadas colectivas de requinte ou remates estonteantes, este Mundial já conta com alguns golos que, por si só, valem bem o preço do bilhete.

E como tal, aqui ficam alguns desses golos. Para ver e rever.





terça-feira, 17 de junho de 2014

Notas sobre a Selecção

Ponto prévio: não éramos favoritos, contra uma Alemanha que terá sempre uma palavra a dizer nesta competição. Temos um conjunto de jogadores de qualidade mediana, com um ou outro que se destaca individualmente. No entanto, custa perceber como não conseguimos sequer ser competitivos nesta estreia no Mundial 2014. Ou será que não custa?

- De que serviram os jogos de preparação? Partiu-se com uma ideia de 4x4x2 que poderia trazer frutos com Ronaldo a jogar por dentro e com a equipa, naturalmente, menos exposta defensivamente pelo flanco de onde partem Coentrão e o madeirense; em seguida testou-se Coentrão como médio interior, trocaram-se os avançados e, acima de tudo, não se deram minutos nem rotinas a jogadores que hoje apareceram em campo. Fosse qual fosse a ideia de jogo, Rúben Amorim e Varela tornam o flanco direito português muito mais competente a atacar e a defender.

- O jogo começou com um ou dois lances interessantes por parte de Portugal, que tremeu com um erro de Rui Patrício. Ainda com o nulo no marcador, há um lance que pode definir muito daquilo que seria o jogo: recuperação de bola de Miguel Veloso (que, como habitualmente, acompanha o seu opositor directo para todo o lado, ainda que na maior parte das vezes isso cause dissabores à organização defensiva portuguesa) em terrenos adiantados e um claro 3x2 para resolver. A imagem mostra o momento em que Veloso se desfaz da bola.


- Umas quantas perguntas surgem na minha cabeça. Dividindo o campo em 3 faixas ao comprimento, qual delas será a que mais nos aproxima do golo? Como trabalha Paulo Bento a transição ofensiva? Será que devemos passar de uma situação de 3x2 para um 1x0, ou será que é seguir o grito de Ronaldo e passar-lhe a bola?

- Com o passar dos minutos tornou-se gritante a facilidade com que a Alemanha conseguia jogar dentro do nosso bloco, sempre com soluções entre-linhas e facilidade de processos. A nossa equipa mostrou dificuldades em organizar-se após perda, e mesmo em organização defensiva o bloco nunca foi compacto. Esta Alemanha parece querer tornar-se um misto das antigas e frias equipas germânicas, com um toque das potências que têm ganho a Bundesliga: a verticalidade de Klopp, a inteligência de Guardiola. Veremos como será daqui para a frente.

- A história do jogo termina com a 1ª parte. À expulsão de Pepe segue-se o golo de Muller, que confirma não só a superioridade alemã como também expõe outra das vulnerabilidades da selecção portuguesa. 



- Nani: com tanto tempo para definir um passe, até eu jogo com o Lahm, Kroos e companhia. Convém pressionares e encurtares na bola, e assim retirares tempo e espaço ao portador. A passo é mais complicado.

- Última nota: sem Coentrão será mais complicado, mas ainda é possível o apuramento. Com William Carvalho no lugar do Veloso, com Amorim e Varela pela direita, com menos pontapé para o ar do Bruno Alves, com Moutinho em jogo e, essencialmente, com mais cabeça fria e pés no chão. Às vezes uma derrota obriga-nos a outra atitude e a outras opções. Já passaram 10 anos, Scolari, lembras-te?

segunda-feira, 16 de junho de 2014

É golo!

GOLO!!!!

Tecnologia 1 - Céticos 0

Foi ontem no França-Honduras. Remate do Benzema, bola no poste, guarda redes atrapalhado, a bola passa a linha de golo ou não passa? Um segundo depois chegou a confirmação ao árbitro: Foi golo!

E eis a tecnologia a chegar, finalmente, ao serviço do Futebol. Foi um dia memorável. O facto de ter acontecido num jogo da França de Platini só acrescenta um toque de ironia à situação.

Sentiram a falta da polémica? Eu não! Sentiram alguma quebra no ritmo de jogo? Eu não!

Claro que ainda haverá gente reticente. Gente que dirá que é injusto que a França em jogo de mundial possa beneficiar desta tecnologia enquanto que uma equipa da 2ª Divisão Distrital de Aveiro não tem essa possibilidade. Gente que achará injusto que o Karim Benzema disponha desta faculdade enquanto que o Cajó, ponta de lança dos juvenis do Alferrarede, não possa dela usufruir. Mas esses serão ultrapassados pelo ridículo das suas próprias argumentações.

Foi golo. Não há espaço para polémicas e teorias de conspiração trazendo à baila a capacidade do Platini em influenciar decisões de arbitragem. Para infelicidade de muitos a discussão terá de centrar-se na capacidade finalizadora do Benzema, no seu poder de remate e sentido de baliza; na infelicidade do Valladares. E fica aí muito bem. Deixando o árbitro descansado, consciente que tomou uma decisão correta.

Foi golo. Ponto final. E viva o futebol com verdade!!!

sábado, 14 de junho de 2014

Inspiração

Numa altura em que a selecção portuguesa se prepara para mais uma participação na maior competição mundial de selecções e em que se avivam a toda a hora as memórias dos feitos e façanhas alcançados pelo nosso futebol ao longo dos anos, nada como recordar, não sem uma ponta de nostalgia, a notável carreira de um dos melhores e mais talentosos jogadores que o futebol português já produziu. Para mim e para meia dúzia de românticos incorrigíveis, será sempre o melhor. O jogador que inspirou. O jogador que apaixonou. O jogador que nos fez ficar pregados ao grande ecrã. E não, não estou a falar de Ronaldo.

Despontou para o futebol perto de Lisboa, em Almada, brilhou ao mais alto nível lá fora, do requinte de Barcelona ao glamour de Milão, não esquecendo a opulência de Madrid, evoluiu de miúdo enfezado com o cabelo escorrido e sem graça para homem mundano, elegante e com um corte de cabelo contemporâneo, mas o seu futebol apaixonante, de fato e gravata, esse permaneceu imutável. Jogou toda a vida como extremo, mas nunca precisou de velocidade, nem de força, muito menos de malabarismos exóticos, para se destacar dos demais. Velocidade? Sim, de pensamento! Força? Sim, de vontade! Malabarismos exóticos? Mas para quê complicar o que é fácil?! Basta arrancar, travar, temporizar, voltar a arrancar de novo, ir para fora, vir para dentro e, tau, o adversário já ficou para trás! Sempre com a bola coladinha ao pé, claro. Quando era preciso mudar o rumo dos acontecimentos, lá estava ele, pronto para agarrar o jogo pelos colarinhos e resolver aquilo que o colectivo era incapaz de resolver…Mas não resolvia de uma maneira qualquer. Ao contrário de outros, nas suas acções não havia nunca pressa, sofreguidão ou ânsia de provar alguma coisa. Não, era tudo espontâneo, com a naturalidade de alguém que nasceu para liderar e para assumir as responsabilidades de uma nação inteira.

Com a camisola das quinas ao peito, há muitos e bons momentos que vale a pena recordar…Talvez o mais inesquecível de todos seja aquele míssil teleguiado que saiu dos seus pés ainda antes da meia-lua e só parou dentro da baliza de David Seaman, quando Portugal perdia por uns irremediáveis 2-0 frente a Inglaterra, na fase de grupos do Euro 2000. Foi esse o mote para a sensacional reviravolta que surpreendeu o mundo, foi esse o golo genial e inesperado que galvanizou os jogadores e os adeptos. Ainda no Euro 2000, quem não se lembra da grande exibição contra a Turquia, nos quartos-de-final? Duas assistências perfeitas para os dois golos de Nuno Gomes, o primeiro num cruzamento com régua e esquadro, o segundo numa arrancada fulminante pela direita, que virou o lateral esquerdo turco de pernas para o ar e terminou com um passe açucarado para Nuno Gomes encostar. «Ai é preciso resolver? Então passem-me a bola, que eu faço o resto…» A forma como concluiu a sua carreira a nível internacional tem também o seu quê de simbólico…Suplente utilizado no jogo de atribuição do 3º lugar contra a Alemanha, quando entrou em campo, a selecção nacional perdia por 3-0 e já pouco havia a fazer. Sem pedir licença a ninguém, pegou na bola, olhou para a área e meteu-a direitinha na cabeça do companheiro de muitas batalhas, Nuno Gomes, que fez o 3-1. Dever cumprido, como sempre! Mas, curiosamente, o lance que, para mim, melhor ilustra o que foi este jogador dentro das quatro linhas tem lugar num distante Portugal-Dinamarca, num jogo amigável há muito esquecido…Jogo morno, sem interesse, empatado a um golo, e eis que a bola chega aos pés do maior craque de todos. Arranca, passa pelo meio de dois defesas sem esforço, senta Schmeichel com uma finta de corpo e pica a bola por cima do gigante dinamarquês. Parece fácil! Mas não é. É só para quem sabe. Em três palavras: talento, classe e liderança.

De quem estou a falar? Já todos devem ter adivinhado, mas a poucas horas do pontapé de saída da selecção portuguesa no Mundial de Vera Cruz, precisa-se que Ronaldo, a nossa maior referência futebolística e de quem se esperam momentos de grande inspiração, tenha um pouco do incontornável…Luís Figo!