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quarta-feira, 16 de julho de 2014

Retrospetiva do Mundial

Terminou a maior competição do panorama futebolístico. Foram 4 semanas de futebol, numa competição recheada de golos, surpresas, festa e com a confirmação que o antigo ditado ainda se aplica: "São 11 contra 11 e no fim ganha a Alemanha". Mas foi realmente este um dos melhores Mundiais de sempre? Vejamos: 

AS 4 SEMI-FINALISTAS

Das 4 equipas que chegaram às decisões finais, apenas uma apresentava um futebol de qualidade: a Alemanha. E aqui fala-se em futebol de qualidade com a premissa de ideias coletivas de valor, não da dependência de individualidades para atingir a vitória. 

Comecemos pelo 4º classificado: o Brasil. Desde o 1º jogo que os canarinhos apresentavam deficiências coletivas graves. Superioridade na zona da bola? Nem a defender, quanto mais a atacar. Apesar de não defenderem com referências individuais per se, em todos os jogos existiram uma mão-cheia de erros defensivos a surgirem da tentação de seguir o adversário e não a ocupação racional dos espaços. No ataque era cada um por si. A partir do momento em que a bola entrava num dos 4 homens da frente, o objetivo era sempre procurar espaços longe do portador, sem nunca haver a preocupação (e paciência) para procurar melhorar as circunstâncias do lance e os melhores timings de entrada. Além disso, a pressão a que os jogadores foram expostos antes e durante o Mundial pagou-se caro a partir do momento em que os erros começaram a sobrepor-se à qualidade individual dos jogadores. Os 10 golos sofridos nos últimos 2 jogos são uma consequência disso mesmo. Contra equipas mais competentes o véu caiu e deixou as (graves) falhas à mostra. Sem rumo nem capitão ao leme, os brasileiros caíram numa espiral negativa, orfãos da capacidade para se levantarem devido à falta de ideias coletivas de qualidade. Culpa de Scolari que nunca conseguiu dar à equipa princípios de jogo de valor, dum país que esperava demais daquilo que a seleção foi oferecendo e duma federação que se recusa a evoluir, como se copiar ideias de que faz as coisas bem fosse uma afronta.

A Holanda é um caso paradigmático deste Mundial. Equipa baseada (será "baseada" a palavra correta quando não sabiam fazer outra coisa?) em transições rápidas, foi avançando na competição pelas veleidades dadas pelos adversários. Mas uma coisa é verdade: com espaço, esta Holanda é muito perigosa. Van Persie é fantástico a movimentar-se e Robben foi figura maior duma equipa que jogava com o seu ADN. Mas... e quando não existia espaço para transitar em velocidade? Pois. As coisas complicavam e muito. Em organização ofensiva, a Holanda era extremamente previsível: bola num flanco, roda pelo trinco\centrais e bola para o outro flanco. Constantemente. A variação do centro de jogo é uma boa opção para abrir espaços no adversário. Mas tal só dá frutos se após a criação de espaço houver intenção de entrar pela zona central e desequilibrar em definitivo o adversário. Caso contrário é bola a rodar, sempre por fora do bloco, e cruzamento. E era isso que acontecia, com um rácio de aproveitamento claramente deficitário. Já defensivamente, o dedo a apontar a Van Gaal surge pelas marcações individuais (até no meio-campo!) dos seus jogadores. Ao defenderem com linhas recuadas e 3 defesas-centrais, promoviam a aglomeração de jogadores em zonas importantes. Mas isso não equivale a defender bem. Foram várias as vezes em que a defesa holandesa se viu aos papéis com o arrastar de marcações dos seus homens mais recuados. Não existiam referências zonais a ocupar e o foco era sempre o adversário. Para alguém que no passado deu passos tão importantes na evolução do futebol, Van Gaal deixou muito a desejar.

A Argentina foi um caso semelhante, em menor escala mas com um trunfo de peso: Lionel Messi. Sem ele, os argentinos não teriam conseguido chegar onde chegaram. Analisaremos a performance do astro argentino mais à frente, pois para já importa analisar a qualidade da equipa de Sabella... que não foi muita. Parecia um filme saído dum relvado dos anos 80. 3 ou 4 jogadores para atacar, os restantes para defender. Equipa completamente partida em transição e com extremas dificuldades em controlar os espaço a meio-campo pela falta de plasticidade da linha média. Com bola existiam boas intenções (portador com linhas de passe próximas, boa ocupação do espaço central, mobilidade dos apoios) mas nada de transcendente. E muitas vezes eram Lavezzi e Di Maria, no seu jeito desengonçado, que lá desequilibravam o adversário com a reconhecida facilidade no 1x1\2. A chegada à final foi feita constantemente no limite, com um único golo de diferença em todos os jogos. Salvou Messi mas os problemas eram visíveis e com a extraordinária qualidade individual presente na equipa, Sabella devia e podia ter feito muito mais.

A Alemanha foi consistentemente a melhor equipa deste Mundial. Com alguns defeitos sim, mas no panorama global mereceu ganhar a competição porque jogou o melhor futebol. São, a par da Espanha, o país com melhores perspetivas futuras em termos de jogadores e ideias de jogo. Nos primeiros dois encontros alguns erros posicionais em posse deixavam no ar dúvidas quanto ao controlo do espaço, com a equipa desequilibrada e sujeita a transições perigosas pelo mau posicionamento das suas peças. Mas rapidamente resolveram o problema. O controlo da profundidade a defender alto foi, para mim, o ponto alto desta seleção. Ofensivamente beberam daquilo que Guardiola deu este ano ao Bayern e construíram uma equipa forte em posse e mortífera em contra-ataque. Juntando a isso jogadores de craveira ao nível do melhor existe, as condições estavam criadas para se tornarem imparáveis. Especial menção para Muller e Lahm, dois portentos da inteligência que em qualquer posição do onze seriam considerados dos melhores do Mundo.

O MELHOR DA COMPETIÇÃO

A eleição de Lionel Messi como melhor jogador do Mundial deixou muitos surpresos e irritados. A mim não. Messi foi, ao longo da prova, o jogador que mais e melhor agiu nas mais variadas situações com que foi confrontado. Constantemente obrigado a lidar com lances de inferioridade numérica devido a um Modelo com princípios ultrapassados, fazia quase sempre a diferença e optava pela melhor decisão, mesmo que essa decisão implicasse não partir para o drible ou simplesmente manter a posse. Aproveitando a temática, no Lateral Esquerdo fizeram uma excelente análise. Recomendado. 

Um dos maiores argumentos usados para se justificar a "inferioridade" de Messi face a Maradona é o facto de Maradona ter "carregado" a equipa às costas para a vitória dum Mundial. Bem, Messi não ganhou o troféu mas fez exatamente o mesmo. Dentro daquilo que um único homem pode fazer face aos contextos apresentados pelo jogo, Messi deu à sua seleção a hipótese de lutar pelo título mais importante do futebol.. Não foi o melhor marcador, não foi o maior assistente, mas foi aquele que melhor resposta deu às condicionantes do jogo. E por isso merece, mais que qualquer outro, a nomeação de melhor jogador da prova.

A NOSSA SELEÇÃO

Portugal saiu do Mundial de cabeça baixa. Em terceiro lugar do grupo com 4 golos marcados e 7 sofridos, a seleção foi o espelho duma decepção há muito anunciada. Pouco interessa discutir a convocatória e os fatores externos condicionantes. Não foi por falta de vontade e empenho que Portugal caiu tão cedo. Foi por falta de ideias. Os erros cometidos pela equipa foram muitos, desde falta de criatividade da equipa em momento ofensivo até ao ridículo, quase caricaturesco, comportamento da linha defensiva. São tantas as dificuldades que fica no ar a dúvida até que ponto a federação dará liberdade a Paulo Bento para continuar no cargo nos próximos tempos. Já não existe a qualidade da altura de Deco, Rui Costa, Ricardo Carvalho, Figo, ou até uma base de jogadores que jogue junta e tenha boas rotinas (Porto 03\04) e isso exige ainda mais competência a quem gere o futebol nacional. Uma coisa é certa: se não houver mudança (não necessariamente no treinador mas na abordagem do mesmo) as coisas manter-se-ão na mesma.

Em jeito de conclusão, este Mundial foi para mim uma decepção. Equipas a jogar com princípios há muito ultrapassados só prejudica a evolução do futebol. O espectador gosta de golos e foi isso mesmo que houve, em fartura até. No entanto, não surgiram pela qualidade ofensiva das equipas mas pela desorganização defensiva latente. Foi uma prova nivelada por baixo e a análise deve ser feita em termos absolutos, não em termos relativos. Dizem que o clima afetou o futebol praticado. Não refutando esse facto, tal argumento não pode nem deve ser desculpa para a pobreza de ideias demonstrada na competição. Os próximos Mundiais serão na Rússia e no Qatar, dois países com climas ainda mais extremos que o Brasil. Como será aí então?

quarta-feira, 9 de julho de 2014

A catástrofe brasileira: o rei vai nu

No futebol a equação está longe de ser simples, mas o jogo é uma amálgama de duas faces de uma mesma moeda: qualidade individual na resolução de problemas micro do jogo, princípios e ideias a sustentar uma intencionalidade colectiva na resolução de problemas de maiores dimensões.

Enquanto os adversários foram sendo a Croácia, o México, o Chile ou até a Colômbia, a maior qualidade individual brasileira em quase todos os sectores foi levando paulatinamente a água ao seu moinho, com maior ou menor dificuldade. As equipas de forma geral eram mais organizadas, mas quem tem Óscar, Hulk, Neymar ou Thiago Silva (entre outros) na resolução deste tipo de problemas de ordem mais reduzida arrisca-se a ganhar qualquer jogo.

Perante esta realidade, era fácil de perceber que quando este Brasil encarasse um adversário igualmente forte a nível individual e que a isso juntasse ideias, intencionalidade colectiva, que juntasse à capacidade de resolver problemas individualmente no centro do jogo (com e sem bola) a capacidade de pensar o jogo por um mesmo cérebro, as coisas podiam correr mal. Junte-se a isso um decréscimo significativo na qualidade individual, pelas ausências do jogador mais influente do sector defensivo (Thiago Silva) e do jogador mais influente do sector ofensivo (Neymar) e Scolari tinha uma bomba-relógio nas mãos.

Desenganemo-nos: nem a selecção alemã tem futebol suficiente para atropelar a congénere brasileira por 7-1, nem o troféu está entregue por ter acontecido este resultado. A aleatoriedade constitui uma parte considerável do jogo, e os golos surgiram hoje em momentos-chave, inquinando completamente o jogo à partida. Não sirva isso no entanto para ocultar que o rei da Copa, o penta-campeão mundial e todo poderoso Brasil, vai mesmo nu.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Notas dos Oitavos-de-Final (1)

Brasil-Chile

O Brasil de Scolari, com um futebol aos trambolhões, lá vai ultrapassando os obstáculos que lhe aparecem pela frente, mas está quase tudo errado: é o duplo pivô que só serve para destruir jogo, é o ponta-de-lança dos anos 80 que só lá está para responder a cruzamentos, é Neymar a jogar por dentro, é Oscar a jogar por fora, é Willian, Hernanes e Bernard praticamente sem minutos, são as substituições troca por troca em qualquer altura do jogo…Não há organização, não há ideias, não há jogo interior, é fé no Neymar e esperar que ele faça umas coisas giras com a bola. Este Brasil, a jogar em 3x5x2 com Júlio César, Thiago Silva, Dante, David Luiz, Dani Alves, Marcelo, Fernandinho, Hernanes, Oscar, Neymar e Hulk e com Sampaoli no banco, era a selecção mais poderosa em prova e a maior candidata à vitória final, talvez a par da França. Assim como está, claramente não é e, apesar do factor casa e das individualidades de luxo que tem, acho que é uma questão de tempo até ficar pelo caminho, como o Chile, aliás, se encarregou de demonstrar. O Brasil teve as melhores oportunidades de golo? Talvez, mas só quando o Chile rebentou fisicamente e foi obrigado a jogar num bloco mais baixo, um registo em que claramente não se sente tão confortável. Até lá, o jogo foi repartido e o Júlio César também teve que ser chamado a intervir um par de vezes. E se aquela bola à trave do Pinilla tem entrado…Scolari está a meter-se a jeito, a única dúvida que há é saber durante quanto mais tempo é que a sorte vai durar. De resto, nota muita negativa para Howard Webb, que continua a demonstrar uma falta de categoria nada consentânea com a distinção de «melhor árbitro do mundo». É preocupante que um árbitro tão reputado não saiba o que é uma falta nem um cartão amarelo.

Colômbia-Uruguai

A Colômbia, sob a batuta daquele que é, para mim, o melhor jogador do Mundial até à data, James Rodríguez, despachou o Uruguai por 2-0 e já está nos quartos-de-final. No entanto, a equipa de Pekerman, embora seja uma das boas selecções da prova, não é tudo aquilo que dizem que é. Ofensivamente tem alguma qualidade (o primeiro golo de James é sensacional, mas é a jogada que dá origem ao segundo golo que melhor ilustra aquilo que esta equipa é capaz de fazer no ataque), mas falta imaginação no meio-campo (Guarín? Quintero?) e, sobretudo, maior qualidade nos processos defensivos. Mau controlo da largura, mau controlo da profundidade, linha defensiva muitas vezes mal alinhada, muito espaço entre linhas…Quando há tempo para formar duas linhas de quatro elementos bem definidas, ainda disfarça, mas quando isso não acontece, abrem-se buracos por todo o lado, que podem ser aproveitados por uma equipa com mais qualidade do que Grécia, Costa do Marfim, Japão e Uruguai. Sinceramente, via o Chile com mais capacidade colectiva para eliminar o Brasil, mas a Colômbia também vai ser um osso duro de roer e não foi à toa que fez o pleno de vitórias até agora. Quanto ao Uruguai, são aquilo que já eram em 2010, quando beneficiaram e muito de um sorteio favorável para chegarem às meias-finais do Mundial da África do Sul: uma selecção de rapazes pouco talentosos (Tabárez certamente deve ter um conjunto recheado de opções, para se dar ao luxo de deixar Lodeiro e Gastón Ramírez no banco de suplentes…), cujas maiores armas são a disponibilidade física e a agressividade. Não vão deixar saudades.


Holanda-México

A Holanda é um caso parecido com o do Brasil, mas sem a parte da qualidade individual. Sim, porque tirando Van Persie e Robben, que são de outro campeonato e ainda estão na plenitude das suas capacidades, esta selecção holandesa tem um conjunto de jogadores relativamente modesto. Há ali mais dois ou três jogadores de bom nível, alguns deles já em final de carreira, e pouco mais. Além disso, a equipa tem uma organização sofrível (é doloroso ver Van Gaal, que é só um dos treinadores que mais contribuiu para a evolução do jogo, a mandar os seus jogadores marcarem homem-a-homem no campo todo…) e pura e simplesmente não sabe o que há de fazer à bola quando a outra equipa não lhe deixa espaço para jogar. Com tantos defeitos, como se explica que tenha levado de vencida um adversário tão bem organizado como o México? Há duas explicações para isso: em primeiro lugar, o recuo estratégico do México que, depois de uma boa primeira parte, quis defender a vantagem demasiado cedo e deixou-se encostar às cordas; e em segundo lugar, as alterações cirúrgicas de Van Gaal, que deram a Robben a liberdade de movimentos que ele não tinha tido até aí. O resto é a categoria individual do extremo do Bayern, de cujos pés saíram praticamente todos os (poucos) lances de perigo da Holanda e que ainda ganhou, no último fôlego, o penalty que daria o 2-1. No entanto, apesar da derrota, esta selecção mexicana deixa uma imagem muito positiva neste Mundial e, no meu entender, merecia ser tão falada como o Chile ou a Colômbia, só para dar dois exemplos de selecções do mesmo patamar competitivo. A sua organização defensiva, por exemplo, é estupenda e é a prova de que é perfeitamente possível criar rotinas e automatismos numa selecção, mesmo com o menor tempo disponível para treinar. Depois, claro, é o mesmo problema de sempre - faltam executantes que consigam transportar esta proposta de jogo para outra dimensão.

Costa Rica-Grécia


Há poucos chavões que me irritem mais no futebol do que este: «Cada um joga com as armas que tem, esta Grécia não dá para mais…» Tretas. Se uma equipa que conta com jogadores como Torosidis, Manolas, Sokratis, Holebas, Katsouranis, Karagounis (se tem 37 anos, não parece…), Kone, Lazaros, Fetfatzidis, Samaras, Salpingidis, Gekas e Mitroglou não tem qualidade individual para mais do que defender com muitos e bombear bolas para a frente o jogo todo, não sei quem é que tem. Tanto tem que contra a Costa Rica fez uma primeira parte bem agradável, com um futebol mais apoiado do que é costume, e em que podia inclusivamente ter-se adiantado no marcador. Se não querem jogar tudo o que sabem porque acham que não lhes vai trazer resultados e preferem adoptar uma postura mais calculista e menos arriscada, tudo bem, é uma opção e não tenho nada a ver com isso. Agora não me venham é dizer que o fazem porque não têm matéria-prima, porque isso é mentira! Quanto ao jogo em si, foi pautado pelo equilíbrio, com um ligeiro ascendente da Grécia na primeira parte e com uma Costa Rica mais perigosa na segunda parte, pelo menos até à expulsão. A partir daí, a Grécia tomou conta do jogo, mas sem grande engenho e acabou por marcar quando pouco tinha feito para aproveitar a vantagem numérica. No prolongamento, aí sim a história foi outra, com a Grécia a fazer o que lhe competia e a conseguir várias vagas de ataque, que esbarraram sempre nas mãos do excelente guarda-redes da Costa Rica, Keylor Navas. Foi injusto perderem nos penaltis? Sem dúvida, mas não lhes fez mal nenhum provar um pouco do seu próprio veneno... Do lado da surpreendente Costa Rica, além da organização defensiva, que é do melhor que se viu neste Mundial e que vai certamente causar muitas dificuldades à Holanda, apetece-me destacar um jogador em particular. Sim, eu sei que o Campbell é o jogador da moda, porque é irrequieto, vai para cima e não pára quieto um segundo, mas não é dele que vou falar…Vou falar antes do número 10, Bryan Ruiz. Já tem 28 anos, joga a passo e o melhor que conseguiu na carreira foi um Fulham da vida, mas é só o melhor jogador desta Costa Rica. É o mais inteligente, o mais criativo, o mais maduro. Acelera quando tem que acelerar, temporiza quando tem que temporizar, percebe sempre o que se está a passar à sua volta com extrema facilidade e quando pega na bola, não há ninguém que lha tire. Mas será que ninguém lhe pega? Num colectivo forte, que jogasse um futebol apoiado, de pé para pé, teria sido melhor aproveitado e teria tido certamente uma carreira com outra expressão. Um dos craques deste Mundial.




sexta-feira, 13 de junho de 2014

Análise ao Brasil x Croácia

Começou o Mundial. A maior competição do mundo de selecções, que desta vez se realiza num país que sente, vive e respira futebol. Mas tal não se reflectiu hoje (ontem) dentro das quatro linhas, pois o resultado final não faz transparecer a exibição apagada e pouco colorida da "Canarinha", tradicionalmente uma selecção viva, com magia e com uma imagem sempre alegre do desporto-rei. Foi um jogo bastante equilibrado, com pouca coragem para arriscar de parte a parte, postura normal num jogo de abertura do Mundial, em que ninguém quer entrar com o pé errado em prova e colocar desde logo em perigo a passagem à fase seguinte.

A Croácia entrou forte no jogo, com Olic e Perisic nas alas a aproveitarem bem os espaços que Dani Alves e Marcelo deixavam nas suas costas, e com um meio-campo muito activo, dinâmico e agressivo sobre a bola, composto por Kovacic, Modric e Rakitic (estes 2 últimos funcionam claramente como os motores desta selecção). Chegaram ao 1-0 numa das investidas de Olic, (jogador muito experiente, mas igualmente com muita qualidade) que aparece no espaço deixado vazio por Dani Alves e progride pela esquerda, cruzando em seguida para a área, onde, depois de um desvio de Jelavic, Marcelo empurra a bola para a sua própria baliza.

Um balde de água fria na euforia que se vivia até aí na Arena Corinthians, mas um golo que serviu para acordar o Brasil. Os canarinhos equilibraram defensivamente, passaram a gerir melhor a posse de bola e a passagem de Oscar para o lado direito, com Hulk na esquerda e soltando Neymar para jogar no meio, atrás de Fred, permitiu-lhes passar a criar alguns desequilíbrios na organização defensiva croata, sobretudo procurando os passes verticais ao longo da linha lateral, na tentativa de explorar o espaço nas costas de Srna e Vrsaljko, os laterais croatas. Assim, o golo acaba por surgir com alguma naturalidade, num remate na zona central e à entrada da área de Neymar, que entra no canto inferior direito da baliza de Pletikosa. Até ao intervalo, o predomínio da selecção brasileira continuou, mas sempre sem causar grande perigo para a Croácia.

Na segunda parte, o equilíbrio e a coesão defensiva das equipas mantiveram-se como a nota dominante dos primeiros minutos. Com o passar do tempo, o Brasil demonstrou-se incapaz de criar desequilíbrios na boa organização defensiva croata, sobretudo devido à qualidade presente na zona central (tanto Modric como Rakitic são hoje médios soberbos na compreensão do jogo e são acima da média no que toca a compreender a zona que devem defender e as acções que devem tomar em cada jogada). O facto de Neymar ter começado a fugir mais para o corredor direito e de Hulk também ter estado quase sempre por lá, mas ao lado do jogo (foi o elemento mais fraco do lado brasileiro), também foram aspectos que não ajudaram o Brasil a conseguir desequilibrar, pois com tanta presença de jogadores num curto espaço de terreno (além de Neymar e Hulk, Oscar também jogava pelo corredor e Dani Alves estava constantemente no meio-campo adversário, bem aberto e colado à linha), o flanco direito ficou congestionado e com pouco espaço para se jogar. Até que, por volta dos 70 minutos de jogo, Oscar cruza sobre a direita; Fred, de costas para a baliza e marcado por Lovren, recebe e orienta a bola com o primeiro toque, e de seguida cai na área. Penalty assinalado, num lance duvidoso e que motivou muitos protestos por parte dos jogadores croatas. Na cobrança, Neymar bisa e faz o 2-1.

A Croácia teve de subir as linhas, arriscar mais (Niko Kovac, o seleccionador croata, trocou Kovacic por Brozovic, e deu uma maior liberdade ofensiva a Modric), e isso criou mais espaço para o Brasil explorar no meio-campo croata. Scolari trocou Hulk por Bernard, colocando-o no lado esquerdo, e deu à equipa a largura, o espaçamento que ela necessitava. Manteve Neymar no meio, e o craque teve neste período 2 lances de registo, em que finalmente encontrou espaço na zona central para conduzir a bola em velocidade e progressão, como tanto gosta. O Brasil foi controlando o ritmo do jogo, conseguiu ter qualidade na circulação de bola (Hernanes, que entrou para o lugar de Paulinho, veio dar uma grande ajuda nesse capítulo) e acabou por chegar ao terceiro golo já em período de descontos. Ramires (o terceiro elemento saído do banco de suplentes, por troca com Neymar) desarma Rakitic ainda no meio-campo croata, a bola sobra para Oscar e este progride com ela, finalizando de pé direito com a biqueira da bota.

Machadada final no jogo, e a confirmação de uma entrada vitoriosa do Brasil no Mundial. Uma vitória que é justa, mas por números algo deslocados daquilo que foi a realidade do jogo. Um 2-1 seria um resultado mais ajustado. Do lado brasileiro, destaque para Oscar, que entrou mal no jogo mas que conseguiu, progressivamente, subir o seu nível; e para Luís Gustavo, que teve um papel fundamental no processo defensivo brasileiro, equilibrando bem as subidas simultâneas de Dani Alves e Marcelo pelos corredores e estancando todas as iniciativas croatas que surgiram pela zona central. Neymar faz 2 golos, mas acaba por realizar também uma exibição algo apagada e inconsistente, tendo por vezes até desaparecido um pouco do jogo.

Do lado croata, de realçar a enorme qualidade da dupla do meio-campo, Modric e Rakitic. Dois jogadores de eleição, extremamente importantes em todos os momentos de jogo da equipa. Por outro lado, o problema desta selecção pareceu passar exactamente por estes 2 jogadores. Não no sentido negativo, obviamente, mas a verdade é que parece um desperdício ter Modric e Rakitic a actuarem tão recuados no terreno. A Croácia ganharia bem mais em utilizar um médio defensivo mais posicional, como Vukojevic ou Brozovic (este último possui enorme potencial, e pode actuar em qualquer posição do meio-campo), soltando dessa forma Modric e Rakitic para tarefas mais ofensivas, de ligação entre sectores e de transporte de bola, aspectos onde ambos são excepcionais actualmente. Ganhariam outra qualidade no aspecto ofensivo, e manteriam a coesão defensiva e a boa organização que apresentaram neste jogo.

Foi o primeiro jogo de um Mundial que se espera que seja um verdadeiro hino ao futebol e uma competição onde o desporto-rei saia valorizado. Afinal de contas, estamos na maior competição do mundo de selecções, e numa das competições mais mediáticas do desporto mundial. O mundo do futebol pára durante um mês inteiro para assistir a esta festa. Cabe agora aos artistas, aos melhores dos melhores, providenciarem o retorno, e estarem à altura. Já rola a bola.