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domingo, 2 de julho de 2017

Coisas que se passaram em 2016/2017

I. Se há sensivelmente um ano e meio se afirmasse que o Benfica de Rui Vitória iria sagrar-se bicampeão e confirmar definitivamente a hegemonia interna do clube da Luz, muito boa gente (eu incluído) rir-se-ia com gosto. Mas, ao contrário de quase todas as expectativas, foi isso mesmo que aconteceu. Por aqui, ainda que se considere que o atual treinador do Benfica beneficiou de uma conjuntura algo favorável, sobretudo neste segundo ano, com um plantel vários furos acima da concorrência e uma estrutura do futebol consolidada, há que reconhecer que se o Benfica evoluiu de um coletivo totalmente disfuncional, com cada um a correr para seu lado, para uma equipa organizada e que dá liberdade aos jogadores mais talentosos para soltarem o seu futebol, também o deve ao trabalho de Rui Vitória e da sua equipa técnica. O mérito a quem o merece.

II. Sem querer “fazer prognósticos à segunda-feira”, sempre me pareceu que a decisão de entregar um plantel com tantos executantes de qualidade a um treinador com a matriz de jogo de Nuno Espírito Santo tinha tudo para correr mal. O Porto viu-se eliminado das taças internas e da Liga dos Campeões demasiado cedo – é verdade que aqui caiu aos pés da futura vice-campeã, mas apenas porque falhou pateticamente o primeiro lugar num grupo facílimo – e essa circunstância permitiu-lhe concentrar-se exclusivamente no campeonato e disputá-lo quase até ao fim, mas nem esse facto apaga a pálida imagem deixada pelos pupilos do ex-treinador de Rio Ave e Valência ao longo de toda a temporada. Com um sistema de jogo rígido e um futebol retilíneo e aos repelões, que não potenciava minimamente a qualidade individual existente, só por um acaso do destino o desfecho podia ser outro que não zero títulos e o despedimento do treinador.

III. Se em relação ao Porto de Nuno Espírito Santo as expectativas não saíram propriamente defraudadas, porque não se esperava muito do protegido de Jorge Mendes, o mesmo não se pode dizer do Sporting de Jorge Jesus, que depois de bater o recorde de pontos do clube e de perder o título por uma unha negra em 2015/2016, tinha tudo para manter a toada em 2016/2017, pese embora as vendas de João Mário e Slimani. Mas o que se viu foi um Sporting que, em janeiro, já só tinha o campeonato para disputar, sendo que nem nesta competição se apresentou competitivo, tendo ficado a 12 pontos do primeiro lugar e tendo encaixado uns incríveis 36 golos em 34 jogos! Além da crença de que é tão competente que até com três ou quatro marretas na linha defensiva consegue colocar uma equipa a defender bem, o erro capital de Jorge Jesus foi ter abdicado de praticamente tudo o que de bom construiu na temporada transata para tentar encaixar Bas Dost e Gelson Martins no onze titular. Ao avaliar – erradamente – o incrível ponta de lança holandês como “um pinheiro” e ao querer fazer de Gelson o principal (e único?) motor ofensivo da equipa, Jorge Jesus modificou posicionamentos e movimentações que tinham funcionado no passado, para que a bola passasse a entrar nestes dois jogadores nas melhores condições possíveis. É verdade que, com isso, conseguiu fazer de Gelson um dos jogadores mais influentes do campeonato e de Dost o melhor marcador destacado, mas…à custa de quê? De um Sporting mais desequilibrado atrás, com laterais e médio defensivo muitas vezes expostos devido ao posicionamento excessivamente largo dos extremos, e mais previsível no último terço, com a bola a entrar sempre nos mesmos espaços e sempre da mesma forma. Em suma, uma época falhada e que deve fazer refletir seriamente os responsáveis leoninos.

IV. A Premier League, por todas as razões e mais algumas, era a competição sobre a qual recaíam todos os olhares e o melhor elogio que se pode fazer é que não defraudou em nada as expetativas. Na ressaca de uma Premier League completamente atípica, com o inesperado Leicester a sagrar-se campeão, assistiu-se desta feita a um campeonato bem disputado, nivelado por cima, taticamente mais rico do que é habitual (a título de exemplo, Chelsea, Tottenham, Manchester City e Arsenal jogaram regularmente com três defesas, uma autêntica raridade em solo britânico), com a maior parte das principais equipas a melhorarem as respetivas pontuações e classificações. Aliás, a ordem do top 6 foi justa e refletiu, de um modo geral, a qualidade de jogo apresentada pelas equipas: um Chelsea à imagem do seu treinador, ou seja, organizado sem bola e cerebral com ela, que é meio caminho andado para ter sucesso em Inglaterra; um Tottenham superiormente trabalhado por Mauricio Pochettino, mas que revelou alguma falta de tarimba e experiência nos momentos decisivos; um Manchester City a praticar, a espaços, o melhor futebol da prova, mas penalizado pela extrema irregularidade exibicional; um Liverpool com boas intenções, mas contagiado pela vertigem do futebol inglês e com um plantel curto para ambicionar a mais do que o 4º lugar; uma das piores versões do Arsenal de que há memória na era Wenger e que ficou naturalmente fora dos lugares de acesso à Liga dos Campeões, pela primeira vez em muitos anos; e, por fim, um Manchester United mais ofensivo do que se esperava, atendendo ao historial recente de José Mourinho, mas a demonstrar que ter muito volume de jogo não é igual a ter bom volume de jogo, como atestam os apenas 54 golos marcados (menos 25/30 golos do que as cinco equipas que ficaram à sua frente!) e os 15 empates concedidos em 38 jogos.

V. Em Espanha, o Real Madrid venceu finalmente o campeonato, que lhe fugia há quatro épocas, e juntou-lhe ainda a segunda Liga dos Campeões consecutiva, um feito inédito na história recente da competição. Tenho lido análises diametralmente opostas sobre os méritos de Zinedine Zidane – por um lado, há quem sustente que o treinador teve pouca ou nenhuma influência nestas conquistas e, por outro lado, há quem seja da opinião que quando se ganha troféus tão prestigiados, tem que haver necessariamente competência do treinador. A minha opinião estará algures no meio: não concordo, de todo, com a segunda premissa, mas tenho que admitir que nunca tinha visto um Real estrategicamente tão bem preparado para os jogos decisivos (nem com Mourinho), pelo que me parece justo afirmar que também houve dedo de Zidane na excelente época do conjunto madrileno. Porém, a meu ver, o fator realmente diferenciador foi mesmo o incrível plantel do Real, o mais bem apetrechado do mundo nos dias que correm e certamente um dos melhores da história do clube. Quanto ao Barcelona, bastará uma frase para resumir o que foi a época blaugrana: nem a genialidade de Messi foi suficiente para evitar a mais que anunciada derrocada do Barcelona de Luis Enrique.

VI. Na Serie A, o trabalho de Massimiliano Allegri na Juventus não pode ser menosprezado – em três anos, três dobradinhas e duas finais da Liga dos Campeões! – mas tenho para mim que qualquer treinador minimamente competente, ao herdar a máquina bem oleada deixada por Conte, teria conseguido um pecúlio semelhante, pelo menos a nível interno. O desnível individual em relação às restantes equipas é abissal e a organização estrutural do hexacampeão não tem par em Itália. Do meu ponto de vista, o treinador que importa destacar em terras italianas é Mauricio Sarri, cujo Nápoles apresenta um dos modelos de jogo mais completos e complexos da atualidade e que está em crescendo de época para a época. Aliás, não é de agora que acho o Calcio um campeonato extremamente subvalorizado: apesar da hegemonia da Juventus nos últimos anos, é uma prova que se caracteriza pela abundância de treinadores com propostas de jogo interessantes (Sarri, Paulo Sousa, Eusebio Di Francesco, Spaletti, Montella, Pioli, Gasperini, etc), pela variabilidade táctica e pela qualidade dos espectáculos. Para que haja maior alternância no campeão, só falta mesmo uma capacidade de investimento ao nível do que acontece atualmente na Premier League e na La Liga, de forma a que as principais equipas se possam aproximar do nível da Juventus, mas acredito que, com a entrada em força de capital chinês, não deverá faltar muito para que o salto qualitativo aconteça.

VII. Em relação ao sempre polémico tema da Bola de Ouro, neste momento restam poucas dúvidas de que Cristiano Ronaldo arrecadará, pela quinta vez, o conceituado galardão. E este ano, ao contrário do que aconteceu em 2016, não tenho muito a obstar: é indesmentível a preponderância de Ronaldo para as conquistas do Real Madrid, nomeadamente na Liga dos Campeões (recordo que Ronaldo marcou 10 golos nos 7 jogos da fase a eliminar, a maior parte deles decisivos!), e esse critério, ainda que não seja o meu, é perfeitamente aceitável e defensável. O meu único lamento, quando ainda faltam 6 meses para o prémio ser atribuído, prende-se com o facto da unanimidade em torno da justiça de novo triunfo do melhor jogador português de sempre não fazer jus a mais uma sensacional época de Lionel Messi, que levou o Barcelona às costas até quando lhe foi humanamente possível: no fundo, a prestação do craque argentino justificava claramente uma maior dose de emoção e incerteza na hora de entregar a Bola de Ouro.

VIII. Contrariamente às previsões da maioria dos comentadores desportivos, para quem a vitória de Portugal na Taça das Confederações era praticamente um dado adquirido, a seleção portuguesa acabou por não ir além das meias-finais, tendo caído perante o Chile, no desempate por grandes penalidades. O desfecho não me surpreendeu, tal como não me surpreenderá se Portugal tiver uma participação relativamente modesta no Mundial do próximo ano. O que vou dizer certamente escandalizará muitas pessoas, mas cá vai: Portugal não tem um modelo de jogo consolidado e comum a todos os escalões (e tinha condições para o ter), não está sequer a procurar fazer a imprescindível renovação de valores (e tinha condições para a fazer) e o que aconteceu é que se limitou a ganhar uma competição a eliminar da mesma maneira fortuita que, por exemplo, o Chelsea de Di Matteo também ganhou uma Liga dos Campeões, ou seja, com uma abordagem de risco mínimo, alguma qualidade individual e uma improvável e irrepetível conjugação de fatores que não pode controlar. Obviamente, nada disto é sustentável a médio/longo prazo – como ficou evidente nesta Taça das Confederações, em que só por manifesta infelicidade o Chile, uma seleção teoricamente do nosso nível, não resolveu a questão no tempo regulamentar – e se nada de verdadeiramente significativo se alterar até lá, temo bem que as fragilidades desta seleção ficarão à vista de todos no Mundial de 2018.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Balanço de Final de Ano

1. O Sporting, na novela mais quente do Verão, trocou Marco Silva por Jorge Jesus e, à passagem da 13ª jornada, está na liderança isolada do campeonato, com dois pontos de vantagem sobre o Porto e sete sobre o Benfica. Além disso, comparativamente com o mesmo período da época passada, o Sporting tem menos um golo marcado, mas tem mais onze pontos, mais cinco vitórias, menos quatro empates, menos seis golos sofridos, ainda não perdeu…Sinal de que tudo vai bem no reino do leão? Com certeza que não. Não partilhando da opinião veiculada sobretudo por adeptos dos rivais de que este Sporting joga pouco futebol – defensivamente, a diferença é do dia para a noite, e mesmo em termos ofensivos, já se veem movimentações e intenções dos jogadores que não se viam com Marco Silva e não se veem nem no Porto nem no Benfica – parece-me haver um défice claro de qualidade individual, o que retarda necessariamente o crescimento da equipa enquanto coletivo e pode ajudar a explicar algumas vitórias tangenciais, que podiam perfeitamente ter resultado em empates. O modelo de jogo de Jorge Jesus é complexo e exigente a todos os níveis e, para estar em Dezembro a jogar já perto do seu potencial máximo, eram precisos executantes com uma qualidade técnica e de decisão que não está ao alcance de um João Pereira, de um Naldo, de um Adrien, de um Teo ou de um Slimani (só aqui já está meia equipa habitualmente titular). Ewerton, André Martins, Aquilani, Carrillo, Matheus Pereira e Montero, esses sim têm essa capacidade, mas, por uma razão ou por outra, não têm estado entre as primeiras opções de Jesus, pelo que o futebol do Sporting tem tardado em dar o salto qualitativo. Resumindo: a meu ver, apesar dos indicadores positivos, o Sporting será tanto mais candidato ao título quanto mais vezes incluir no onze inicial os jogadores acima referidos. Noutro âmbito, a chegada do fantástico Bryan Ruiz constitui a melhor notícia do defeso em Portugal, talvez a par da contratação de Mitroglou pelo Benfica.

2. Há quem seja da opinião que Julen Lopetegui é um treinador com uma boa ideia de jogo, mas que não sabe bem como operacionalizá-la, nem quais os melhores jogadores para a executar. Acho precisamente o contrário: o treinador espanhol sabe pôr uma equipa a jogar como quer e também sabe escolher os executantes mais adequados para o seu modelo de jogo, mas boas ideias é tudo o que não tem, pelo menos a nível ofensivo. É tudo rígido, padronizado e previsível, mas estou plenamente convencido de que Lopetegui quer e sempre quis que o Porto jogasse como joga: sem bola, uma reação rápida e agressiva à perda, com um meio-campo essencialmente de suor e rigor tático; com bola, uma circulação em “U”, sempre por fora e com largura máxima em todos os momentos, para que depois os laterais e os extremos desequilibrem ofensivamente. Alguma vez o Porto de Lopetegui foi ou pretendeu ser algo diferente disto? Não me parece. E é por essa razão que o Porto não se consegue assumir definitivamente como o candidato mais forte ao título, como era, de resto, sua obrigação: uma ideia de jogo sem qualidade, que não potencie toda a qualidade individual existente, mesmo que esteja superiormente operacionalizada, não deixa de ser uma ideia de jogo sem qualidade.

3. No Benfica, Luís Filipe Vieira, que se não está com a corda ao pescoço em termos financeiros, disfarça muito mal, decidiu abrandar o investimento massivo no futebol e abdicou do bicampeão Jorge Jesus (que, para grande transtorno seu, foi parar ao outro lado da Segunda Circular…) para ir buscar o mais económico Rui Vitória. Rui Vitória é um treinador que subiu na carreira a pulso e que tem conseguido resultados interessantes, sobretudo no problemático Vitória de Guimarães, mas o futebol pouco elaborado das suas equipas não augurava nada de bom e estes primeiros meses à frente do Benfica apenas têm confirmado essas suspeitas. O que se vê é um treinador de equipa pequena a tentar, sem sucesso, operacionalizar um modelo de equipa grande e, seja qual for a opção tomada daqui para a frente, as perspetivas não são animadoras: se quiser trabalhar o modelo em que acredita, o mesmo não vai ser suficiente, porque a concorrência está forte e colocou a fasquia alta; se quiser trabalhar um modelo em que não acredita, não tem competência para tal, pelo que os resultados dificilmente serão positivos. Prevêem-se tempos difíceis na Luz, ainda para mais sem um plantel extraordinário em termos individuais…No entanto, além dos consagrados Júlio César, Gaitán, Jonas e Mitroglou, há um valor seguro para o futuro: Nélson Semedo. Quanto aos hipervalorizados Renato Sanches e sobretudo Gonçalo Guedes…Bem, vamos esperar para ver.

4. Em Inglaterra, a Premier League, ao contrário do que se apregoa, é um campeonato competitivo, mas nivelado por baixo, como se comprova pelos constantes insucessos das equipas inglesas nas competições europeias: o Manchester City tem todas as condições para dominar o campeonato, mas joga abaixo do seu potencial, porque não tem uma liderança técnica capaz de elevar a equipa para um patamar superior (não está em causa a competência de Pellegrini, que é um treinador que aprecio); Van Gaal está ultrapassado e já não parece ter capacidade para operacionalizar a 100% a sua interessante ideia de jogo; Mourinho estagnou completamente e, neste momento, é um treinador que não se diferencia dos demais e que tanto pode ser campeão num ano, como no ano seguinte andar pelo meio da tabela; Wenger continua a repetir os mesmos erros, ano após ano, e o Arsenal estava melhor servido com uma equipa técnica mais moderna e bem preparada. O Tottenham de Pochettino e o Everton de Roberto Martínez são equipas que procuram um “jogar” mais evoluído do que é habitual em terras de Sua Majestade, e a contratação de Klopp pelo Liverpool é uma ótima notícia para a evolução do futebol inglês, mas não é suficiente, nem de perto nem de longe. É necessário que as equipas com maior poderio financeiro da Premier League contratem não só jogadores de grande qualidade, mas também treinadores que consigam rentabilizar ao máximo toda a qualidade individual existente, para que as restantes equipas também sintam necessidade de evoluir e subir a fasquia, contratando jogadores de qualidade e sobretudo treinadores com ideias e métodos de trabalho diferentes. Por exemplo, só num campeonato nivelado por baixo e em que as equipas grandes estejam mais próximas em qualidade das equipas mais pequenas do que o contrário, é que é possível que equipas com modelos de jogo rudimentares como o Leicester e o Crystal Palace estejam, em Dezembro, tão acima na tabela classificativa. O facto de o melhor treinador britânico em atividade ser provavelmente Alan Pardew também devia ser um indicador, no mínimo, preocupante. A Premier League tem evoluído muito na última década e o conhecimento técnico-tático existente é agora maior do que nunca, mas, no meu entender, ainda tem um longo caminho a percorrer até poder justificar o epíteto de “melhor liga do mundo”. Talvez a mais que anunciada chegada de Guardiola seja a pedrada no charco de que o futebol inglês necessita.

5. Em Espanha, não há muito a destacar: Florentino Pérez, não contente com a decisão absurda de afastar Ancelotti do comando técnico do Real Madrid, resolveu animar ainda mais as coisas e entregou aquele que é, provavelmente, o melhor plantel do mundo a…Rafa Benítez. Sim, aconteceu mesmo. No momento em que escrevo estas linhas, a vantagem pontual do Barcelona já é de cinco pontos, por isso ficarei muito surpreendido se Messi, Neymar, Iniesta & Cia não revalidarem o título de campeões espanhóis em Maio, desta feita sem o lendário Xavi Hernández. O Barcelona de Luis Enrique é, nos dias que correm, uma equipa super vertical, que pratica um futebol direto e de procura constante da baliza contrária, e que, por isso, já não consegue controlar tão bem os ritmos de jogo e o adversário, mas a qualidade individual assombrosa e a falta de oposição interna deverão chegar para vencer tranquilamente o título (porém, muita atenção ao Atlético de Madrid!). Destaque para o aparecimento na equipa principal do jovem Sergi Roberto, que agarrou a oportunidade que Luis Enrique foi obrigado a dar-lhe (saída de Xavi, lesão prolongada de Rafinha, problemas físicos de Iniesta, etc) e tem agora o caminho aberto para se afirmar como um dos grandes médios espanhóis do futuro.

6. A Serie A, um campeonato caído em desgraça e que bem precisa de novos estímulos, deu a conhecer ao mundo dois treinadores de enorme valor: Maurizio Sarri e Paulo Sousa, este bem conhecido do público português. A Fiorentina de Paulo Sousa e sobretudo o Nápoles de Sarri são equipas que procuram controlar o jogo através da posse de bola e da pressão alta desde o primeiro minuto e que não têm problemas em jogar com três e quatro médios de características ofensivas ao mesmo tempo, o que constitui claramente um sinal de que o futebol italiano, se houver um esforço coletivo dos clubes, pode perfeitamente reinventar-se e reerguer-se. Infelizmente, Juventus, Inter e Milan, os clubes que, pelo seu peso histórico, mais possibilidades tinham de comandar esta mudança de mentalidades, preferiam manter ou ir buscar treinadores que pensam e trabalham como 90% dos treinadores mundiais, por isso o campeonato perdeu algum do interesse que poderia ter. No entanto, já que Rudi García da Roma se revelou uma desilusão, quero acreditar que Sarri e Paulo Sousa estão a lançar algumas bases importantes para o futuro a médio prazo do Calcio.

7. Na Bundesliga, o Dortmund contratou um dos treinadores mais talentosos da atualidade – Thomas Tuchel – e mantém um plantel repleto de jogadores que tinham lugar em quase todos os grandes clubes europeus, com Hummels, Gündogan, Kagawa, Mkhitaryan, Reus e Aubameyang à cabeça, mais o muito promissor Weigl, mas Guardiola é mesmo de outro planeta e o Bayern chega ao dobrar do campeonato com 43 pontos em 48 possíveis e cinco pontos de vantagem sobre o Dortmund. Além dos resultados esmagadores, o genial treinador catalão continua a inovar taticamente como nenhum outro e a dar lições em todos os jogos, embora muitos nem sequer se apercebam disso: recordo que o Bayern, a jogar habitualmente num 2-3-5 (!) com Boateng como único jogador de características defensivas e Robben, Müller, Douglas Costa, Coman e Lewandowski na frente, mesmo que os adversários concretizassem todos os remates enquadrados com a baliza de Neuer, continuaria a liderar a Bundesliga. Incrível! Já para não falar da facilidade com que o Bayern troca de sistema de jogo para jogo ou mesmo durante o jogo, alterando entre 4-3-3, 4-4-2, 3-5-2, 3-4-3 e 2-3-5 como se nada fosse, e do rendimento estratosférico de jogadores como Alaba, Douglas Costa, Müller, Lewandowski ou mesmo Boateng. Luis Enrique merece o prémio de melhor treinador de 2015, pelos títulos que conquistou, mas não tenho dúvidas nenhumas de que o treinador referência foi, para não variar, Pep Guardiola.

8. Sobre a Bola de Ouro, cujos resultados serão conhecidos no dia 11 de Janeiro, apenas duas notas rápidas, porque há algumas pessoas com problemas de memória. Primeiro, para os que são da opinião que é um escândalo Luis Suárez não estar no lugar de Cristiano Ronaldo nos três finalistas, convém lembrar que o avançado uruguaio só em Abril/Maio é que começou a render a bom nível e a contribuir com alguma qualidade para a manobra ofensiva do Barcelona para além dos golos…Até lá, foi quase sempre um corpo estranho na equipa e sentiu grandes dificuldades de adaptação, por isso a escolha de Ronaldo é mais do que compreensível, pese o final de época algo apagado. Segundo, Neymar teve um ano incrível, não só na finalização, mas também na criação, e assumiu-se definitivamente como jogador de eleição, mas só merece a Bola de Ouro se se esquecer tudo o que Messi fez até se lesionar em Setembro. É bom não esquecer que Messi rubricou possivelmente a melhor época da carreira – o que quer dizer muito, tendo em conta o nível elevadíssimo que atingiu com Guardiola – com exibições quase sobre-humanas, em que foi o principal motor criativo de um Barcelona que ganhou tudo o que havia para ganhar. Mas a Bola de Ouro sempre foi isto: aconteça o que acontecer, para a opinião pública, o que interessa é como se acaba o ano. Posto isto, Messi, Neymar e Ronaldo seriam as minhas escolhas para a Bola de Ouro, por esta ordem.

O "Com Pés e Cabeça" aproveita para desejar a todos os leitores um Feliz Natal e um Bom Ano Novo!

segunda-feira, 2 de março de 2015

Notas soltas sobre o Clássico

- Porto com uma entrada expectante no jogo, mas a melhorar à medida que o tempo passava. O primeiro golo funcionou como "click" para acordar definitivamente a equipa. Muito fortes na reacção à perda da bola e na forma como souberam escolher muito bem os timings de pressão. Ofensivamente, grande mérito para a forma como conseguiram, de forma relativamente rápida, identificar o ponto fraco do Sporting e aquele que lhes poderia trazer grandes benefícios (a profundidade e o espaço entre o central e o lateral, sobretudo do lado direito do seu ataque), e canalizar por aí todos os momentos em que procuraram essa profundidade, através da velocidade de Tello. Com outra qualidade no capítulo do passe e da leitura de jogo (aspectos onde Casemiro e Herrera acabam por prejudicar mais do que ajudar, embora o mexicano também tenha feito um grande passe para o terceiro golo dos azuis e brancos), o espanhol poderia ter tido uma noite ainda mais brilhante, visto que Jonathan Silva nunca pareceu capaz de o travar;


- Sporting superior nos primeiros 20 minutos, mas horrível a partir daí. Pior exibição da época para a equipa leonina. Impressionante, pela negativa, a forma como, com o avançar do jogo, foram completamente incapazes de construir uma jogada "com pés e cabeça". Ligação entre sectores praticamente nula. Defensivamente, a coordenação, organização e equilíbrio da linha defensiva é assustadora, e os dois últimos golos do Porto são exemplos claros disso. Aliás, em ambas as jogadas, não faz sequer sentido falar-se numa "linha defensiva". É caso para perguntar qual é, exactamente, o trabalho que Marco Silva realizou neste aspecto nos quase 8 meses que leva no Sporting;

- Individualmente, além de Tello, homem do jogo, há que destacar claramente outro jogador: Evandro. Grande exibição do médio brasileiro. Como Lopetegui referiu, e muito bem, na flash-interview, Evandro, acima de tudo, traz futebol à equipa. E não há mesmo melhor forma de o descrever. Quando recebe, já sabe qual será a sua próxima acção. Pensa rápido, executa rápido e sabe de cor todos os passos para chegar aonde quer chegar. Entrega no colega, e, de forma natural, a sua primeira reacção é dar uma nova linha de passe ao portador da bola. Joga a 2/3 toques sempre que possível. Assim, de forma aparentemente simples, mas que parece tão complexa para alguns. Evandro é o oxigénio de qualquer equipa que goste de ter a bola e que goste de praticar bom futebol. Apenas um reparo: é uma pena que Lopetegui pareça não contar com ele para o lugar ocupado actualmente por Herrera. Evandro e Óliver podem (e devem!) coexistir no 11. E o futebol do Porto evoluiria imenso com isso;

- Do lado do Sporting, muito pouco a destacar pela positiva. João Mário e William ainda se esforçaram, mas cedo se viu que estavam muito desacompanhados. Na defesa, Paulo Oliveira foi curto para acudir a tantos fogos. Limpou o que conseguiu, mas teve uma tarefa muito ingrata. Já pela negativa, destaque claro para dois jogadores: Adrien e Fredy Montero. O primeiro voltou a realizar uma exibição horrenda, falhando a grande maioria das suas acções com bola, e demonstrando muita vontade mas pouca inteligência sem ela. É claramente um dos elos mais fracos deste Sporting, e a equipa já não beneficia em nada da sua presença no meio-campo. Quanto ao colombiano, fez a sua pior exibição desde que chegou a Portugal. Incrível como, sendo um jogador que muito frequentemente se caracteriza pela sua inteligência, visão de jogo e capacidade de dar sempre o melhor seguimento à jogada, Montero conseguiu ontem errar em praticamente todas as suas acções no jogo. Um jogo para esquecer. Ou para relembrar;

- Por fim, não podíamos mesmo acabar este texto sem dar o devido destaque ao jogador mais genial do jogo de ontem, e também ao momento mais genial do jogo (quiçá da época). Jackson Martínez, e o seu calcanhar, que começa a ser famoso. Aquilo que o colombiano faz no primeiro golo do Porto é algo que só está ao alcance dos predestinados, dos génios. Um momento de magia, daqueles que delicia qualquer fã do jogo. Num jogo até aí relativamente mal jogado, e até algo aborrecido, Jackson puxou do pincel e pintou uma obra de arte, que catapultou o Porto para uma estrondosa e inquestionável vitória no Clássico. Vale a pena ver e rever. E rever. E rever...

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

VfL Wolfsburg - o que espera o Sporting na próxima 5ª-feira

Após a travessia no deserto sem ir à fase de grupos da Champions, o Sporting alcançou um 3º lugar, injustamente. E injustiça na posição classificativa no grupo G, porque o 2º lugar era o que o Sporting merecia ter alcançado, não fosse a incompetência do árbitro no jogo em Gelsenkirchen. Bateram-se bem contra um Chelsea de outra galáxia, deixaram-se empatar nos últimos minutos em Maribor e que agora sabemos o que suspeitámos logo na altura: os 2 pontinhos perdidos na Eslovénia tinham dado cá um jeito... Nem a péssima arbitragem na Alemanha  condicionariam a equipa de Alvalade no apuramento para a próxima fase. Todavia, para um clube que teve tantos anos afastados das competições europeias e para um plantel com pouca experiência (com imensos jogadores formados na sua cantera e não habituados a estas lides), o Sporting fez uma boa prestação. E o caminho óbvio seria a Liga Europa. E na rifa saiu o Wolfsburg, das equipas mais fortes que podiam ter calhado.

O Wolfsburg organiza-se em 1x4x2x3x1:


Começando na baliza, um velho conhecido de quem acompanha o futebol português, temos Diego Benaglio. O capitão e o líder da equipa com uma boa performance já nestes longos anos na Alemanha. É um bom guarda-redes que dispensa apresentações.
Na defesa temos Ricardo Rodríguez a DE, lateral forte defensivamente e que se envolve bem no ataque. Knoche e Naldo formam uma dupla fortíssima, com um poder aéreo assinalável (entre eles têm de média de altura 1,94m), robustos e que transmitem a segurança defensiva que o Wolfsburg precisa para poder construir o seu jogo. Do lado direito da defesa, temos visto Vieirinha: o português que todos conhecemos como extremo tem feito vários jogos do lado direito (ganhando posição a Sebastian Jung), mostrando a vocação ofensiva mesclada com a sua qualidade individual, e também associada a uma boa capacidade posicional e ocupação de espaços.
No meio-campo temos Max Arnold, um jogador com uma capacidade de passe extraordinária, rápido a pensar e a jogar, mas que joga mais recuado do que na sua formação enquanto futebolista, onde ocupava espaços mais ofensivos. Luiz Gustavo (a boa notícia é que está castigado para o jogo de 5ªfeira) é o pêndulo deste meio-campo, normalmente mais posicional e com capacidade física para conseguir limpar e entregar jogável aos colegas da frente: a grande mais-valia deste Wolfsburg.
Sem qualquer dúvida, Caligiuri, De Bruyne e Dost têm uma qualidade individual assinalável e que são jogadores de grande categoria. A juntar a este elenco a aquisição de inverno vinda do Chelsea - Schürrle - afirmamos, sem dúvida, que esta frente de ataque é temível.

As grandes armas do conjunto alemão assentam na velocidade e verticalidade do seu jogo, na rapidez das suas transições, culminando com a qualidade individual de cada um dos elementos do 11 escolhido (Não esquecendo Guilavogui, Perisic e Hunt, por exemplo) por Dieter Hecking.

Esticando o jogo e procurando transições directas, o Wolsfburg é uma equipa que está muito confortável a jogar no contra-ataque, procurando sempre recuperar rapidamente a bola no seu
meio-campo e compactando o espaço para não deixar sair a jogar. Normalmente é De Bruyne/Dost a sair na pressão ao portador da bola, com os 4 no meio-campo a organizarem-se defensivamente com coberturas bastante próximas dos colegas, tendo como objectivo máximo a saída rápida, esticando linhas e chegando à baliza adversária o mais depressa possível. Por vezes, há ocasiões onde Arnold não é tão agressivo na ocupação de espaços, deixando Luiz Gustavo demasiado desacompanhado e a braços com situações de inferioridade numérica (acrescentando ainda as situações onde os extremos não estão preocupados com a vertente defensiva).

Em organização ofensiva e quando estão com a posse de bola, o Wolfsburg prefere sair seguro com os extremos a posicionarem-se entre-linhas, perto do corredor central, com os laterais a abrirem o jogo, progredindo com bola ou explorando a profundidade, esperando que surja um passe nas costas da defesa. A finalidade do jogo ofensiva é sempre a área adversário, maioritariamente usando cruzamentos para chegar até lá. A outra situação mais ocorrente no jogo ofensivo do Wolfsburg, é Bas Dost (excelente avançado, grande e forte) que se apresenta como referência ofensiva: seja para o jogo directo onde faz uso do seu 1,92m e 85kg para ganhar terreno em espaços mais seguros, ou descendo para dar linha de passe vertical ao portador da bola, arrastando marcações e dando espaço a De Bruyne, Schürrle e Caligiuri para actuarem com rapidez nas costas da defesa.


Para além de Dost, existe De Bruyne. Mais que um "nº10", um maestro, ou um organizador de jogo, De Bruyne tem velocidade, drible e sentido de baliza que lhe conferem um papel muitíssimo activo neste estilo de jogo alemão, na procura de golos e oportunidades claras para atormentar o guarda-redes adversário.


Para além do que referimos, as bolas paradas são também uma mais-valia neste Wolfsburg. Para além dos livres directos onde De Bruyne, Arnold e até Naldo (que grande golo marcou frente ao Leverkusen!) gostam de dar um ar de sua graça; nos cantos e livres indirectos a ameaça é constante face à altura dos jogadores que figuram no plantel alemão.

Para o Sporting a missão é extremamente complicada, somos sinceros. Só com um jogo muito bom a nível defensivo e com um jogo ofensivo assertivo, não precipitado  e capaz de saber explorar as debilidades defensivas do Wolfsburg é que o Sporting sairá da Alemanha com um resultado positivo.

Mas sonhar não custa, e desejamos que o Sporting consiga um bom resultado para resolver a eliminatória em Alvalade.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

O Rei do Chutão

«The really good players are the ones who never lose the ball. Those who know how to pass it and who never lose it. They are the good ones. And that’s who you must always use, even if they are lower profile than the rest.»
Pep Guardiola

Corria o minuto 89 em Alvalade. Minutos antes, o Sporting adiantara-se finalmente no marcador, por intermédio de Jefferson, e tinha assim uma oportunidade de ouro de encurtar a distância para o maior rival para 4 pontos e relançar a luta pelo título. Assim sendo, nos poucos minutos que restavam, era imperioso não deixar o Benfica ter a bola, necessitando o Sporting, para isso, de a conservar em seu poder longe da sua grande área e de baixar o ritmo do jogo o mais possível, por forma a desgastar o adversário física e psicologicamente. Nestas circunstâncias, como permitir então o empate? Simples. Ter jogadores displicentes, com uma capacidade de decisão sofrível e escassa qualidade com bola.


Atentemos num momento em que o Sporting tenta - e bem! - circular a bola a toda a largura, com paciência e critério. No instante em que a imagem pára, a bola está a vir da meia direita para a direita, mas, infelizmente, o destinatário do passe de Paulo Oliveira é Cédric, um dos jogadores mais acarinhados pelo público leonino e um dos que mais escapa às críticas negativas, sem se perceber muito bem o porquê, já que é, a alguma distância, o elo mais fraco do onze. Vejamos então o que acontece quando a bola chega aos pés de Cédric.


Na altura em que se prepara para receber a bola, Cédric tem três opções: a) devolver o passe a Paulo Oliveira, que já estava posicionado para fornecer o apoio recuado; b) usar a linha de passe interior, dada por Mané; c) ficar com a bola, tentando ganhar uma falta ou um lançamento de linha lateral. Todas estas opções, com maior ou menor risco, permitiriam ao Sporting o que era verdadeiramente essencial naquela fase crítica do jogo: ter a bola! Mas Cédric, com a falta de inteligência a que já nos habituou, resolve o lance da única maneira que conhece, ou seja, com um balão sem nexo para onde estava virado.



Repare-se que o esférico ainda não saiu dos pés de Paulo Oliveira e toda a linguagem corporal do lateral direito leonino dá a entender que não equaciona sequer outra hipótese que não seja livrar-se da bola a todo o custo, como se fosse uma granada prestes a explodir. O lance, que até nem era especialmente exigente do ponto de vista técnico ou de decisão, claro está que acabou nas mãos de Artur e o Benfica pôde recomeçar nova vaga de ataque, conseguindo mesmo chegar ao empate, nos últimos segundos do encontro.

Responsabilizar unicamente Cédric por estes dois pontos perdidos seria uma análise demasiado simplista e redutora e esse está longe de ser o propósito deste texto, mas, para quem vê os jogos do Sporting com olhos de ver, decisões destas são recorrentes em Cédric. É um lateral rápido, abnegado e com alguma competência no 1x1 defensivo, mas a sua qualidade com bola é francamente insuficiente para este nível, sobretudo se fizermos a comparação com os laterais que Porto e Benfica têm à sua disposição. Mesmo Maxi Pereira, que está longe de ser um lateral de eleição, tem um leque de recursos ofensivos que não está ao alcance de Cédric. Para os mais cépticos, só peço que estejam atentos aos próximos jogos do Sporting e que contem o número de vezes em que ele traz o jogo para dentro para criar desequilíbrios, em que ganha a linha de fundo e cruza atrasado em vez de mandar a bola para a molhada, em que sai da pressão através do drible, em que usa os apoios interiores para progredir, em que faz um passe de mais de 2 metros que não seja a «queimar» o colega. Muito poucas! Não, as suas acções com bola são do mais básico e rudimentar que há e se, há uns anos, não se exigia tanto, em termos ofensivos, dos jogadores que jogam em posições mais recuadas, actualmente, com o aperfeiçoamento crescente das estratégias defensivas, todas as posições, sem excepção, devem ter jogadores capazes de realizar mais do que duas ou três acções padronizadas e previsíveis. Num clube grande como o Sporting, torna-se mesmo obrigatório.

Enfim, é Cédric no seu melhor. O verdadeiro rei do chutão.

P.S. No meio-campo, embora em muito menor escala, existe um problema semelhante e chama-se Adrien Silva. Mas quando Ryan Guald começar a aparecer com mais frequência na equipa principal, como espero que venha a acontecer a curto/médio prazo, talvez se perceba que Adrien, apesar de ter valor, não é tudo aquilo que dizem que é, nomeadamente a nível ofensivo.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Um derby ... razoável


8 de Fevereiro, o eterno derby do futebol português: Sporting vs Benfica.

Tacticamente, as equipas entraram para o jogo sem surpresas (mesmo esquema táctico de parte a parte); mas do lado do Benfica uma pequena alteração com André Almeida a figurar no centro do terreno ao lado de Samaris. Apesar de ter sido um jogo com intensidade física, com os jogadores a encararem o jogo com garra e vitalidade, do ponto de vista futebolístico o jogo não foi um “must see” que todos quereríamos assistir.

O anfitrião, no seu próprio estádio, não protagonizou um bom jogo de futebol, recorrendo sempre a um jogo mais directo e a valorizar a velocidade de Carrillo e a virtuosidade de Nani – sempre as referências do jogo ofensivo do Sporting. Tacticamente organizados e com linhas sempre juntas (quase todas as 2ªs bolas foram ganhas pelos verdes e brancos), a superioridade numérica que teve no meio-campo não foi suficiente para criar um fio de jogo atractivo, com passes curtos e desmarcações entre as linhas do Benfica. Defensivamente, a linha defensiva do Sporting não se mostrou suficientemente coordenada (apesar da boa exibição dos jovens centrais Paulo Oliveira e Tobias Figueiredo), assim como os interiores João Mário (sempre a jogar mais adiantado que o colega de meio-campo) e Adrien mostraram alguma permeabilidade defensiva, fazendo com que o Benfica na 1ª parte conseguisse jogar entre-linhas com Samaris a sair a jogar e Jonas a descobrir espaços para receber o passe vertical.

Todavia, do lado benfiquista o jogo foi ainda mais pobre. O Benfica mostrou-se tecnicamente débil, dificultando a construção de jogo numa primeira fase (onde em maior evidência realçamos Eliseu e Jardel, que mostraram ter problemas claríssimos em conseguir jogar com a bola controlada); a nível táctico, o Benfica mostrou-se ao seu nível, com o sector defensivo sempre atento a ler o jogo: controlando bem a profundidade e sabendo ajustar a linha defensiva nos momentos que devia. De quando em vez, vimos um Jonas inspirado a receber jogo ofensivo e clarividente em levar a sua equipa para a frente, tentando motivar os seus colegas de ataque. Tarefa que não conseguiu, mas não por culpa própria, porque hoje vimos um Salvio a decidir mal e a tentar elevar o jogo à sua capacidade individual; um Ola John a demorar muito com a bola no pé; e um Lima a não ser a referência ofensiva que o Benfica precisava, completamente ofuscado pelo bom jogo dos centrais adversários. Esta pobreza ofensiva fez com que o Rui Patrício tivesse uma noite bem descansada: não foi obrigado a fazer nenhuma defesa esforçada. Nem a entrada de Talisca aos ’64min - que por certo tinha o objectivo de receber dentro do bloco leonino, progredindo com bola para tentar um passe de morte ou fazendo uso da sua meia distância - conseguiu perturbar o guarda-redes da casa.

Na 2ª parte, vimos um Sporting mais atrevido, a trocar mais a bola e com mais jogadas de perigo: Montero por duas vezes obrigou Artur a ir ao relvado e Carrillo num bom cabeceamento também tentou a sua sorte. É bom realçar que William Carvalho voltou ao seu bom plano, sendo um esteio defensivo e uma mais-valia a lançar os ataques leoninos com bons passes verticais a chamar a jogo Montero, Carrillo e Nani.

Os golos, nos últimos minutos do jogo, são um exemplo representativo do que foi o jogo: um jogo aguerrido, sem muitas jogadas deslumbrantes, com atitude e seriedade dos jogadores de ambas as equipas e que resultaram em 2 ressaltos e, consequentemente, 2 golos.

Quem gosta de futebol, pedia mais e merecia melhor de um jogo que é sempre um marco na história do futebol português!

PS: Excelente arbitragem do árbitro Jorge Sousa. Nota bastante positiva para uma exibição que demonstrou que a equipa de arbitragem tem de ser o conjunto menos notado em jogos de futebol.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

O regresso a casa

Na última crónica deste blog, falamos de Cesc Fàbregas e do facto do seu regresso ao Arsenal, clube onde se tornou no jogador de classe mundial que é, poder ter sido uma realidade neste mercado de transferências. Tal não aconteceu, e o espanhol acabou por assinar com o Chelsea de José Mourinho, tendo já brilhado no seu primeiro jogo oficial pelos "Blues".

Hoje, no entanto, assistimos mesmo à confirmação de um regresso a "casa". O regresso a Alvalade de Luís Carlos Almeida da Cunha ou, como todos o conhecemos, Nani. O extremo de 27 anos regressa ao clube que o formou, que o lançou na alta roda do futebol e que, com ele, conseguiu a maior venda da sua história, quando em 2007 o Manchester United pagou pouco mais de 25M€ por ele. Os primeiros tempos em Manchester até foram um sucesso, e cedo se começaram a gerar grandes expectativas à sua volta, sendo apontado por muitos como um "novo" Cristiano Ronaldo, que por essa altura era a estrela maior de um United imponente e poderoso. No entanto, as épocas foram passando, e Nani nunca chegou a confirmar todo o potencial que lhe era reconhecido. O talento esteve sempre lá e, a espaços, mostrou pormenores grandiosos e fez sonhar muitos adeptos, mas nunca conseguiu atingir a regularidade que sempre caracterizou o actual craque do Real Madrid. Aliado a isso, começaram a surgir as lesões, que o deixaram de fora durante largos períodos de tempo. Foi perdendo o seu espaço em Manchester, e nesta pré-temporada acabou por ser dispensado por Van Gaal, que entendeu não haver lugar para o internacional português no seu plantel.

Chega agora ao Sporting, por empréstimo com a duração de uma temporada, na tentativa de relançar a sua carreira, e de ainda ir a tempo de regressar aos principais palcos europeus. Para o clube, é um acréscimo brutal de qualidade num dos seus sectores mais debilitados (as alas). Um jogador que, mesmo não estando actualmente ao nível que já apresentou no passado, continua a ser uma grande contratação e um aumento de qualidade para o próprio campeonato. E para o jogador, pode ser a oportunidade de recuperar a alegria de jogar, de recuperar a sua confiança, que parece ter desaparecido nos últimos meses. Em Alvalade, Nani poderá ser o líder do ataque leonino, a referência de toda a equipa. A estrela. E jogadores como ele necessitam dessa pressão, desse reconhecimento. Necessitam de ser acarinhados, para que possam explanar toda a sua magia. E que melhor lugar para isso do que a sua "casa". É o casamento perfeito.

Será muito bom se Nani corresponder às expectativas e conseguir voltar a demonstrar toda a enorme qualidade que lhe é reconhecida. O futebol agradece. Porque jogadores como ele contribuem positivamente para a magia do desporto.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

O Futebol é Tóxico?

A falência do Banco Espírito Santo está na ordem do dia. Curiosamente pouco se tem falado nas implicações deste facto em relação ao futebol nacional. Talvez porque seja um tema de certa forma hermético. Talvez porque estamos em período de férias. Talvez porque é uma questão demasiado delicada e ninguém parece devidamente habilitado a levantar a ponta do véu sobre certos negócios e engenharias financeiras que nos últimos tempos têm suportado a atividade dos clubes, em particular os mais fortes. Talvez porque todos têm telhados de vidro nesta matéria e é difícil apontar o dedo aos outros...


É conhecida a relação próxima que o Grupo Espírito Santo mantinha com o futebol. A começar pela presença de um dos homens fortes do Grupo até há bem pouco tempo nos órgãos dirigentes do Sporting (José Maria Ricciardi), passando pelos patrocínios aos 3 Grandes, pelo suporte à gestão dos passivos dos clubes e suas Sociedades Anónimas e culminando na gestão direta de Fundos de Investimento exclusivos de Benfica e Sporting. É óbvio e natural que a queda da família Espírito Santo e seu grupo empresarial tenha reflexos profundos na vida e gestão dos principais clubes portugueses, mais que não seja porque deixaram de poder contar com os seus principais interlocutores na banca.

Os relatórios e contas das 3 SAD, a 30 de junho de 2013, apontavam para uma exposição global de Benfica, Sporting e FC Porto ao BES num valor superior a 200 milhões de euros, sendo cerca de dois terços relativos a dívida de curto prazo. Mais de metade desta exposição é responsabilidade da SAD benfiquista. 

É impossível dissociar a recente febre de venda de ativos benfiquistas desta realidade. Ao contrário do que tem acontecido com os seus rivais nota-se desmesurada urgência na realização de transferências por parte do Benfica. Vende-se tudo, a qualquer preço, desde que haja comprador. Vão-se os anéis tentando preservar os dedos.

Encontro dois motivos que justificam esta necessidade:

1 - O Benfica contraiu em dezembro do ano passado um empréstimo obrigacionista no valor de 50 milhões de euros com maturidade de 1 ano e emissão organizada pelo Banco Espírito Santo de Investimento, SA. Desde 2010, pelo menos, que o Benfica cumpre o pagamento das obrigações contraindo novo empréstimo obrigacionista. Sempre com o BES como parceiro privilegiado. Agora já não há BES e desconfio que a facilidade para contrair novo empréstimo desta dimensão daqui a 4 meses não será a mesma...

2 - O Benfica Stars Fund é um fundo de investimento criado em setembro de 2009 com duração prevista para 5 anos. Sim, o prazo deste fundo de valores mobiliários termina daqui a 2 meses. Do Relatório e Contas da Benfica SAD relativo à época de 2012/13: "À data do presente relatório ainda não foi tomada uma decisão sobre a opção a tomar no final do período previsto para o Fundo. A contabilização dos activos e passivos decorrentes do Benfica Stars Fund, assim como o reconhecimento dos rendimentos no período, foi efectuada no pressuposto da continuidade do Fundo após 30 de Setembro de 2014.

Embora a Espírito Santo Activos Financeiros, SGPS (ESAF) tenha transitado para o Novo Banco não é líquido que, com a nova administração, haja continuidade do Benfica Stars Fund. E o que é certo é que vários dos jogadores que tinham parte dos seus direitos económicos no Fundo já foram vendidos (Kardec, André Gomes, Rodrigo, Garay, Cardozo).

quarta-feira, 23 de julho de 2014

O entendimento inevitável

Já por aqui falei sobre o alheamento e desvalorização a que os principais clubes de futebol portugueses votaram os assuntos relacionados com a Liga por ocasião das recentes eleições para os seus órgãos dirigentes. É um alheamento que decorre do esvaziamento de competências da própria Liga e que já tem alguns anos. Sem a arbitragem, a disciplina e a justiça é convicção dos principais clubes que as matérias que ainda competem à Liga não justificam o seu envolvimento direto. A Liga ficou, assim, à mercê dos clubes pequenos, de vistas curtas, subordinados a lógicas de protagonismos e egos pessoais. Ficou, em suma, um caos. E os clubes com maiores responsabilidades assistindo, impávidos, numa atitude de quem acredita que os problemas existentes estariam condenados a resolver-se sem terem necessidade de utilizar os seus esforços, capacidades e influências.


Não podiam estar mais errados! Há uma matéria fundamental e determinante que ainda reside no âmbito de competências da Liga: a organização das competições. Sem competições não há negócio! E sem orçamento para as organizar não há competições! E hoje a Liga não tem dinheiro. Não tem patrocinadores, não tem abertura legislativa para regular as apostas online, nem tem meios disponíveis para forçar alterações no que respeita aos direitos televisivos. Com o início das competições profissionais agendado para o próximo fim de semana (1ª jornada da fase de grupos da Taça da Liga) ainda ninguém sabe se haverá condições para que elas decorram com normalidade. Não há dinheiro para pagar a árbitros, a funcionários, a delegados e observadores e para a restante panóplia de pequenas despesas imprescindíveis que asseguram a realização dos jogos.

O Governo, via Secretário de Estado do Desporto e da Juventude, manifestou a sua preocupação; a Federação manifestou igualmente preocupação e convocou clubes e Liga para uma reunião com vista ao estabelecimento de uma plataforma de entendimento que promovesse a procura de soluções para o imbróglio gerado no seio da Liga. Essa reunião serviu, na prática, para "puxar as orelhas" aos responsáveis pelos clubes e para os intimar a que se organizem, que se entendam e que resolvam os problemas que criaram.


Os clubes acusaram o "toque" e nasceu uma comissão de trabalho liderada pelos 3 grandes. É assim que funciona o futebol português. Parecem um bando de catraios birrentos que necessitam de uns açoites para se comportarem devidamente e fazerem o que lhes compete.

Paralelamente vai ser interessante acompanhar o posicionamento das principais figuras neste processo. Bruno de Carvalho, que lutou por entendimentos e consensos sem qualquer sucesso e que, birrento, acabou por votar favoravelmente na lista de Mário Figueiredo, como se posicionará agora? Pinto da Costa, que aparece ao lado dos contestatários em manifestações em bombas de gasolina mas que prima pela ausência nos momentos em que se tomam, de facto, decisões, que papel terá? E Luís Filipe Vieira que não perde nenhuma oportunidade de marcar pontos em termos de liderança e sentido de responsabilidade (toda a comunicação social fez questão de realçar que foram dele as ideias de criação desta comissão e da participação ativa dos 3 grandes no processo), que fará quando vierem à tona assuntos em que tenha posições discordantes dos restantes?

A não perder os próximos episódios desta triste novela...

Declarações de Hermínio Loureiro, à saída da reunião entre a FPF e os clubes:


terça-feira, 22 de julho de 2014

Sporting 14/15: Primeiras impressões

A bola já rola na pré-temporada e os clubes já começam a afinar as "máquinas" e a deixar as primeiras indicações daquilo que será o seu futebol durante a época. O Sporting não é excepção, e já foi possível observar a formação leonina em acção na Taça de Honra da A.F.Lisboa, competição que venceram e onde derrotaram na meia-final o Belenenses por 2-1, e na final o Benfica por 1-0. Estes jogos permitiram também começar a perceber algumas das ideias que Marco Silva pretende implementar no modelo de jogo. Passemos à análise.

Em ambos os jogos, o Sporting dispôs-se no 4-3-3 que já apresentava com Leonardo Jardim, sendo que em alguns momentos do jogo o esquema se transformou em 4-4-2 (nomeadamente no momento defensivo, com André Martins a aproximar-se de Montero e com os extremos a fecharem o seu corredor) e até num 4-2-3-1 (quando em organização ofensiva, com Adrien mais próximo de Rosell, nestes dois jogos, e André Martins mais solto na frente, a aparecer entre linhas e a apoiar de forma mais directa Montero na zona central). No entanto, já foi possível notar algumas diferenças entre o Sporting de Jardim e este "novo" Sporting de Marco Silva. Desde logo, o próprio posicionamento de André Martins. Com Jardim, o médio pareceu sempre demasiado preso a uma dinâmica que o retirava do espaço entre linhas e o obrigava a passar cerca de 80/90% do tempo sem bola e junto ao flanco direito, procurando apenas arrastar marcações e dar profundidade à equipa (procurando o espaço nas costas do lateral adversário, para receber o passe vertical do lateral direito (Cédric), o que acontecia várias vezes por jogo) para de seguida cruzar. Parecia até que, para Jardim, André Martins só possuía verdadeira importância no aspecto defensivo, pelo dinamismo que impõe no jogo e pela capacidade que tem de ler o jogo e perceber qual o momento certo para sair na pressão ao portador da bola. Permitia ao Sporting pressionar alto sem se desequilibrar, aspecto essencial para Jardim, que preza acima de tudo os equilíbrios defensivos nas suas equipas.

Ora, com Marco Silva, estas instruções no aspecto defensivo permanecem. Mas ofensivamente, André Martins já parece outro jogador. Muito mais solto, recua sempre que possível da posição 10 para procurar receber a bola fora do bloco adversário e assumir a construção, aparece mais frequentemente em zonas de finalização (e embora não seja propriamente forte nesse aspecto, até já conseguiu fazer um golo que valeu um troféu ao Sporting) e voltou a estar mais próximo de Montero, combinando mais vezes directamente com o colombiano na zona central. Isto inclusive ajuda a que Fredy se possa soltar mais dos centrais, saia da zona central e procure tocar mais a bola e tê-la mais vezes em sua posse, aspecto que só beneficia o Sporting, visto que o colombiano é extremamente criativo com bola, é muito forte tecnicamente (talvez o melhor avançado do campeonato nesse aspecto) e tem um entendimento do jogo muito acima da média, sabendo sempre quando soltar a bola e tomando quase sempre a melhor decisão para dar continuidade ao ataque leonino.

Outro dos aspectos em que já estão bem presentes os princípios de jogo de Marco Silva são os apoios. Contra o Benfica, em alguns períodos do jogo, foi impressionante ver o Sporting a jogar de forma apoiada em todo o campo (até nos pontapés de baliza já se notam diferenças, com a preocupação de sair sempre com a bola controlada, com os centrais bem abertos, os laterais a dar profundidade e o 6 a vir receber a bola quando as restantes opções estão bem defendidas pelo adversário), com muito critério de passe e com muita fluidez na circulação de bola (foram várias as jogadas em que diversos jogadores jogaram a 1/2 toques, acelerando o jogo). Desde logo, a principal ideia que captei de ambos os jogos, foi a de que o Sporting pretende ter sempre a bola e pretende saber sempre como estar e o que fazer com ela em todos os momentos do jogo. Quer a atacar, quer a defender. A equipa está mais próxima ofensivamente, e é agora mais fácil jogar a bola de pé para pé do que era no modelo de jogo de Jardim, que privilegiava a profundidade e a verticalidade. Além disso, este Sporting já possui outras noções de jogo, e já parece perceber qual o caminho para, mantendo o seu futebol apoiado, desequilibrar a organização defensiva adversária. Em ambos os jogos desta pré-época, foi possível observarmos a equipa a atrair o adversário para um dos corredores laterais (na maioria das vezes o direito) com sucessivas tabelas simples e triangulações, apenas para depois soltar a bola no pivot defensivo (Rosell) que, com a grande qualidade de passe que possui, variava rapidamente o centro de jogo, encontrando facilmente espaço e desequilíbrios (possibilidade de 1x1 para Capel na ala esquerda e por vezes até 2x1, com a subida de Jefferson) na organização defensiva adversária. Isto demonstra uma evolução enquanto equipa naquilo que considero ser um dos aspectos mais importantes para se construir uma equipa de qualidade: a leitura e o entendimento do jogo. Este Sporting parece claramente estar noutro patamar relativamente ao Sporting de Jardim nesses aspectos. E mesmo defensivamente, já surgiram vislumbres de uma evolução. A coesão defensiva sempre foi o forte do Sporting na época transacta. As linhas estavam sempre bem organizadas e equilibradas, as basculações defensivas eram feitas com qualidade e não era fácil penetrar na defensiva leonina quer pela zona central, quer pelos corredores laterais.

Mas nestes dois jogos da Taça de Honra, já foram perceptíveis algumas ideias que poderão levar o Sporting para outro nível também no aspecto defensivo, sobretudo em transição defensiva. Este Sporting pressiona alto também, mas de forma diferente. Não se baseia apenas na capacidade defensiva de André Martins numa primeira fase. Sobe antes as linhas, em bloco, e pressiona de forma organizada, defendendo mais o espaço e não atacando tanto a bola. No jogo contra o Benfica, por várias vezes se viram os laterais do Benfica a serem obrigados a bater longo na frente, pois o Sporting demonstrou-se sempre muito competente na forma como fechou as linhas de passe mais próximas do portador da bola e lhe foi progressivamente encurtando o espaço e forçando o erro. Entrando na comparação, podemos dizer que o Sporting de Jardim atacava forte o portador da bola, mas ocasionalmente dava liberdade àqueles próximos dele. Já este Sporting parece "sufocar" o portador da bola e tudo em seu redor, quase parecendo que, de repente, o campo encolhe e passa a ter apenas meia dúzia de metros. Apontamentos muito interessantes.

Em suma, as primeiras impressões sobre este Sporting são claramente positivas. A equipa mantém a consistência e a coesão que trazia da época passada, e numa fase ainda embrionária da época, demonstra já evolução em vários aspectos do jogo, e dá indicações de ainda poder evoluir muito mais e de poder rapidamente chegar a um patamar superior em termos qualitativos. Logicamente, são apenas as primeiras impressões, e ainda existe imenso trabalho por fazer. Mas de uma coisa não tenho dúvidas: o Sporting está claramente no caminho certo.