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domingo, 2 de julho de 2017

Coisas que se passaram em 2016/2017

I. Se há sensivelmente um ano e meio se afirmasse que o Benfica de Rui Vitória iria sagrar-se bicampeão e confirmar definitivamente a hegemonia interna do clube da Luz, muito boa gente (eu incluído) rir-se-ia com gosto. Mas, ao contrário de quase todas as expectativas, foi isso mesmo que aconteceu. Por aqui, ainda que se considere que o atual treinador do Benfica beneficiou de uma conjuntura algo favorável, sobretudo neste segundo ano, com um plantel vários furos acima da concorrência e uma estrutura do futebol consolidada, há que reconhecer que se o Benfica evoluiu de um coletivo totalmente disfuncional, com cada um a correr para seu lado, para uma equipa organizada e que dá liberdade aos jogadores mais talentosos para soltarem o seu futebol, também o deve ao trabalho de Rui Vitória e da sua equipa técnica. O mérito a quem o merece.

II. Sem querer “fazer prognósticos à segunda-feira”, sempre me pareceu que a decisão de entregar um plantel com tantos executantes de qualidade a um treinador com a matriz de jogo de Nuno Espírito Santo tinha tudo para correr mal. O Porto viu-se eliminado das taças internas e da Liga dos Campeões demasiado cedo – é verdade que aqui caiu aos pés da futura vice-campeã, mas apenas porque falhou pateticamente o primeiro lugar num grupo facílimo – e essa circunstância permitiu-lhe concentrar-se exclusivamente no campeonato e disputá-lo quase até ao fim, mas nem esse facto apaga a pálida imagem deixada pelos pupilos do ex-treinador de Rio Ave e Valência ao longo de toda a temporada. Com um sistema de jogo rígido e um futebol retilíneo e aos repelões, que não potenciava minimamente a qualidade individual existente, só por um acaso do destino o desfecho podia ser outro que não zero títulos e o despedimento do treinador.

III. Se em relação ao Porto de Nuno Espírito Santo as expectativas não saíram propriamente defraudadas, porque não se esperava muito do protegido de Jorge Mendes, o mesmo não se pode dizer do Sporting de Jorge Jesus, que depois de bater o recorde de pontos do clube e de perder o título por uma unha negra em 2015/2016, tinha tudo para manter a toada em 2016/2017, pese embora as vendas de João Mário e Slimani. Mas o que se viu foi um Sporting que, em janeiro, já só tinha o campeonato para disputar, sendo que nem nesta competição se apresentou competitivo, tendo ficado a 12 pontos do primeiro lugar e tendo encaixado uns incríveis 36 golos em 34 jogos! Além da crença de que é tão competente que até com três ou quatro marretas na linha defensiva consegue colocar uma equipa a defender bem, o erro capital de Jorge Jesus foi ter abdicado de praticamente tudo o que de bom construiu na temporada transata para tentar encaixar Bas Dost e Gelson Martins no onze titular. Ao avaliar – erradamente – o incrível ponta de lança holandês como “um pinheiro” e ao querer fazer de Gelson o principal (e único?) motor ofensivo da equipa, Jorge Jesus modificou posicionamentos e movimentações que tinham funcionado no passado, para que a bola passasse a entrar nestes dois jogadores nas melhores condições possíveis. É verdade que, com isso, conseguiu fazer de Gelson um dos jogadores mais influentes do campeonato e de Dost o melhor marcador destacado, mas…à custa de quê? De um Sporting mais desequilibrado atrás, com laterais e médio defensivo muitas vezes expostos devido ao posicionamento excessivamente largo dos extremos, e mais previsível no último terço, com a bola a entrar sempre nos mesmos espaços e sempre da mesma forma. Em suma, uma época falhada e que deve fazer refletir seriamente os responsáveis leoninos.

IV. A Premier League, por todas as razões e mais algumas, era a competição sobre a qual recaíam todos os olhares e o melhor elogio que se pode fazer é que não defraudou em nada as expetativas. Na ressaca de uma Premier League completamente atípica, com o inesperado Leicester a sagrar-se campeão, assistiu-se desta feita a um campeonato bem disputado, nivelado por cima, taticamente mais rico do que é habitual (a título de exemplo, Chelsea, Tottenham, Manchester City e Arsenal jogaram regularmente com três defesas, uma autêntica raridade em solo britânico), com a maior parte das principais equipas a melhorarem as respetivas pontuações e classificações. Aliás, a ordem do top 6 foi justa e refletiu, de um modo geral, a qualidade de jogo apresentada pelas equipas: um Chelsea à imagem do seu treinador, ou seja, organizado sem bola e cerebral com ela, que é meio caminho andado para ter sucesso em Inglaterra; um Tottenham superiormente trabalhado por Mauricio Pochettino, mas que revelou alguma falta de tarimba e experiência nos momentos decisivos; um Manchester City a praticar, a espaços, o melhor futebol da prova, mas penalizado pela extrema irregularidade exibicional; um Liverpool com boas intenções, mas contagiado pela vertigem do futebol inglês e com um plantel curto para ambicionar a mais do que o 4º lugar; uma das piores versões do Arsenal de que há memória na era Wenger e que ficou naturalmente fora dos lugares de acesso à Liga dos Campeões, pela primeira vez em muitos anos; e, por fim, um Manchester United mais ofensivo do que se esperava, atendendo ao historial recente de José Mourinho, mas a demonstrar que ter muito volume de jogo não é igual a ter bom volume de jogo, como atestam os apenas 54 golos marcados (menos 25/30 golos do que as cinco equipas que ficaram à sua frente!) e os 15 empates concedidos em 38 jogos.

V. Em Espanha, o Real Madrid venceu finalmente o campeonato, que lhe fugia há quatro épocas, e juntou-lhe ainda a segunda Liga dos Campeões consecutiva, um feito inédito na história recente da competição. Tenho lido análises diametralmente opostas sobre os méritos de Zinedine Zidane – por um lado, há quem sustente que o treinador teve pouca ou nenhuma influência nestas conquistas e, por outro lado, há quem seja da opinião que quando se ganha troféus tão prestigiados, tem que haver necessariamente competência do treinador. A minha opinião estará algures no meio: não concordo, de todo, com a segunda premissa, mas tenho que admitir que nunca tinha visto um Real estrategicamente tão bem preparado para os jogos decisivos (nem com Mourinho), pelo que me parece justo afirmar que também houve dedo de Zidane na excelente época do conjunto madrileno. Porém, a meu ver, o fator realmente diferenciador foi mesmo o incrível plantel do Real, o mais bem apetrechado do mundo nos dias que correm e certamente um dos melhores da história do clube. Quanto ao Barcelona, bastará uma frase para resumir o que foi a época blaugrana: nem a genialidade de Messi foi suficiente para evitar a mais que anunciada derrocada do Barcelona de Luis Enrique.

VI. Na Serie A, o trabalho de Massimiliano Allegri na Juventus não pode ser menosprezado – em três anos, três dobradinhas e duas finais da Liga dos Campeões! – mas tenho para mim que qualquer treinador minimamente competente, ao herdar a máquina bem oleada deixada por Conte, teria conseguido um pecúlio semelhante, pelo menos a nível interno. O desnível individual em relação às restantes equipas é abissal e a organização estrutural do hexacampeão não tem par em Itália. Do meu ponto de vista, o treinador que importa destacar em terras italianas é Mauricio Sarri, cujo Nápoles apresenta um dos modelos de jogo mais completos e complexos da atualidade e que está em crescendo de época para a época. Aliás, não é de agora que acho o Calcio um campeonato extremamente subvalorizado: apesar da hegemonia da Juventus nos últimos anos, é uma prova que se caracteriza pela abundância de treinadores com propostas de jogo interessantes (Sarri, Paulo Sousa, Eusebio Di Francesco, Spaletti, Montella, Pioli, Gasperini, etc), pela variabilidade táctica e pela qualidade dos espectáculos. Para que haja maior alternância no campeão, só falta mesmo uma capacidade de investimento ao nível do que acontece atualmente na Premier League e na La Liga, de forma a que as principais equipas se possam aproximar do nível da Juventus, mas acredito que, com a entrada em força de capital chinês, não deverá faltar muito para que o salto qualitativo aconteça.

VII. Em relação ao sempre polémico tema da Bola de Ouro, neste momento restam poucas dúvidas de que Cristiano Ronaldo arrecadará, pela quinta vez, o conceituado galardão. E este ano, ao contrário do que aconteceu em 2016, não tenho muito a obstar: é indesmentível a preponderância de Ronaldo para as conquistas do Real Madrid, nomeadamente na Liga dos Campeões (recordo que Ronaldo marcou 10 golos nos 7 jogos da fase a eliminar, a maior parte deles decisivos!), e esse critério, ainda que não seja o meu, é perfeitamente aceitável e defensável. O meu único lamento, quando ainda faltam 6 meses para o prémio ser atribuído, prende-se com o facto da unanimidade em torno da justiça de novo triunfo do melhor jogador português de sempre não fazer jus a mais uma sensacional época de Lionel Messi, que levou o Barcelona às costas até quando lhe foi humanamente possível: no fundo, a prestação do craque argentino justificava claramente uma maior dose de emoção e incerteza na hora de entregar a Bola de Ouro.

VIII. Contrariamente às previsões da maioria dos comentadores desportivos, para quem a vitória de Portugal na Taça das Confederações era praticamente um dado adquirido, a seleção portuguesa acabou por não ir além das meias-finais, tendo caído perante o Chile, no desempate por grandes penalidades. O desfecho não me surpreendeu, tal como não me surpreenderá se Portugal tiver uma participação relativamente modesta no Mundial do próximo ano. O que vou dizer certamente escandalizará muitas pessoas, mas cá vai: Portugal não tem um modelo de jogo consolidado e comum a todos os escalões (e tinha condições para o ter), não está sequer a procurar fazer a imprescindível renovação de valores (e tinha condições para a fazer) e o que aconteceu é que se limitou a ganhar uma competição a eliminar da mesma maneira fortuita que, por exemplo, o Chelsea de Di Matteo também ganhou uma Liga dos Campeões, ou seja, com uma abordagem de risco mínimo, alguma qualidade individual e uma improvável e irrepetível conjugação de fatores que não pode controlar. Obviamente, nada disto é sustentável a médio/longo prazo – como ficou evidente nesta Taça das Confederações, em que só por manifesta infelicidade o Chile, uma seleção teoricamente do nosso nível, não resolveu a questão no tempo regulamentar – e se nada de verdadeiramente significativo se alterar até lá, temo bem que as fragilidades desta seleção ficarão à vista de todos no Mundial de 2018.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Retrospetiva do Mundial

Terminou a maior competição do panorama futebolístico. Foram 4 semanas de futebol, numa competição recheada de golos, surpresas, festa e com a confirmação que o antigo ditado ainda se aplica: "São 11 contra 11 e no fim ganha a Alemanha". Mas foi realmente este um dos melhores Mundiais de sempre? Vejamos: 

AS 4 SEMI-FINALISTAS

Das 4 equipas que chegaram às decisões finais, apenas uma apresentava um futebol de qualidade: a Alemanha. E aqui fala-se em futebol de qualidade com a premissa de ideias coletivas de valor, não da dependência de individualidades para atingir a vitória. 

Comecemos pelo 4º classificado: o Brasil. Desde o 1º jogo que os canarinhos apresentavam deficiências coletivas graves. Superioridade na zona da bola? Nem a defender, quanto mais a atacar. Apesar de não defenderem com referências individuais per se, em todos os jogos existiram uma mão-cheia de erros defensivos a surgirem da tentação de seguir o adversário e não a ocupação racional dos espaços. No ataque era cada um por si. A partir do momento em que a bola entrava num dos 4 homens da frente, o objetivo era sempre procurar espaços longe do portador, sem nunca haver a preocupação (e paciência) para procurar melhorar as circunstâncias do lance e os melhores timings de entrada. Além disso, a pressão a que os jogadores foram expostos antes e durante o Mundial pagou-se caro a partir do momento em que os erros começaram a sobrepor-se à qualidade individual dos jogadores. Os 10 golos sofridos nos últimos 2 jogos são uma consequência disso mesmo. Contra equipas mais competentes o véu caiu e deixou as (graves) falhas à mostra. Sem rumo nem capitão ao leme, os brasileiros caíram numa espiral negativa, orfãos da capacidade para se levantarem devido à falta de ideias coletivas de qualidade. Culpa de Scolari que nunca conseguiu dar à equipa princípios de jogo de valor, dum país que esperava demais daquilo que a seleção foi oferecendo e duma federação que se recusa a evoluir, como se copiar ideias de que faz as coisas bem fosse uma afronta.

A Holanda é um caso paradigmático deste Mundial. Equipa baseada (será "baseada" a palavra correta quando não sabiam fazer outra coisa?) em transições rápidas, foi avançando na competição pelas veleidades dadas pelos adversários. Mas uma coisa é verdade: com espaço, esta Holanda é muito perigosa. Van Persie é fantástico a movimentar-se e Robben foi figura maior duma equipa que jogava com o seu ADN. Mas... e quando não existia espaço para transitar em velocidade? Pois. As coisas complicavam e muito. Em organização ofensiva, a Holanda era extremamente previsível: bola num flanco, roda pelo trinco\centrais e bola para o outro flanco. Constantemente. A variação do centro de jogo é uma boa opção para abrir espaços no adversário. Mas tal só dá frutos se após a criação de espaço houver intenção de entrar pela zona central e desequilibrar em definitivo o adversário. Caso contrário é bola a rodar, sempre por fora do bloco, e cruzamento. E era isso que acontecia, com um rácio de aproveitamento claramente deficitário. Já defensivamente, o dedo a apontar a Van Gaal surge pelas marcações individuais (até no meio-campo!) dos seus jogadores. Ao defenderem com linhas recuadas e 3 defesas-centrais, promoviam a aglomeração de jogadores em zonas importantes. Mas isso não equivale a defender bem. Foram várias as vezes em que a defesa holandesa se viu aos papéis com o arrastar de marcações dos seus homens mais recuados. Não existiam referências zonais a ocupar e o foco era sempre o adversário. Para alguém que no passado deu passos tão importantes na evolução do futebol, Van Gaal deixou muito a desejar.

A Argentina foi um caso semelhante, em menor escala mas com um trunfo de peso: Lionel Messi. Sem ele, os argentinos não teriam conseguido chegar onde chegaram. Analisaremos a performance do astro argentino mais à frente, pois para já importa analisar a qualidade da equipa de Sabella... que não foi muita. Parecia um filme saído dum relvado dos anos 80. 3 ou 4 jogadores para atacar, os restantes para defender. Equipa completamente partida em transição e com extremas dificuldades em controlar os espaço a meio-campo pela falta de plasticidade da linha média. Com bola existiam boas intenções (portador com linhas de passe próximas, boa ocupação do espaço central, mobilidade dos apoios) mas nada de transcendente. E muitas vezes eram Lavezzi e Di Maria, no seu jeito desengonçado, que lá desequilibravam o adversário com a reconhecida facilidade no 1x1\2. A chegada à final foi feita constantemente no limite, com um único golo de diferença em todos os jogos. Salvou Messi mas os problemas eram visíveis e com a extraordinária qualidade individual presente na equipa, Sabella devia e podia ter feito muito mais.

A Alemanha foi consistentemente a melhor equipa deste Mundial. Com alguns defeitos sim, mas no panorama global mereceu ganhar a competição porque jogou o melhor futebol. São, a par da Espanha, o país com melhores perspetivas futuras em termos de jogadores e ideias de jogo. Nos primeiros dois encontros alguns erros posicionais em posse deixavam no ar dúvidas quanto ao controlo do espaço, com a equipa desequilibrada e sujeita a transições perigosas pelo mau posicionamento das suas peças. Mas rapidamente resolveram o problema. O controlo da profundidade a defender alto foi, para mim, o ponto alto desta seleção. Ofensivamente beberam daquilo que Guardiola deu este ano ao Bayern e construíram uma equipa forte em posse e mortífera em contra-ataque. Juntando a isso jogadores de craveira ao nível do melhor existe, as condições estavam criadas para se tornarem imparáveis. Especial menção para Muller e Lahm, dois portentos da inteligência que em qualquer posição do onze seriam considerados dos melhores do Mundo.

O MELHOR DA COMPETIÇÃO

A eleição de Lionel Messi como melhor jogador do Mundial deixou muitos surpresos e irritados. A mim não. Messi foi, ao longo da prova, o jogador que mais e melhor agiu nas mais variadas situações com que foi confrontado. Constantemente obrigado a lidar com lances de inferioridade numérica devido a um Modelo com princípios ultrapassados, fazia quase sempre a diferença e optava pela melhor decisão, mesmo que essa decisão implicasse não partir para o drible ou simplesmente manter a posse. Aproveitando a temática, no Lateral Esquerdo fizeram uma excelente análise. Recomendado. 

Um dos maiores argumentos usados para se justificar a "inferioridade" de Messi face a Maradona é o facto de Maradona ter "carregado" a equipa às costas para a vitória dum Mundial. Bem, Messi não ganhou o troféu mas fez exatamente o mesmo. Dentro daquilo que um único homem pode fazer face aos contextos apresentados pelo jogo, Messi deu à sua seleção a hipótese de lutar pelo título mais importante do futebol.. Não foi o melhor marcador, não foi o maior assistente, mas foi aquele que melhor resposta deu às condicionantes do jogo. E por isso merece, mais que qualquer outro, a nomeação de melhor jogador da prova.

A NOSSA SELEÇÃO

Portugal saiu do Mundial de cabeça baixa. Em terceiro lugar do grupo com 4 golos marcados e 7 sofridos, a seleção foi o espelho duma decepção há muito anunciada. Pouco interessa discutir a convocatória e os fatores externos condicionantes. Não foi por falta de vontade e empenho que Portugal caiu tão cedo. Foi por falta de ideias. Os erros cometidos pela equipa foram muitos, desde falta de criatividade da equipa em momento ofensivo até ao ridículo, quase caricaturesco, comportamento da linha defensiva. São tantas as dificuldades que fica no ar a dúvida até que ponto a federação dará liberdade a Paulo Bento para continuar no cargo nos próximos tempos. Já não existe a qualidade da altura de Deco, Rui Costa, Ricardo Carvalho, Figo, ou até uma base de jogadores que jogue junta e tenha boas rotinas (Porto 03\04) e isso exige ainda mais competência a quem gere o futebol nacional. Uma coisa é certa: se não houver mudança (não necessariamente no treinador mas na abordagem do mesmo) as coisas manter-se-ão na mesma.

Em jeito de conclusão, este Mundial foi para mim uma decepção. Equipas a jogar com princípios há muito ultrapassados só prejudica a evolução do futebol. O espectador gosta de golos e foi isso mesmo que houve, em fartura até. No entanto, não surgiram pela qualidade ofensiva das equipas mas pela desorganização defensiva latente. Foi uma prova nivelada por baixo e a análise deve ser feita em termos absolutos, não em termos relativos. Dizem que o clima afetou o futebol praticado. Não refutando esse facto, tal argumento não pode nem deve ser desculpa para a pobreza de ideias demonstrada na competição. Os próximos Mundiais serão na Rússia e no Qatar, dois países com climas ainda mais extremos que o Brasil. Como será aí então?

segunda-feira, 23 de junho de 2014

O desnorte em 10 segundos

Comportamentos defensivos novamente. Como não se deve fazer.

Bradley baixa para pegar no jogo e sai a jogar curto para um colega que faz um movimento semelhante ao seu. Ricardo Costa acompanha o seu "osso" até ao meio-campo adversário.



A bola entra no lateral-esquerdo Beasley. Nani novamente apático na pressão (deu golo hoje como deu contra a Alemanha). Ricardo Costa está agora a pressionar o portador da bola para lá do meio-campo defensivo do adversário.



Num ligeiro momento de clarividência, Ricardo Costa apercebe-se que está 60 metros afastado de onde deveria estar e numa corrida desenfreada regressa ao local de partida. Grave também é verificar que nenhum dos seus colegas ocupou o lugar desprotegido do sector defensivo. Ia chamar-lhe "linha defensiva", mas não consigo.





domingo, 22 de junho de 2014

Equipa de Homens?

"Temos de ser uma equipa de homens" - Paulo Bento.

Depois de uma pesada derrota contra a candidata Alemanha, que expôs ainda mais as debilidades patentes da nossa Seleção, hoje apela-se à atitude, à raça, ao querer e à determinação. Curiosamente, tudo aspetos que estiveram mais que presentes no jogo da 1ª ronda. O problema de Portugal não foi e raramente é a falta de atitude. É um chavão muitas vezes usado por quem não sabe como mais explicar as derrotas e maus resultados de determinada equipa ou jogador.

"Olha para eles, andam ali a passo!" ou "Estes nem sequer suam a camisola, havia de ser eu!". Qualquer jogador que entre em campo, salvo algumas excepções, joga para ganhar, ainda para mais a este nível. A quem olha de fora pode dar a ideia que em certos momentos o jogador X está desinteressado, que não corre porque não quer e por isso merece ser criticado. Mas se quem opina o faz sem as bases corretas corre o (grande) risco de dizer asneiras. E se assim o fizer irá certamente influenciar a opinião de outros, que por sua vez acabam por ceder à tentação da crítica fácil sem sequer ponderarem as verdadeiras razões. Infelizmente este acaba por ser o raciocínio de muita gente. À falta de vontade para pensar bem nas coisas, subjugam-se à crítica fácil.

Mas deixando de lado este pequeno desabafo, há que pensar, com cabeça, naquilo que nos espera hoje. Como em tudo na vida, a adaptabilidade a diferentes situações é uma qualidade extremamente útil mas sem nunca pôr de lado a nossa identidade. No futebol o pensamento aplica-se na mesma medida. Qualquer equipa que jogue primariamente em função do adversário estará destinada a sofrer com a caoticidade do jogo.

Setores afastados, marcações individuais, dificuldades enormes em controlar os espaços, ineficácia em posse, dependência das transições para Ronaldo, falta de linhas de passe próximas ao portador, desiquilíbrio no posicionamento das coberturas. Estas foram algumas das razões objetivas daquilo que se passou no último jogo dentro das 4 linhas para Portugal perder, e bem, contra uma seleção muito mais inteligente e adulta. Não foi falta de atitude ou de querer. Foi falta de cabeça. Falta de ideias. Falta de maturidade tática.

Veremos como hoje responderá no campo a equipa liderada por Paulo Bento. Estragos foram feitos mas nada que não seja (em parte) passível de ser resolvido. Antes de mais, colocar em campo quem melhor pode contribuir para o sucesso da equipa: William e Amorim e Postiga. E deixar de depender tanto de Ronaldo.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Veloso e os Marcadores Somáticos

Tem sido amplamente discutida nos últimos dias a pertinência da decisão de Veloso nos primeiros minutos do Portugal - Alemanha, quando após roubar a bola a Lahm na primeira fase de construção alemã, e encontrando a defesa alemã inevitavelmente desequilibrada, opta pelo passe a Ronaldo. De forma geral, a decisão tem sido catalogada como errada. Consegue-se perceber porquê, mas será que chega a análise superficial?

Do ponto de vista meramente teórico, de situação de 3x2+1 em que os jogadores são meros intérpretes de uma situação hipotética, percebe-se quem defende o erro de Veloso. Ronaldo chega posteriormente, Almeida já lá estava. Almeida estava em zonas interiores (mais perto da baliza), Ronaldo recebe a bola na lateral e num ângulo desfavorável. Mertesacker comporta-se superiormente: perante a cobertura de Hummels encurta caminho ao portador e abranda ligeiramente quando sente o deslocamento de Ronaldo nas suas costas. E agora, Veloso?




Veloso opta por Ronaldo porque as decisões no futebol não acontecem ao acaso. No futebol, como na vida, no nosso subconsciente durante aqueles milésimos de segundos joga-se um jogo probabilístico e emocional de alta intensidade que tem tremenda influência quando somos forçados a tomar decisões deste calibre. A grande matriz impulsionadora desta tomada de decisão são as experiências anteriores que se fazem representar no nosso cérebro por marcadores somáticos, terminologia sustentada e superiormente defendida por António Damásio no seu Erro de Descartes. Isto parece fazer ainda mais sentido em algo tão imediato e tão rápido como uma decisão deste género: se para tomar a decisão o nosso cérebro precisasse de uma reflexão profunda sobre o assunto a oportunidade desvaneceria-se.


Os marcadores somáticos associam emoções e estados fisiológicos positivos a decisões. Se perante o estímulo da decisão x o meu colega falhar o golo no treino, e perante a decisão y em que eu opto por outro colega ele conseguir marcar, provavelmente eu optarei mais vezes pela decisão y. Associa-se a ela um estado fisiológico positivo, um marcador somático que marca positivamente aquela decisão. O contrário também se passa: se de todas as vezes em que eu tento fintar no treino perder a bola, ou receber feedback negativo do treinador, o marcador somático negativo associado a esse processo fará com que eu evite aquele comportamento. Se por outro lado eu tiver particular sucesso a rematar de fora da área, não preciso de incentivo: da outra vez correu bem, porque não? Isto explica, por exemplo, porque é que os finalizadores em crise de confiança evitam o remate, procuram situações alternativas, escondem-se desse momento do jogo.

Passando à situação concreta, eu tenho a ligeira desconfiança de que, não obstante todas as condicionantes,
das vezes em que o Veloso passou a bola a Ronaldo a equipa dele teve mais sucesso que quando resolveu entregar a bola a Hugo Almeida: marcador somático positivo associado a passar a bola ao Ronaldo.

E agora: Veloso decidiu bem ou mal?

terça-feira, 17 de junho de 2014

Notas sobre a Selecção

Ponto prévio: não éramos favoritos, contra uma Alemanha que terá sempre uma palavra a dizer nesta competição. Temos um conjunto de jogadores de qualidade mediana, com um ou outro que se destaca individualmente. No entanto, custa perceber como não conseguimos sequer ser competitivos nesta estreia no Mundial 2014. Ou será que não custa?

- De que serviram os jogos de preparação? Partiu-se com uma ideia de 4x4x2 que poderia trazer frutos com Ronaldo a jogar por dentro e com a equipa, naturalmente, menos exposta defensivamente pelo flanco de onde partem Coentrão e o madeirense; em seguida testou-se Coentrão como médio interior, trocaram-se os avançados e, acima de tudo, não se deram minutos nem rotinas a jogadores que hoje apareceram em campo. Fosse qual fosse a ideia de jogo, Rúben Amorim e Varela tornam o flanco direito português muito mais competente a atacar e a defender.

- O jogo começou com um ou dois lances interessantes por parte de Portugal, que tremeu com um erro de Rui Patrício. Ainda com o nulo no marcador, há um lance que pode definir muito daquilo que seria o jogo: recuperação de bola de Miguel Veloso (que, como habitualmente, acompanha o seu opositor directo para todo o lado, ainda que na maior parte das vezes isso cause dissabores à organização defensiva portuguesa) em terrenos adiantados e um claro 3x2 para resolver. A imagem mostra o momento em que Veloso se desfaz da bola.


- Umas quantas perguntas surgem na minha cabeça. Dividindo o campo em 3 faixas ao comprimento, qual delas será a que mais nos aproxima do golo? Como trabalha Paulo Bento a transição ofensiva? Será que devemos passar de uma situação de 3x2 para um 1x0, ou será que é seguir o grito de Ronaldo e passar-lhe a bola?

- Com o passar dos minutos tornou-se gritante a facilidade com que a Alemanha conseguia jogar dentro do nosso bloco, sempre com soluções entre-linhas e facilidade de processos. A nossa equipa mostrou dificuldades em organizar-se após perda, e mesmo em organização defensiva o bloco nunca foi compacto. Esta Alemanha parece querer tornar-se um misto das antigas e frias equipas germânicas, com um toque das potências que têm ganho a Bundesliga: a verticalidade de Klopp, a inteligência de Guardiola. Veremos como será daqui para a frente.

- A história do jogo termina com a 1ª parte. À expulsão de Pepe segue-se o golo de Muller, que confirma não só a superioridade alemã como também expõe outra das vulnerabilidades da selecção portuguesa. 



- Nani: com tanto tempo para definir um passe, até eu jogo com o Lahm, Kroos e companhia. Convém pressionares e encurtares na bola, e assim retirares tempo e espaço ao portador. A passo é mais complicado.

- Última nota: sem Coentrão será mais complicado, mas ainda é possível o apuramento. Com William Carvalho no lugar do Veloso, com Amorim e Varela pela direita, com menos pontapé para o ar do Bruno Alves, com Moutinho em jogo e, essencialmente, com mais cabeça fria e pés no chão. Às vezes uma derrota obriga-nos a outra atitude e a outras opções. Já passaram 10 anos, Scolari, lembras-te?