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domingo, 2 de julho de 2017

Coisas que se passaram em 2016/2017

I. Se há sensivelmente um ano e meio se afirmasse que o Benfica de Rui Vitória iria sagrar-se bicampeão e confirmar definitivamente a hegemonia interna do clube da Luz, muito boa gente (eu incluído) rir-se-ia com gosto. Mas, ao contrário de quase todas as expectativas, foi isso mesmo que aconteceu. Por aqui, ainda que se considere que o atual treinador do Benfica beneficiou de uma conjuntura algo favorável, sobretudo neste segundo ano, com um plantel vários furos acima da concorrência e uma estrutura do futebol consolidada, há que reconhecer que se o Benfica evoluiu de um coletivo totalmente disfuncional, com cada um a correr para seu lado, para uma equipa organizada e que dá liberdade aos jogadores mais talentosos para soltarem o seu futebol, também o deve ao trabalho de Rui Vitória e da sua equipa técnica. O mérito a quem o merece.

II. Sem querer “fazer prognósticos à segunda-feira”, sempre me pareceu que a decisão de entregar um plantel com tantos executantes de qualidade a um treinador com a matriz de jogo de Nuno Espírito Santo tinha tudo para correr mal. O Porto viu-se eliminado das taças internas e da Liga dos Campeões demasiado cedo – é verdade que aqui caiu aos pés da futura vice-campeã, mas apenas porque falhou pateticamente o primeiro lugar num grupo facílimo – e essa circunstância permitiu-lhe concentrar-se exclusivamente no campeonato e disputá-lo quase até ao fim, mas nem esse facto apaga a pálida imagem deixada pelos pupilos do ex-treinador de Rio Ave e Valência ao longo de toda a temporada. Com um sistema de jogo rígido e um futebol retilíneo e aos repelões, que não potenciava minimamente a qualidade individual existente, só por um acaso do destino o desfecho podia ser outro que não zero títulos e o despedimento do treinador.

III. Se em relação ao Porto de Nuno Espírito Santo as expectativas não saíram propriamente defraudadas, porque não se esperava muito do protegido de Jorge Mendes, o mesmo não se pode dizer do Sporting de Jorge Jesus, que depois de bater o recorde de pontos do clube e de perder o título por uma unha negra em 2015/2016, tinha tudo para manter a toada em 2016/2017, pese embora as vendas de João Mário e Slimani. Mas o que se viu foi um Sporting que, em janeiro, já só tinha o campeonato para disputar, sendo que nem nesta competição se apresentou competitivo, tendo ficado a 12 pontos do primeiro lugar e tendo encaixado uns incríveis 36 golos em 34 jogos! Além da crença de que é tão competente que até com três ou quatro marretas na linha defensiva consegue colocar uma equipa a defender bem, o erro capital de Jorge Jesus foi ter abdicado de praticamente tudo o que de bom construiu na temporada transata para tentar encaixar Bas Dost e Gelson Martins no onze titular. Ao avaliar – erradamente – o incrível ponta de lança holandês como “um pinheiro” e ao querer fazer de Gelson o principal (e único?) motor ofensivo da equipa, Jorge Jesus modificou posicionamentos e movimentações que tinham funcionado no passado, para que a bola passasse a entrar nestes dois jogadores nas melhores condições possíveis. É verdade que, com isso, conseguiu fazer de Gelson um dos jogadores mais influentes do campeonato e de Dost o melhor marcador destacado, mas…à custa de quê? De um Sporting mais desequilibrado atrás, com laterais e médio defensivo muitas vezes expostos devido ao posicionamento excessivamente largo dos extremos, e mais previsível no último terço, com a bola a entrar sempre nos mesmos espaços e sempre da mesma forma. Em suma, uma época falhada e que deve fazer refletir seriamente os responsáveis leoninos.

IV. A Premier League, por todas as razões e mais algumas, era a competição sobre a qual recaíam todos os olhares e o melhor elogio que se pode fazer é que não defraudou em nada as expetativas. Na ressaca de uma Premier League completamente atípica, com o inesperado Leicester a sagrar-se campeão, assistiu-se desta feita a um campeonato bem disputado, nivelado por cima, taticamente mais rico do que é habitual (a título de exemplo, Chelsea, Tottenham, Manchester City e Arsenal jogaram regularmente com três defesas, uma autêntica raridade em solo britânico), com a maior parte das principais equipas a melhorarem as respetivas pontuações e classificações. Aliás, a ordem do top 6 foi justa e refletiu, de um modo geral, a qualidade de jogo apresentada pelas equipas: um Chelsea à imagem do seu treinador, ou seja, organizado sem bola e cerebral com ela, que é meio caminho andado para ter sucesso em Inglaterra; um Tottenham superiormente trabalhado por Mauricio Pochettino, mas que revelou alguma falta de tarimba e experiência nos momentos decisivos; um Manchester City a praticar, a espaços, o melhor futebol da prova, mas penalizado pela extrema irregularidade exibicional; um Liverpool com boas intenções, mas contagiado pela vertigem do futebol inglês e com um plantel curto para ambicionar a mais do que o 4º lugar; uma das piores versões do Arsenal de que há memória na era Wenger e que ficou naturalmente fora dos lugares de acesso à Liga dos Campeões, pela primeira vez em muitos anos; e, por fim, um Manchester United mais ofensivo do que se esperava, atendendo ao historial recente de José Mourinho, mas a demonstrar que ter muito volume de jogo não é igual a ter bom volume de jogo, como atestam os apenas 54 golos marcados (menos 25/30 golos do que as cinco equipas que ficaram à sua frente!) e os 15 empates concedidos em 38 jogos.

V. Em Espanha, o Real Madrid venceu finalmente o campeonato, que lhe fugia há quatro épocas, e juntou-lhe ainda a segunda Liga dos Campeões consecutiva, um feito inédito na história recente da competição. Tenho lido análises diametralmente opostas sobre os méritos de Zinedine Zidane – por um lado, há quem sustente que o treinador teve pouca ou nenhuma influência nestas conquistas e, por outro lado, há quem seja da opinião que quando se ganha troféus tão prestigiados, tem que haver necessariamente competência do treinador. A minha opinião estará algures no meio: não concordo, de todo, com a segunda premissa, mas tenho que admitir que nunca tinha visto um Real estrategicamente tão bem preparado para os jogos decisivos (nem com Mourinho), pelo que me parece justo afirmar que também houve dedo de Zidane na excelente época do conjunto madrileno. Porém, a meu ver, o fator realmente diferenciador foi mesmo o incrível plantel do Real, o mais bem apetrechado do mundo nos dias que correm e certamente um dos melhores da história do clube. Quanto ao Barcelona, bastará uma frase para resumir o que foi a época blaugrana: nem a genialidade de Messi foi suficiente para evitar a mais que anunciada derrocada do Barcelona de Luis Enrique.

VI. Na Serie A, o trabalho de Massimiliano Allegri na Juventus não pode ser menosprezado – em três anos, três dobradinhas e duas finais da Liga dos Campeões! – mas tenho para mim que qualquer treinador minimamente competente, ao herdar a máquina bem oleada deixada por Conte, teria conseguido um pecúlio semelhante, pelo menos a nível interno. O desnível individual em relação às restantes equipas é abissal e a organização estrutural do hexacampeão não tem par em Itália. Do meu ponto de vista, o treinador que importa destacar em terras italianas é Mauricio Sarri, cujo Nápoles apresenta um dos modelos de jogo mais completos e complexos da atualidade e que está em crescendo de época para a época. Aliás, não é de agora que acho o Calcio um campeonato extremamente subvalorizado: apesar da hegemonia da Juventus nos últimos anos, é uma prova que se caracteriza pela abundância de treinadores com propostas de jogo interessantes (Sarri, Paulo Sousa, Eusebio Di Francesco, Spaletti, Montella, Pioli, Gasperini, etc), pela variabilidade táctica e pela qualidade dos espectáculos. Para que haja maior alternância no campeão, só falta mesmo uma capacidade de investimento ao nível do que acontece atualmente na Premier League e na La Liga, de forma a que as principais equipas se possam aproximar do nível da Juventus, mas acredito que, com a entrada em força de capital chinês, não deverá faltar muito para que o salto qualitativo aconteça.

VII. Em relação ao sempre polémico tema da Bola de Ouro, neste momento restam poucas dúvidas de que Cristiano Ronaldo arrecadará, pela quinta vez, o conceituado galardão. E este ano, ao contrário do que aconteceu em 2016, não tenho muito a obstar: é indesmentível a preponderância de Ronaldo para as conquistas do Real Madrid, nomeadamente na Liga dos Campeões (recordo que Ronaldo marcou 10 golos nos 7 jogos da fase a eliminar, a maior parte deles decisivos!), e esse critério, ainda que não seja o meu, é perfeitamente aceitável e defensável. O meu único lamento, quando ainda faltam 6 meses para o prémio ser atribuído, prende-se com o facto da unanimidade em torno da justiça de novo triunfo do melhor jogador português de sempre não fazer jus a mais uma sensacional época de Lionel Messi, que levou o Barcelona às costas até quando lhe foi humanamente possível: no fundo, a prestação do craque argentino justificava claramente uma maior dose de emoção e incerteza na hora de entregar a Bola de Ouro.

VIII. Contrariamente às previsões da maioria dos comentadores desportivos, para quem a vitória de Portugal na Taça das Confederações era praticamente um dado adquirido, a seleção portuguesa acabou por não ir além das meias-finais, tendo caído perante o Chile, no desempate por grandes penalidades. O desfecho não me surpreendeu, tal como não me surpreenderá se Portugal tiver uma participação relativamente modesta no Mundial do próximo ano. O que vou dizer certamente escandalizará muitas pessoas, mas cá vai: Portugal não tem um modelo de jogo consolidado e comum a todos os escalões (e tinha condições para o ter), não está sequer a procurar fazer a imprescindível renovação de valores (e tinha condições para a fazer) e o que aconteceu é que se limitou a ganhar uma competição a eliminar da mesma maneira fortuita que, por exemplo, o Chelsea de Di Matteo também ganhou uma Liga dos Campeões, ou seja, com uma abordagem de risco mínimo, alguma qualidade individual e uma improvável e irrepetível conjugação de fatores que não pode controlar. Obviamente, nada disto é sustentável a médio/longo prazo – como ficou evidente nesta Taça das Confederações, em que só por manifesta infelicidade o Chile, uma seleção teoricamente do nosso nível, não resolveu a questão no tempo regulamentar – e se nada de verdadeiramente significativo se alterar até lá, temo bem que as fragilidades desta seleção ficarão à vista de todos no Mundial de 2018.

domingo, 21 de fevereiro de 2016

11 contra 11 e no final...ganha a Alemanha

Dois confrontos portugueses com equipas alemãs, duas derrotas contundentes e duas eliminatórias extremamente complicadas para Porto e Sporting. Embora por razões diferentes, a diferença de qualidade entre Leverkusen/Dortmund e Sporting/Porto fez-se sentir. Mas nesta "primeira parte" das eliminatórias, vou optar por me focar nos "dragões".

O Porto entrou em campo na Alemanha claramente limitado, sobretudo no sector defensivo. Peseiro viu-se obrigado a puxar Layún para o meio (e o mexicano, que parece não saber jogar mal, correspondeu), jogando ao lado de Indi, e colocou Varela como lateral direito. No meio-campo, Rúben Neves no lugar do habitual titular Danilo (de fora por castigo) e Sérgio Oliveira ao lado de Herrera. Na frente, a surpresa foi Marega, na ala direita.


Mas desde cedo se percebeu que a principal diferença não seria individual, mas sim colectiva. Este Dortmund de Tuchel joga muito futebol, e é uma equipa muito bem organizada e confortável com o seu estilo de jogo. Raramente vemos os seus jogadores tomarem decisões sem nexo, e nota-se uma complexidade ao nível da dinâmica, quer defensiva quer ofensiva, muito interessante. Prova disso foi a forma como, sem grande esforço, foi forçando o Porto a jogar longo logo na 1ª fase de construção, acção que acabava sempre por ser inócua pois, mesmo quando Aboubakar ou Brahimi (especialmente o argelino, dono de uma capacidade técnica fenomenal, mas que nem assim foi capaz de ter grande sucesso) conseguiam dominar a bola, o Dortmund encontrava-se sempre em superioridade numérica naquela zona. Digo "sem grande esforço", pois foi algo que não se deveu a uma especial intensidade ou agressividade sobre o portador da bola por parte dos alemães, mas sim a um posicionamento exemplar em praticamente todos os momentos sem bola.

E mesmo com bola. Marega, por exemplo, passou o jogo todo "colado" a Varela, no seu meio-campo defensivo, para poder acompanhar Schmelzer, que actuava quase como extremo-esquerdo quando o Dortmund se encontrava em fases de construção (ficando Piszczek sempre mais recuado, junto aos centrais, com Weigl sempre como linha de passe segura no corredor central. Uma espécie de losango na saída de bola, muito interessante em termos tácticos). Esse comportamento reaccionário de Marega, por sua vez, permitiu várias vezes a Hummels (que, no capítulo da construção, é para mim o melhor central do mundo na actualidade) progredir no terreno com bola, criando constantemente um desequilíbrio que o Porto nunca foi capaz de contrariar. Basta ver que o central alemão terminou o jogo com mais passes que o meio-campo do Porto...todo junto. Ainda no capítulo da organização ofensiva, impressionante como Kagawa recebeu várias bolas entre linhas e sem pressão no corredor central, contra um trio de médios que poucas vezes saíram desse mesmo corredor no momento defensivo. Inadmissível a este nível.


Vi surgir, a espaços, o argumento de que o Porto não fez mais no jogo por manifesta falta de vontade para assumir riscos, para subir linhas e para envolver mais jogadores no momento ofensivo. Embora esse argumento tenha algum fundamento, há que realçar também a forma como o Dortmund foi impedindo o Porto de o fazer, e como manietou a equipa portuguesa durante vários períodos do jogo. A vitória alemã nunca pareceu estar posta em causa, e fiquei até com a ideia de que, tivesse o Porto criado outras dificuldades ao Dortmund, e estes teriam capacidade para responder com uma exibição de um nível qualitativo superior àquele que apresentaram na quinta-feira. No jogo do Dragão, parece-me inegável que será necessário um Porto com outra atitude perante o jogo, um Porto que suba bastante a bitola qualitativa, de forma a poder ter hipóteses reais de discutir esta eliminatória.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Notas sobre a noite histórica no Porto

- Que dizer do Porto que entrou ontem em campo? Talvez "avassalador" seja o melhor termo. Empurrados pelo ambiente infernal que se viveu no Dragão, a equipa portuguesa entrou a todo o gás no jogo e teve 10 minutos em que viveu um autêntico sonho. Dois golos (e uma expulsão que ficou por dar a Neuer, no lance do penalti) e uma sensação muito real de que estava a ser feita história;


- Defensivamente, foi um Porto a roçar a perfeição. A organização, as coberturas bem feitas, a entreajuda constante, a fluidez da movimentação colectiva, tudo isto parecia estar a ser representado ali em campo da mesma forma que está representado nos livros. Lopetegui demonstrou conhecer realmente bem Guardiola, e a forma como defendeu foi aquilo que mais feriu o Bayern. Não procurou retirar-lhes a bola nem a iniciativa. Procurou, isso sim, retirar-lhes a progressão. Obrigá-los a circular a bola de forma inócua, na maior parte das vezes (algo que Guardiola tanto detesta). Lopetegui sabe que o Bayern não concebe nunca bater a bola longa na frente, sem pelo menos tentar sair a jogar de forma apoiada. E valeu-se desse trunfo para brindar Guardiola com uma lição táctica: deu espaço aos centrais (linhas de passe seguras para a saída de bola do Bayern) para terem a bola no seu meio-campo, e definiu claramente uma marcação HxH de Jackson Martínez a Xabi Alonso, que impediu o espanhol de pegar no jogo, rodar e organizar. Os alas encostavam nos laterais do Bayern, e Herrera complementava as movimentações de Jackson neste momento do jogo (embora tenha demonstrado, aqui e ali, algumas limitações na correcta ocupação dos espaços). Os restantes jogadores (pelo menos enquanto houve pulmão para isso) defendiam à zona, mas sempre com grande propensão para procurarem jogar na antecipação. Foram várias as bolas que o Porto recuperou desta forma, e esta forma de defender fez com que os centrais do Bayern (Dante e Boateng, mas sobretudo Dante) fossem obrigados a assumir a construção e a arriscarem mais no passe, tendo que recorrer a passes mais complicados e mais longos. É por aí que se começa a explicar a exibição desinspirada do Bayern: pela forma como nunca conseguiram sair com qualidade, por nenhum dos 3 corredores. Mérito total para o Porto, e, além dos aspectos já mencionados, para a forma como a equipa (um pouco à imagem do que tem feito nos jogos grandes durante a época) soube identificar muito bem os timings de pressão, e soube criar o erro no adversário. O enorme trabalho defensivo de Quaresma no segundo golo é um exemplo claro disso, mas existem muitos mais pequenos exemplos ao longo de todo o jogo. Aquilo que o Porto fez ontem, defensivamente, foi dar uma aula de como defender bem. Muito, muito bem;

- Bayern muito abaixo daquilo que pode e deve fazer. Por mérito do Porto, por algumas baixas por lesão que são essenciais dentro do modelo de jogo (Robben é o caso mais flagrante, mas Alaba também é importantíssimo neste Bayern, e é um dos jogadores que confere à equipa uma maior versatilidade e flexibilidade ofensiva, além de toda a qualidade individual que possui) e porque nunca pareceu conseguir encontrar uma boa solução para contornar os problemas criados pela pressão organizada do Porto. Tiveram alguns períodos em que conseguiram sacudir um pouco essa pressão e subir de forma apoiada no terreno, mas nunca controlaram e dominaram o jogo, como gostam de fazer e como conseguem fazer na maioria das vezes. A complexidade do modelo de jogo é notória, e ao vivo salta ainda mais à vista. Incrível a facilidade do Bayern em criar linhas de passe no corredor central e entre linhas. Muito boa a forma como conseguem descobrir soluções alternativas, quando as mais óbvias não resultam. Quando conseguiam instalar-se minimamente no meio campo do Porto, criavam perigo, através da mobilidade de todos os jogadores e da agressividade deles sobre os espaços que a organização defensiva do Porto ia concedendo. Dificílimo de os travar neste momento do jogo. O que apenas confere ainda mais mérito ao trabalho defensivo da equipa de Lopetegui ontem;

- Foi um jogo que exigiu o máximo da qualidade individual dos jogadores. O segundo golo do Porto é um bom exemplo disso. Dante falha ligeiramente a recepção...perda de bola, e golo do Porto. Intensidade máxima. São estes jogos que distinguem os bons dos grandes jogadores. Nesse sentido, do lado do Bayern, só Thiago e Lewandowski estiveram à altura daquilo que sabem fazer. O brasileiro foi sempre o mais inconformado, mas pouco mais conseguiu fazer, além do golo. Já o polaco lutou muito e ainda ganhou várias bolas na frente, mas esteve sempre muito desacompanhado (e como é raro dizer-se isto de uma equipa de Guardiola!). Muller jogou sempre a um ritmo abaixo daquele que era obrigatório nesta partida, e Gotze passou totalmente ao lado do jogo;

- Do lado do Porto, enormes exibições de vários jogadores. Danilo e Alex Sandro estiveram irrepreensíveis em termos defensivos, e fizeram o melhor que podiam fazer em termos ofensivos, dadas as condicionantes do jogo e a forma como o Porto jogou. Brahimi foi muito importante nos momentos em que o Porto queria sair para o ataque e precisava de resistir à reacção agressiva do Bayern à perda da bola. Fortíssimo a guardar a bola e a protegê-la dos adversários até encontrar uma linha de passe segura. Depois, Óliver e Jackson encheram o campo. O primeiro demorou a arrancar, mas depois começou a assumir o jogo, começou a ganhar confiança e espalhou magia, no meio de alguns dos melhores executantes do mundo. A simulação que inicia a melhor jogada do Porto em todo o jogo, aos 56 minutos, está apenas ao alcance de um génio, que vê as coisas mais à frente que todos os outros. Deliciosa. Quanto ao colombiano, é uma máquina, e começam a faltar os adjectivos para esta sua época. Sem jogar há cerca de um mês, entra em campo num jogo desta intensidade e desta magnitude, e faz uma exibição fenomenal. Foi sempre a referência do Porto para as saídas de bola mais longas, e raramente perdeu uma bola para Boateng ou Dante. Segura a bola como poucos avançados no mundo actualmente, e entrega quase sempre com muita qualidade. A capacidade ofensiva do Porto vive muito daquilo que Jackson faz. E ontem ele fez muito. E depois, o faro de golo. Letal na finalização. O 3º golo é um trabalho ao nível dos melhores do mundo. Recebe de forma orientada, contorna o melhor guarda-redes do mundo e finaliza com o seu pior pé. Um (cada vez mais) grande avançado;

- Finalmente, o destaque merecido para o melhor jogador em campo. Confesso: era fã do Quaresma dos seus primeiros anos de carreira. Um fantasista, um desequilibrador nato, um artista dos relvados. Perdeu muito do encanto para mim quando começou a exagerar no individualismo, quando começou a acreditar que podia resolver todos os problemas sozinho, quando começou a valorizar-se mais a si próprio do que à própria equipa. Ontem, no entanto, tive a confirmação de que esse Quaresma está a desaparecer, e que um novo Quaresma está a nascer. Um Quaresma que, finalmente, coloca toda a sua qualidade individual ao serviço do colectivo. Que não tem problemas em sacrificar-se pelo colectivo. Que não tem problemas em fazer do colectivo o maior protagonista (palavra que Lopetegui tanto aprecia). Este novo Quaresma correu kms ontem (e correu bem!), recuperou inúmeras bolas, criou o seu segundo golo através de um grande trabalho defensivo, praticamente retirou Bernat do jogo em termos ofensivos, deu-lhe cabo do juízo quando o espanhol o tentava travar, e mostrou aos 31 anos que nunca se é demasiado velho para se aprender e se evoluir. Hoje sim, merece todo o protagonismo de que ele sempre gostou.


O Porto está em vantagem ao intervalo, mas o mais difícil ainda está para vir. Será preciso manterem este nível, porque na Alemanha já não existirá factor casa ou factor surpresa, e o Bayern irá entrar em campo de orgulho ferido e para mostrar porque razão é unânime considerá-los como uma das melhores equipas da actualidade. Mais do que trabalhar o aspecto técnico-táctico, o segredo está em fazer os jogadores acreditarem que ainda nada está ganho, e que só um Porto de outro mundo, como o de ontem, conseguirá voltar a ser protagonista. Se a vontade for a mesma, se a atitude for a mesma, se a qualidade for a mesma...as meias-finais estarão logo ali ao alcance.

segunda-feira, 2 de março de 2015

Notas soltas sobre o Clássico

- Porto com uma entrada expectante no jogo, mas a melhorar à medida que o tempo passava. O primeiro golo funcionou como "click" para acordar definitivamente a equipa. Muito fortes na reacção à perda da bola e na forma como souberam escolher muito bem os timings de pressão. Ofensivamente, grande mérito para a forma como conseguiram, de forma relativamente rápida, identificar o ponto fraco do Sporting e aquele que lhes poderia trazer grandes benefícios (a profundidade e o espaço entre o central e o lateral, sobretudo do lado direito do seu ataque), e canalizar por aí todos os momentos em que procuraram essa profundidade, através da velocidade de Tello. Com outra qualidade no capítulo do passe e da leitura de jogo (aspectos onde Casemiro e Herrera acabam por prejudicar mais do que ajudar, embora o mexicano também tenha feito um grande passe para o terceiro golo dos azuis e brancos), o espanhol poderia ter tido uma noite ainda mais brilhante, visto que Jonathan Silva nunca pareceu capaz de o travar;


- Sporting superior nos primeiros 20 minutos, mas horrível a partir daí. Pior exibição da época para a equipa leonina. Impressionante, pela negativa, a forma como, com o avançar do jogo, foram completamente incapazes de construir uma jogada "com pés e cabeça". Ligação entre sectores praticamente nula. Defensivamente, a coordenação, organização e equilíbrio da linha defensiva é assustadora, e os dois últimos golos do Porto são exemplos claros disso. Aliás, em ambas as jogadas, não faz sequer sentido falar-se numa "linha defensiva". É caso para perguntar qual é, exactamente, o trabalho que Marco Silva realizou neste aspecto nos quase 8 meses que leva no Sporting;

- Individualmente, além de Tello, homem do jogo, há que destacar claramente outro jogador: Evandro. Grande exibição do médio brasileiro. Como Lopetegui referiu, e muito bem, na flash-interview, Evandro, acima de tudo, traz futebol à equipa. E não há mesmo melhor forma de o descrever. Quando recebe, já sabe qual será a sua próxima acção. Pensa rápido, executa rápido e sabe de cor todos os passos para chegar aonde quer chegar. Entrega no colega, e, de forma natural, a sua primeira reacção é dar uma nova linha de passe ao portador da bola. Joga a 2/3 toques sempre que possível. Assim, de forma aparentemente simples, mas que parece tão complexa para alguns. Evandro é o oxigénio de qualquer equipa que goste de ter a bola e que goste de praticar bom futebol. Apenas um reparo: é uma pena que Lopetegui pareça não contar com ele para o lugar ocupado actualmente por Herrera. Evandro e Óliver podem (e devem!) coexistir no 11. E o futebol do Porto evoluiria imenso com isso;

- Do lado do Sporting, muito pouco a destacar pela positiva. João Mário e William ainda se esforçaram, mas cedo se viu que estavam muito desacompanhados. Na defesa, Paulo Oliveira foi curto para acudir a tantos fogos. Limpou o que conseguiu, mas teve uma tarefa muito ingrata. Já pela negativa, destaque claro para dois jogadores: Adrien e Fredy Montero. O primeiro voltou a realizar uma exibição horrenda, falhando a grande maioria das suas acções com bola, e demonstrando muita vontade mas pouca inteligência sem ela. É claramente um dos elos mais fracos deste Sporting, e a equipa já não beneficia em nada da sua presença no meio-campo. Quanto ao colombiano, fez a sua pior exibição desde que chegou a Portugal. Incrível como, sendo um jogador que muito frequentemente se caracteriza pela sua inteligência, visão de jogo e capacidade de dar sempre o melhor seguimento à jogada, Montero conseguiu ontem errar em praticamente todas as suas acções no jogo. Um jogo para esquecer. Ou para relembrar;

- Por fim, não podíamos mesmo acabar este texto sem dar o devido destaque ao jogador mais genial do jogo de ontem, e também ao momento mais genial do jogo (quiçá da época). Jackson Martínez, e o seu calcanhar, que começa a ser famoso. Aquilo que o colombiano faz no primeiro golo do Porto é algo que só está ao alcance dos predestinados, dos génios. Um momento de magia, daqueles que delicia qualquer fã do jogo. Num jogo até aí relativamente mal jogado, e até algo aborrecido, Jackson puxou do pincel e pintou uma obra de arte, que catapultou o Porto para uma estrondosa e inquestionável vitória no Clássico. Vale a pena ver e rever. E rever. E rever...

terça-feira, 5 de agosto de 2014

O Futebol é Tóxico?

A falência do Banco Espírito Santo está na ordem do dia. Curiosamente pouco se tem falado nas implicações deste facto em relação ao futebol nacional. Talvez porque seja um tema de certa forma hermético. Talvez porque estamos em período de férias. Talvez porque é uma questão demasiado delicada e ninguém parece devidamente habilitado a levantar a ponta do véu sobre certos negócios e engenharias financeiras que nos últimos tempos têm suportado a atividade dos clubes, em particular os mais fortes. Talvez porque todos têm telhados de vidro nesta matéria e é difícil apontar o dedo aos outros...


É conhecida a relação próxima que o Grupo Espírito Santo mantinha com o futebol. A começar pela presença de um dos homens fortes do Grupo até há bem pouco tempo nos órgãos dirigentes do Sporting (José Maria Ricciardi), passando pelos patrocínios aos 3 Grandes, pelo suporte à gestão dos passivos dos clubes e suas Sociedades Anónimas e culminando na gestão direta de Fundos de Investimento exclusivos de Benfica e Sporting. É óbvio e natural que a queda da família Espírito Santo e seu grupo empresarial tenha reflexos profundos na vida e gestão dos principais clubes portugueses, mais que não seja porque deixaram de poder contar com os seus principais interlocutores na banca.

Os relatórios e contas das 3 SAD, a 30 de junho de 2013, apontavam para uma exposição global de Benfica, Sporting e FC Porto ao BES num valor superior a 200 milhões de euros, sendo cerca de dois terços relativos a dívida de curto prazo. Mais de metade desta exposição é responsabilidade da SAD benfiquista. 

É impossível dissociar a recente febre de venda de ativos benfiquistas desta realidade. Ao contrário do que tem acontecido com os seus rivais nota-se desmesurada urgência na realização de transferências por parte do Benfica. Vende-se tudo, a qualquer preço, desde que haja comprador. Vão-se os anéis tentando preservar os dedos.

Encontro dois motivos que justificam esta necessidade:

1 - O Benfica contraiu em dezembro do ano passado um empréstimo obrigacionista no valor de 50 milhões de euros com maturidade de 1 ano e emissão organizada pelo Banco Espírito Santo de Investimento, SA. Desde 2010, pelo menos, que o Benfica cumpre o pagamento das obrigações contraindo novo empréstimo obrigacionista. Sempre com o BES como parceiro privilegiado. Agora já não há BES e desconfio que a facilidade para contrair novo empréstimo desta dimensão daqui a 4 meses não será a mesma...

2 - O Benfica Stars Fund é um fundo de investimento criado em setembro de 2009 com duração prevista para 5 anos. Sim, o prazo deste fundo de valores mobiliários termina daqui a 2 meses. Do Relatório e Contas da Benfica SAD relativo à época de 2012/13: "À data do presente relatório ainda não foi tomada uma decisão sobre a opção a tomar no final do período previsto para o Fundo. A contabilização dos activos e passivos decorrentes do Benfica Stars Fund, assim como o reconhecimento dos rendimentos no período, foi efectuada no pressuposto da continuidade do Fundo após 30 de Setembro de 2014.

Embora a Espírito Santo Activos Financeiros, SGPS (ESAF) tenha transitado para o Novo Banco não é líquido que, com a nova administração, haja continuidade do Benfica Stars Fund. E o que é certo é que vários dos jogadores que tinham parte dos seus direitos económicos no Fundo já foram vendidos (Kardec, André Gomes, Rodrigo, Garay, Cardozo).

quarta-feira, 23 de julho de 2014

O entendimento inevitável

Já por aqui falei sobre o alheamento e desvalorização a que os principais clubes de futebol portugueses votaram os assuntos relacionados com a Liga por ocasião das recentes eleições para os seus órgãos dirigentes. É um alheamento que decorre do esvaziamento de competências da própria Liga e que já tem alguns anos. Sem a arbitragem, a disciplina e a justiça é convicção dos principais clubes que as matérias que ainda competem à Liga não justificam o seu envolvimento direto. A Liga ficou, assim, à mercê dos clubes pequenos, de vistas curtas, subordinados a lógicas de protagonismos e egos pessoais. Ficou, em suma, um caos. E os clubes com maiores responsabilidades assistindo, impávidos, numa atitude de quem acredita que os problemas existentes estariam condenados a resolver-se sem terem necessidade de utilizar os seus esforços, capacidades e influências.


Não podiam estar mais errados! Há uma matéria fundamental e determinante que ainda reside no âmbito de competências da Liga: a organização das competições. Sem competições não há negócio! E sem orçamento para as organizar não há competições! E hoje a Liga não tem dinheiro. Não tem patrocinadores, não tem abertura legislativa para regular as apostas online, nem tem meios disponíveis para forçar alterações no que respeita aos direitos televisivos. Com o início das competições profissionais agendado para o próximo fim de semana (1ª jornada da fase de grupos da Taça da Liga) ainda ninguém sabe se haverá condições para que elas decorram com normalidade. Não há dinheiro para pagar a árbitros, a funcionários, a delegados e observadores e para a restante panóplia de pequenas despesas imprescindíveis que asseguram a realização dos jogos.

O Governo, via Secretário de Estado do Desporto e da Juventude, manifestou a sua preocupação; a Federação manifestou igualmente preocupação e convocou clubes e Liga para uma reunião com vista ao estabelecimento de uma plataforma de entendimento que promovesse a procura de soluções para o imbróglio gerado no seio da Liga. Essa reunião serviu, na prática, para "puxar as orelhas" aos responsáveis pelos clubes e para os intimar a que se organizem, que se entendam e que resolvam os problemas que criaram.


Os clubes acusaram o "toque" e nasceu uma comissão de trabalho liderada pelos 3 grandes. É assim que funciona o futebol português. Parecem um bando de catraios birrentos que necessitam de uns açoites para se comportarem devidamente e fazerem o que lhes compete.

Paralelamente vai ser interessante acompanhar o posicionamento das principais figuras neste processo. Bruno de Carvalho, que lutou por entendimentos e consensos sem qualquer sucesso e que, birrento, acabou por votar favoravelmente na lista de Mário Figueiredo, como se posicionará agora? Pinto da Costa, que aparece ao lado dos contestatários em manifestações em bombas de gasolina mas que prima pela ausência nos momentos em que se tomam, de facto, decisões, que papel terá? E Luís Filipe Vieira que não perde nenhuma oportunidade de marcar pontos em termos de liderança e sentido de responsabilidade (toda a comunicação social fez questão de realçar que foram dele as ideias de criação desta comissão e da participação ativa dos 3 grandes no processo), que fará quando vierem à tona assuntos em que tenha posições discordantes dos restantes?

A não perder os próximos episódios desta triste novela...

Declarações de Hermínio Loureiro, à saída da reunião entre a FPF e os clubes:


domingo, 20 de julho de 2014

Curtas da pré-época

Vimos ontem, pela primeira vez, a nova cara de um FC Porto que, pelo menos no que conta a nomes, entusiasma bastante. Essa é a primeira nota a ressalvar, do meio campo para a frente e tendo em conta o nível da nossa liga, a qualidade individual é mais que muita.

Apesar do pouco tempo de trabalho de Lopetegui, há algumas ideias que parecem ser padrão na forma de jogar do FC Porto, umas melhores que outras. Comecemos pelo que me pareceu pior. Em primeiro lugar, a falta de paciência em organização ofensiva e no momento em que recuperava a bola, que forçou o jogo para frente, sempre a privilegiar um jogo mais partido, com mais protagonismo para os extremos, o que leva ao segundo ponto. Deu sempre a ideia que Josué joga a pivot porque tem uma enorme qualidade de passe longo, que permite criar situações de 1x1 para os extremos, principalmente para Tello. Aliás, houve momentos em que a melhor solução nem era essa, mas o destino era sempre o mesmo. Estes dois factores fazem com que o FC Porto fique mais frágil em organização ofensiva, principalmente num aspecto em que poderia ser fortíssimo, no jogo interior, com jogadores como Oliver, Josué e Evandro, que perdem bastante protagonismo e com isso o jogo perde criatividade e variabilidade.

O jogo de ontem teve também dois factores que me agradaram. Desde logo a enorme vontade de defender onde se quer atacar. Várias vezes se viu uma primeira linha de pressão muito perto da área do Genk e, apesar de por vezes ser uma pressão muito descoordenada, também é verdade que o FC Porto conseguiu recuperar várias bolas já no último terço. O senão, para já, é que quando esta primeira zona de pressão foi batida, os extremos e os interiores demoraram muito a recuperar, o que rapidamente criou situações de inferioridade numérica, especialmente através de desequilíbrios na profundidade dos laterais adversários. O segundo factor positivo, foi o jogo que Rúben Neves fez. Incrível a facilidade com que varia o jogo, lateral e vertical, a simplicidade com que sai de situações complicadas. Parece que joga há vários a este nível, sempre com enorme facilidade em se ajustar para que possa receber e dar sempre uma saída de zonas de pressão. Tendo em conta a recente contratação de Casemiro é esperado que o Rúben fique a jogar na equipa B em vez de desperdiçar um ano a jogar nos sub - 19.

Domingo haverá mais um jogo. Com mais uma semana de trabalho, será possível verificar se estes comportamentos têm algum tipo de evolução para que a qualidade de jogo justifique o entusiasmo que para já se verifica.