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sexta-feira, 11 de março de 2016

Xavi. Porque quem sabe, nunca esquece

Porque é impossível esquecê-lo quando se pretende falar sobre aqueles que melhor representam o bom futebol. Talvez o mais claro exemplo futebolístico do génio que cria arte para os outros, antes mesmo de a criar para si próprio. O expoente máximo de uma geração espanhola que aprendeu a dominar o jogo através da simplificação de processos, e de uma filosofia que marcou o Barcelona na história do futebol.

Porque, valorizando-se tanto neste espaço a tomada de decisão e a criatividade no futebol, ele é uma referência incontornável. O derradeiro pragmático. Tudo o que faz tem a objectividade como prioridade máxima. Todas as acções que toma têm como grande objectivo aproximar a sua equipa do golo, da vitória. Toda a criatividade que apresenta possui naturalidade. A naturalidade de quem sabe que só tendo a bola pode brilhar. De quem a protege e guarda, portanto, de forma instintiva. De quem apenas a entrega em segurança, porque sabe que ela tem o poder de ser o elemento mais vital de todo o jogo. 

No Qatar, ao serviço do Al-Sadd, continua a fazer aquilo que melhor sabe fazer, e que faz como ninguém. Quem sabe, nunca esquece, e para quem joga o futebol como ele, a idade não é um problema.

Eis Xavi Hernández. Em vídeo. Porque é um crime para o futebol não podermos mais vê-lo nos grandes palcos, semanalmente.



quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Talisca e as decisões com bola


Talisca nunca foi, nem nunca será, um prodígio com bola. Não pela vertente técnica mas pela pobre perceção do jogo, continuamente exposta jogo após jogo, nas opções que toma. O lance em análise é um de muitos que poderiam ter sido escolhidos, foi-o pela clamorosa situação de potencial 1x0 que Talisca não viu:


Com mais ou menos golos, com mais ou menos passes vistosos, Talisca poderá continuar a mascarar as suas debilidades perante quem olha para o jogo de forma superficial. Esperemos que, aos poucos, o paradigma vá mudando e que a valorização se foque no importante e não na fotografia.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Agressividade, para que te quero

... para virtualmente nada, pelo menos no âmbito habitual do conceito. A agressividade é, 95% das vezes, entendida apenas como a intensidade com que um jogador enfrenta as disputas de bola. É tida em conta como algo extremamente positivo, merecedora até de ser aspecto diferenciador na escolha de quem joga. Quantas vezes não ouvimos o argumento: "ele tem que jogar porque é muito agressivo e vai a todas!". Quem joga a médio-defensivo por exemplo, não cumprindo este requisito, poucas oportunidades terá de jogar em equipas onde compita com um colega mais agressivo, mesmo apresentando outros argumentos.  É uma mentalidade que necessita urgentemente de ser alterada.

Vamos por partes. Consideremos uma tentativa de recuperação da bola. Existem vários fatores em jogo: zona do campo, equilíbrio da equipa, contexto numérico da situação, distancia das coberturas, colocação dos apoios em condução do portador. Mesmo que nem todos sejam ponderados de forma consciente, todos entram em equação, ditando o timing de entrada e abordagem ao desarme. Uma situação de inferioridade numérica requer uma abordagem diferente (mais contida) de uma situação de igualdade numérica. Um 3x2 onde o portador se encontra perto da linha lateral exige uma atitude diferenciada (colocação dos apoios a dar a linha) de um 3x2 onde o portador está no corredor central. A pressão a um dos centrais adversários perto da sua área com ou sem cobertura requer um comportamento diferente (tentativa de desarme vs orientação para fora). Um extremo canhoto a conduzir pelo flanco direito origina uma abordagem distinta (cobrir espaço interior) de que se fosse um destro. Basta pensar um pouco para concluir que em virtude de situações diferentes são necessárias soluções diferentes, o que por si só remete o índice de boas resoluções para a qualidade de decisão do jogador e não da agressividade em si. Ser agressivo é bom em determinados momentos mas a variedade de situações que surgem ao longo dos 90 minutos exige muito, muito mais que isso. Mais importante que ser agressivo é ser adaptativo. Está na altura de deixar de ver as coisas de forma simplista e reconhecer a complexidade do jogo.

Mas ser agressivo não tem (só) a ver com o ir a todas e entrar nos lances com uma atitude de vida ou de morte. Isso é apenas uma pequena fração do que realmente se passa no jogo. Ser agressivo é, acima de tudo, ser intenso na ocupação do espaço e rápido na tomada de decisão. De que vale ter um jogador que ganhe duelos individuais se metade das vezes não consegue reagir rápido o suficiente à mudança de contexto? Em poucos segundos, com uma perda de bola, um mau posicionamento de um colega ou um passe a romper a pressão, tudo pode mudar. Ser realmente agressivo é conseguir adotar o melhor comportamento, neste caso defensivo, para responder ao imprevisto, porque ser agressivo também é ser criativo.

Alterar o paradigma implica querer perceber o jogo para além do óbvio. Estar disposto a estudar as razões pelas quais o que acontece, acontece. Mas enquanto se continuar a exaltar jogadores por serem "agressivos" e não agressivos (no verdadeiro significado da palavra), pela emoção que dá vê-los mostrar em campo a sua garra, pouco mudará.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Criatividade, Espaço Entrelinhas e Outras Coisinhas

O lance que trago hoje para discussão diz respeito ao primeiro golo do Tottenham contra o Liverpool, a contar para a 25ª jornada da Premier League, num desafio em que os comandados de Mauricio Pochettino até acabaram por sair derrotados por 3-2. A finalização de Harry Kane, muito mal executada por sinal, é o que menos importa na jogada, por isso vamos concentrar-nos na construção da mesma, da autoria dos dois jogadores mais criativos do plantel, Eriksen e Lamela.


A jogada começa com a bola na posse do lateral direito Kyle Walker e a primeira nota positiva vai para a movimentação dos jogadores do Tottenham que, em vez de fazerem «campo grande a atacar», como mandam os livros, optam por aproximar-se, concentrando-se em redor de Walker e oferecendo-lhe linhas de passe próximas. Este movimento conjunto de aproximação ao portador da bola, juntamente com a circulação da bola sempre por dentro, obriga o meio-campo do Liverpool a ajustar o seu posicionamento e o espaço entrelinhas - o ouro, portanto! - fica então descoberto. Se se parar o vídeo aos 8 segundos, quando a bola sai dos pés de Lamela para Eriksen, a distância entre a linha defensiva e a linha média do Liverpool é por demais evidente. Aliás, diga-se que esta má articulação entre sectores é um defeito grave da equipa de Brendan Rodgers e tem sido uma constante, não só esta época, mas também durante grande parte da época passada; provavelmente para tentar resolver alguns problemas de controlo de profundidade que o Liverpool sentiu o ano passado, Rodgers pediu (e pede) à sua linha defensiva que não conceda tanto espaço nas costas, mas com isso só consegue que qualquer equipa, mesmo de menor qualidade, jogue com facilidade dentro do bloco e entre as linhas do Liverpool, já que o meio-campo continua a ter ordens para efectuar um pressing médio/alto. Mas isso são contas de outro rosário...Voltando ao lance em questão, a bola chega por fim a Eriksen, que toma a decisão que desbloqueia verdadeiramente toda a jogada. A tabela com Lamela, com o passe a entrar entre dois médios do Liverpool, é um gesto técnico relativamente simples, mas são poucos os médios ofensivos que, tendo outras opções, decidem forçar o jogo pelo corredor central, metendo a bola ali, no meio de um aglomerado de jogadores adversários. Outro jogador, menos imaginativo, provavelmente tinha optado por jogar no apoio recuado ou mesmo esperado pela subida do lateral, para tentar o overlap. Mas Eriksen não é um jogador qualquer e conseguiu a proeza de decidir rápido, bem e, ao mesmo tempo, com imprevisibilidade. A assistência de Lamela para Kane, atacando o lado esquerdo e depois fazendo a bola entrar do lado direito, apanhando os defesas em contra-pé, é muito boa, mas o mais difícil, que era colocar a bola na zona onde tudo acontece, estava feito.

Dois jogadores com uma criatividade acima da média, com três passes do mais simples que há, foram capazes de ultrapassar oito adversários e de colocar um colega numa situação de 1x1 com o guarda-redes. Oito adversários, repito, ou seja, mais de meia equipa! Muito mais do que passes longos vistosos, pedaladas, cabritos ou vírgulas, criatividade é isto. E uma equipa, não descurando obviamente outras formar de criar oportunidades de golo, nomeadamente através do jogo exterior, será tanto mais imprevisível e versátil a atacar, quanto mais capacidade tiver para recrear jogadas ofensivas deste tipo e quanto mais jogadores com a capacidade inventiva de Eriksen e Lamela conseguir reunir no onze.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Veloso e os Marcadores Somáticos

Tem sido amplamente discutida nos últimos dias a pertinência da decisão de Veloso nos primeiros minutos do Portugal - Alemanha, quando após roubar a bola a Lahm na primeira fase de construção alemã, e encontrando a defesa alemã inevitavelmente desequilibrada, opta pelo passe a Ronaldo. De forma geral, a decisão tem sido catalogada como errada. Consegue-se perceber porquê, mas será que chega a análise superficial?

Do ponto de vista meramente teórico, de situação de 3x2+1 em que os jogadores são meros intérpretes de uma situação hipotética, percebe-se quem defende o erro de Veloso. Ronaldo chega posteriormente, Almeida já lá estava. Almeida estava em zonas interiores (mais perto da baliza), Ronaldo recebe a bola na lateral e num ângulo desfavorável. Mertesacker comporta-se superiormente: perante a cobertura de Hummels encurta caminho ao portador e abranda ligeiramente quando sente o deslocamento de Ronaldo nas suas costas. E agora, Veloso?




Veloso opta por Ronaldo porque as decisões no futebol não acontecem ao acaso. No futebol, como na vida, no nosso subconsciente durante aqueles milésimos de segundos joga-se um jogo probabilístico e emocional de alta intensidade que tem tremenda influência quando somos forçados a tomar decisões deste calibre. A grande matriz impulsionadora desta tomada de decisão são as experiências anteriores que se fazem representar no nosso cérebro por marcadores somáticos, terminologia sustentada e superiormente defendida por António Damásio no seu Erro de Descartes. Isto parece fazer ainda mais sentido em algo tão imediato e tão rápido como uma decisão deste género: se para tomar a decisão o nosso cérebro precisasse de uma reflexão profunda sobre o assunto a oportunidade desvaneceria-se.


Os marcadores somáticos associam emoções e estados fisiológicos positivos a decisões. Se perante o estímulo da decisão x o meu colega falhar o golo no treino, e perante a decisão y em que eu opto por outro colega ele conseguir marcar, provavelmente eu optarei mais vezes pela decisão y. Associa-se a ela um estado fisiológico positivo, um marcador somático que marca positivamente aquela decisão. O contrário também se passa: se de todas as vezes em que eu tento fintar no treino perder a bola, ou receber feedback negativo do treinador, o marcador somático negativo associado a esse processo fará com que eu evite aquele comportamento. Se por outro lado eu tiver particular sucesso a rematar de fora da área, não preciso de incentivo: da outra vez correu bem, porque não? Isto explica, por exemplo, porque é que os finalizadores em crise de confiança evitam o remate, procuram situações alternativas, escondem-se desse momento do jogo.

Passando à situação concreta, eu tenho a ligeira desconfiança de que, não obstante todas as condicionantes,
das vezes em que o Veloso passou a bola a Ronaldo a equipa dele teve mais sucesso que quando resolveu entregar a bola a Hugo Almeida: marcador somático positivo associado a passar a bola ao Ronaldo.

E agora: Veloso decidiu bem ou mal?