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quarta-feira, 16 de julho de 2014

Retrospetiva do Mundial

Terminou a maior competição do panorama futebolístico. Foram 4 semanas de futebol, numa competição recheada de golos, surpresas, festa e com a confirmação que o antigo ditado ainda se aplica: "São 11 contra 11 e no fim ganha a Alemanha". Mas foi realmente este um dos melhores Mundiais de sempre? Vejamos: 

AS 4 SEMI-FINALISTAS

Das 4 equipas que chegaram às decisões finais, apenas uma apresentava um futebol de qualidade: a Alemanha. E aqui fala-se em futebol de qualidade com a premissa de ideias coletivas de valor, não da dependência de individualidades para atingir a vitória. 

Comecemos pelo 4º classificado: o Brasil. Desde o 1º jogo que os canarinhos apresentavam deficiências coletivas graves. Superioridade na zona da bola? Nem a defender, quanto mais a atacar. Apesar de não defenderem com referências individuais per se, em todos os jogos existiram uma mão-cheia de erros defensivos a surgirem da tentação de seguir o adversário e não a ocupação racional dos espaços. No ataque era cada um por si. A partir do momento em que a bola entrava num dos 4 homens da frente, o objetivo era sempre procurar espaços longe do portador, sem nunca haver a preocupação (e paciência) para procurar melhorar as circunstâncias do lance e os melhores timings de entrada. Além disso, a pressão a que os jogadores foram expostos antes e durante o Mundial pagou-se caro a partir do momento em que os erros começaram a sobrepor-se à qualidade individual dos jogadores. Os 10 golos sofridos nos últimos 2 jogos são uma consequência disso mesmo. Contra equipas mais competentes o véu caiu e deixou as (graves) falhas à mostra. Sem rumo nem capitão ao leme, os brasileiros caíram numa espiral negativa, orfãos da capacidade para se levantarem devido à falta de ideias coletivas de qualidade. Culpa de Scolari que nunca conseguiu dar à equipa princípios de jogo de valor, dum país que esperava demais daquilo que a seleção foi oferecendo e duma federação que se recusa a evoluir, como se copiar ideias de que faz as coisas bem fosse uma afronta.

A Holanda é um caso paradigmático deste Mundial. Equipa baseada (será "baseada" a palavra correta quando não sabiam fazer outra coisa?) em transições rápidas, foi avançando na competição pelas veleidades dadas pelos adversários. Mas uma coisa é verdade: com espaço, esta Holanda é muito perigosa. Van Persie é fantástico a movimentar-se e Robben foi figura maior duma equipa que jogava com o seu ADN. Mas... e quando não existia espaço para transitar em velocidade? Pois. As coisas complicavam e muito. Em organização ofensiva, a Holanda era extremamente previsível: bola num flanco, roda pelo trinco\centrais e bola para o outro flanco. Constantemente. A variação do centro de jogo é uma boa opção para abrir espaços no adversário. Mas tal só dá frutos se após a criação de espaço houver intenção de entrar pela zona central e desequilibrar em definitivo o adversário. Caso contrário é bola a rodar, sempre por fora do bloco, e cruzamento. E era isso que acontecia, com um rácio de aproveitamento claramente deficitário. Já defensivamente, o dedo a apontar a Van Gaal surge pelas marcações individuais (até no meio-campo!) dos seus jogadores. Ao defenderem com linhas recuadas e 3 defesas-centrais, promoviam a aglomeração de jogadores em zonas importantes. Mas isso não equivale a defender bem. Foram várias as vezes em que a defesa holandesa se viu aos papéis com o arrastar de marcações dos seus homens mais recuados. Não existiam referências zonais a ocupar e o foco era sempre o adversário. Para alguém que no passado deu passos tão importantes na evolução do futebol, Van Gaal deixou muito a desejar.

A Argentina foi um caso semelhante, em menor escala mas com um trunfo de peso: Lionel Messi. Sem ele, os argentinos não teriam conseguido chegar onde chegaram. Analisaremos a performance do astro argentino mais à frente, pois para já importa analisar a qualidade da equipa de Sabella... que não foi muita. Parecia um filme saído dum relvado dos anos 80. 3 ou 4 jogadores para atacar, os restantes para defender. Equipa completamente partida em transição e com extremas dificuldades em controlar os espaço a meio-campo pela falta de plasticidade da linha média. Com bola existiam boas intenções (portador com linhas de passe próximas, boa ocupação do espaço central, mobilidade dos apoios) mas nada de transcendente. E muitas vezes eram Lavezzi e Di Maria, no seu jeito desengonçado, que lá desequilibravam o adversário com a reconhecida facilidade no 1x1\2. A chegada à final foi feita constantemente no limite, com um único golo de diferença em todos os jogos. Salvou Messi mas os problemas eram visíveis e com a extraordinária qualidade individual presente na equipa, Sabella devia e podia ter feito muito mais.

A Alemanha foi consistentemente a melhor equipa deste Mundial. Com alguns defeitos sim, mas no panorama global mereceu ganhar a competição porque jogou o melhor futebol. São, a par da Espanha, o país com melhores perspetivas futuras em termos de jogadores e ideias de jogo. Nos primeiros dois encontros alguns erros posicionais em posse deixavam no ar dúvidas quanto ao controlo do espaço, com a equipa desequilibrada e sujeita a transições perigosas pelo mau posicionamento das suas peças. Mas rapidamente resolveram o problema. O controlo da profundidade a defender alto foi, para mim, o ponto alto desta seleção. Ofensivamente beberam daquilo que Guardiola deu este ano ao Bayern e construíram uma equipa forte em posse e mortífera em contra-ataque. Juntando a isso jogadores de craveira ao nível do melhor existe, as condições estavam criadas para se tornarem imparáveis. Especial menção para Muller e Lahm, dois portentos da inteligência que em qualquer posição do onze seriam considerados dos melhores do Mundo.

O MELHOR DA COMPETIÇÃO

A eleição de Lionel Messi como melhor jogador do Mundial deixou muitos surpresos e irritados. A mim não. Messi foi, ao longo da prova, o jogador que mais e melhor agiu nas mais variadas situações com que foi confrontado. Constantemente obrigado a lidar com lances de inferioridade numérica devido a um Modelo com princípios ultrapassados, fazia quase sempre a diferença e optava pela melhor decisão, mesmo que essa decisão implicasse não partir para o drible ou simplesmente manter a posse. Aproveitando a temática, no Lateral Esquerdo fizeram uma excelente análise. Recomendado. 

Um dos maiores argumentos usados para se justificar a "inferioridade" de Messi face a Maradona é o facto de Maradona ter "carregado" a equipa às costas para a vitória dum Mundial. Bem, Messi não ganhou o troféu mas fez exatamente o mesmo. Dentro daquilo que um único homem pode fazer face aos contextos apresentados pelo jogo, Messi deu à sua seleção a hipótese de lutar pelo título mais importante do futebol.. Não foi o melhor marcador, não foi o maior assistente, mas foi aquele que melhor resposta deu às condicionantes do jogo. E por isso merece, mais que qualquer outro, a nomeação de melhor jogador da prova.

A NOSSA SELEÇÃO

Portugal saiu do Mundial de cabeça baixa. Em terceiro lugar do grupo com 4 golos marcados e 7 sofridos, a seleção foi o espelho duma decepção há muito anunciada. Pouco interessa discutir a convocatória e os fatores externos condicionantes. Não foi por falta de vontade e empenho que Portugal caiu tão cedo. Foi por falta de ideias. Os erros cometidos pela equipa foram muitos, desde falta de criatividade da equipa em momento ofensivo até ao ridículo, quase caricaturesco, comportamento da linha defensiva. São tantas as dificuldades que fica no ar a dúvida até que ponto a federação dará liberdade a Paulo Bento para continuar no cargo nos próximos tempos. Já não existe a qualidade da altura de Deco, Rui Costa, Ricardo Carvalho, Figo, ou até uma base de jogadores que jogue junta e tenha boas rotinas (Porto 03\04) e isso exige ainda mais competência a quem gere o futebol nacional. Uma coisa é certa: se não houver mudança (não necessariamente no treinador mas na abordagem do mesmo) as coisas manter-se-ão na mesma.

Em jeito de conclusão, este Mundial foi para mim uma decepção. Equipas a jogar com princípios há muito ultrapassados só prejudica a evolução do futebol. O espectador gosta de golos e foi isso mesmo que houve, em fartura até. No entanto, não surgiram pela qualidade ofensiva das equipas mas pela desorganização defensiva latente. Foi uma prova nivelada por baixo e a análise deve ser feita em termos absolutos, não em termos relativos. Dizem que o clima afetou o futebol praticado. Não refutando esse facto, tal argumento não pode nem deve ser desculpa para a pobreza de ideias demonstrada na competição. Os próximos Mundiais serão na Rússia e no Qatar, dois países com climas ainda mais extremos que o Brasil. Como será aí então?

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Enzo Pérez

Enzo Pérez fez ontem o segundo jogo pela Argentina, depois de ter jogado 57min frente à Bélgica. E, surpresa surpresa, fez um grande jogo.

Enzo é fantástico em todos os momentos, mas em particular num: quando tem a bola e vê espaço para progredir. Bola colada ao pé, condução sempre (que possível) direcionada em direção à baliza e com um timing de passe só superado por Messi. Senão vejamos:



É incompreensível como Sabella apenas o vê como opção secundária quando ele é o médio mais completo da equipa. Di Maria e Lavezzi podem ser portentos nos duelos individuais mas Enzo também o é quando a situação assim o pede. E dá 10-0 no resto dos momentos aos acima citados.

Os problemas da Argentina já aqui foram analisados. Sabella, não há nada que saber: equipa em 4-4-2 losango, com Mascherano, Enzo, Gago e Di Maria como médios, Messi e Aguero (Lavezzi) na frente. Em Organização Defensiva, quando a bola estiver numa das laterais o interior desse lado sai ao portador, avançado do lado da bola a "abafar" e a impedir o passe recuado, médio-ofensivo corta linha de passe interior, médio-defensivo em cobertura orientado pelo referencial bola-baliza e interior do lado contrário a fechar ao meio. Com bola em zona central, médio-ofensivo baixa para a linha dos interiores a proteger o meio, um dos avançados saí na pressão e o 2º avançado equilibra a equipa em cobertura.

Mas mesmo que seja para manter o 4-3-3\4-4-2 na final, Enzo tem, indiscutivelmente, lugar. Veremos se contra a Alemanha Sabella voltará a deixar o seu melhor médio no banco.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Notas dos Oitavos-de-Final (2)

França-Nigéria

Mesmo sem Ribéry, por lesão, e Nasri, por motivos disciplinares, a França tem uma selecção de impor respeito a qualquer adversário. Tem organização, equilíbrio e bons princípios ofensivos, por isso Deschamps está de parabéns pela qualidade colectiva que conseguiu incutir na sua equipa. A nota só não é mais elevada, porque não me parece que ele esteja totalmente ciente de onde está a maior força da equipa: o meio-campo carece de imaginação e não tem soluções no banco que tragam algo de novo a esse nível (Gourcuff, infelizmente, já deu o que tinha a dar, e Grenier lesionou-se no estágio de preparação), pelo que é quase obrigatório que Valbuena, Griezmann e Benzema, os seus três jogadores mais criativos, joguem juntos na frente de ataque. Contudo, Deschamps não parece estar muito convencido de que essa é a melhor opção e tem tentado conciliar Giroud e Benzema no seu 4x3x3, com este último a fechar o flanco esquerdo. É uma hipótese, claro, porque Giroud é um jogador acima da média, mas Valbuena, Griezmann e Benzema entendem-se às mil maravilhas e tornam esta França uma equipa mais imprevisível e versátil, menos dependente das recuperações altas do meio-campo para criar perigo e mais competente a furar blocos baixos e densos. É verdade que foi com Valbuena, Benzema e Giroud que a França ganhou 5-2 à Suíça, mas esse foi um jogo atípico, em que os jogadores suíços baixaram os braços demasiado cedo devido à sucessão de erros individuais, pelo que deve haver algumas cautelas nessa análise. Neste jogo dos oitavos-de-final, embora tenha dado sempre a sensação de que a França estava a jogar em ritmo de passeio e que o aparente domínio da Nigéria era consentido, ficou bem patente aquilo que Griezmann é capaz de trazer a esta equipa, quando foi lançado aos 62 minutos: não só isolou Benzema no lance imediatamente anterior ao primeiro golo, como também esteve na jogada que deu origem ao autogolo de Yobo, tendo coincidindo a sua entrada em jogo com a fase em que a França puxou dos galões e mostrou toda a sua superioridade. Coincidência? Talvez sim, talvez não, mas acredito que muito do sucesso da França neste Mundial do Brasil vai depender da perspicácia de Deschamps no que toca a esta questão. De resto, há a salientar, pela negativa, a entrada bárbara de Matuidi sobre Onazi, que se o árbitro tivesse feito cumprir as regras e exibido o correspondente cartão vermelho directo, podia ter colocado a selecção gaulesa em grandes apuros, num jogo globalmente pouco conseguido.

Alemanha-Argélia

Tenho lido algumas análises a este jogo em que se diz que o resultado é tremendamente injusto e que a Argélia fez por merecer outra sorte. Concordo que os primeiros vinte minutos foram penosos para a Alemanha, muito por causa da abordagem arrojada e corajosa da Argélia, mas a partir daí, a Alemanha estabilizou o seu jogo, terminou a primeira parte claramente por cima e na segunda parte, só uma excelente exibição de Mbolhi (não o conhecia, mas o melhor elogio que lhe posso fazer é que foi o guarda-redes que mais me impressionou neste Mundial) permitiu à Argélia levar o jogo para prolongamento, o que já aí, a meu ver, não se justificava. Aliás, do lado dos argelinos, há que dizer que o único aspecto do seu jogo que merece elogios é a atitude ambiciosa, não tendo receio de pressionar alto uma selecção muitíssimo mais forte a todos os níveis. De resto, a organização defensiva não é brilhante, nem de perto nem de longe, e os processos ofensivos são algo rudimentares para esta fase da competição. Um conjunto de jogadores esforçados e com uma alma e uma crença enormes, mas não mais que isso e ficam pelo caminho quando tinham que ficar. Quer isto dizer que a Alemanha é uma equipa temível e que fez um grande jogo? Claro que não. Esta geração é provavelmente a melhor de sempre do futebol alemão, mas não tem uma liderança técnica à altura. Löw é alguém que aparenta ter boas intuições e privilegiar as coisas certas, mas depois tem opções técnicas incompreensíveis e dá ideia de querer copiar uma determinada matriz de jogo, mas sem perceber muito bem o que está a fazer. Por exemplo, o critério e a paciência na construção e o privilégio pelo corredor central para desenvolver os ataques parecem revelar que Löw conhece bem o tipo de jogadores que tem, mas que ideia é aquela de jogar com centrais adaptados a laterais? E largura e profundidade, quem dá? O resultado é uma equipa com algumas ideias, mas com um jogo posicional deficiente, com demasiados jogadores por dentro e à frente da linha da bola, o que não só emperra o processo ofensivo, como deixa a linha defensiva permanentemente exposta. Com Durm e Lahm nas laterais (ou mesmo Grosskreutz, se Löw quisesse manter o jogador do Bayern no meio-campo), esta Alemanha seria muitíssimo mais difícil de bater. Assim, não sei bem o que esperar, mas quem tem um leque de jogadores de tanta qualidade pode aspirar a tudo. Para concluir, não posso deixar de fazer dois destaques individuais: Neuer, pois foi muito por causa do seu exemplar controlo da profundidade (não há nenhum guarda-redes actualmente que faça tão bem de líbero como ele) que a Alemanha conseguiu asfixiar a Argélia na segunda parte e no prolongamento, e Müller, que é um jogador sensacional e que está a mostrar neste Campeonato do Mundo que, ao contrário do que se disse durante a época, pode muito bem ser o falso 9 que Guardiola tanto procura no seu Bayern de Munique.

Argentina-Suíça

Sob o comando de Sabella, a Argentina é um desastre à espera de acontecer. Além de ter um colectivo disfuncional em praticamente todas as fases do jogo, existem também lacunas individuais em alguns sectores, o que é inaceitável na selecção com uma das bases de recrutamento mais vasta: como se já não bastasse ter deixado de fora da convocatória Otamendi, Banega, Pastore, Gaitán e Tévez (podia ainda falar de Cambiasso e Zanetti, mas já nem vou por aí…), Sabella ainda se dá ao luxo de prescindir de Enzo, que é só o melhor médio que tem, e de ter entre as primeiras opções jogadores de qualidade discutível, como Romero, Fernández, Rojo, Mascherano (pelo menos como médio) e Maxi Rodríguez. O resultado é uma equipa mal distribuída em campo, com um bloco para defender e outro bloco para atacar, sem jogo interior e completamente «Messidependente», pois o astro argentino é o único que ainda vai tentando dar algum sentido a tanto desnorte. Perante tanta falta de qualidade colectiva, aproveitou a Suíça (que, é bom lembrar, conta nas suas fileiras com jogadores como Lichtsteiner, Ricardo Rodríguez, Inler, Xhaka, Mehmedi, Drmic e Shaqiri, entre outros) para causar embaraços à selecção alviceleste? Nem por isso, ou não fossem treinados por quem são. Defender com todos e atacar com três jogadores, é esta a receita de Ottmar Hitzfeld para o sucesso, seja em que situação for, por isso não admira que a selecção suíça tenha tido apenas duas oportunidades de golo em 120 minutos, contra um adversário que defende pior do que muitas equipas da Liga ZON Sagres. Assim sendo, a Argentina, mesmo com um futebol sofrível e muito aos repelões, lá foi construído sucessivas ocasiões de golo e o tento de Di María no último minuto do prolongamento só pecou por tardio. Agora vem a Bélgica, cujas individualidades ofensivas vão certamente dar as dores de cabeça que a Suíça não foi capaz de dar. Ainda sobre o extremo do Real Madrid, disseram os comentadores de serviço que foi o melhor jogador em campo. Não sei que jogo é que eles viram, mas acontece que Di María fez um jogo horripilante e só teria sido o melhor em campo se o objectivo do futebol fosse ver quem tomava as piores decisões e perdia mais bolas. Como não é, o melhor em campo foi, e a larga distância de todos os outros, Lionel Messi, que fez provavelmente o seu melhor jogo neste Mundial.


Bélgica-Estados Unidos

Num dos jogos mais emocionantes destes oitavos-de-final, Bélgica e Estados Unidos mediram forças, mas nenhuma das equipas me enche as medidas. Acho o trabalho táctico de Wilmots e de Klinsmann relativamente pobre, com a diferença que a Bélgica tem um conjunto de jogadores de fazer inveja a muitas selecções de maior reputação, nomeadamente a Portugal, e os Estados Unidos não. Deste modo, num jogo entre duas equipas sem qualidade colectiva assinalável (a organização e a transição defensiva dos Estados Unidos, por exemplo, são terríveis), o domínio avassalador da Bélgica acabou por ser natural, devido à maior valia individual que possui, e se os Estados Unidos não saíram deste jogo com uma derrota pesada, bem podem agradecer a Tim Howard, que rubricou a melhor exibição individual de um guarda-redes neste Mundial. Contudo, apesar do festival de golos falhados, a Bélgica nunca pareceu ter o jogo minimamente controlado e os Estados Unidos foram criando perigo aqui e ali, tendo mesmo, já com o jogo em 2-0 para a Bélgica, encostado os «Diabos Vermelhos» às cordas na segunda parte do prolongamento e não fazendo o empate por muito, muito pouco. Se uma equipa mediana como os Estados Unidos conseguiu expor as debilidades da Bélgica (dificuldades na gestão do jogo, mau jogo posicional, com o meio-campo e a defesa facilmente atraídos por referências individuais, etc), fará uma selecção com outros argumentos…Mas não sei se essa selecção será a Argentina. Em termos individuais, este foi, sem dúvida, o jogo dos craques incompreendidos: Lukaku e sobretudo De Bruyne têm mais do que lugar no Chelsea e Bradley e Dempsey são demasiado novos e têm demasiada qualidade para estarem exilados na MLS.


terça-feira, 24 de junho de 2014

Parabéns, Román.


Faz hoje 36 anos que nasceu um dos (poucos) jogadores que simboliza a  mística de um número composto por dois dígitos e que fazem o futebol ter sentido.
As palavras serão sempre insuficientes para descrever a classe dos seus pés e a magia da sua cabeça. Se me pedissem para referir um jogador que personifica tudo aquilo em que, futebolisticamente, acredito, só seria capaz de dizer : Riquelme.
A sua carreira sem títulos significativos, sem números representativos e sem clubes de referência que sustentam a designação "melhores de sempre" não conseguem contrapôr a certeza daqueles que acreditam na beleza pura (e rara) do futebol: da sua imprevisibilidade, da sua riqueza e até mesmo da sua ... facilidade.

Poucos mais há a dizer: Feliz Cumple, Señor Diez.


"Esta és una ovácion para el Señor Fútbol, esta és una ovácion para Juán Román Riquelme"


sábado, 21 de junho de 2014

O mutante amorfo de Sabella

Numa exibição cinzentona e reveladora de muitas fragilidades colectivas, a Argentina só não baqueou frente ao Irão de Queiroz por contar nas suas fileiras com um jogador capaz de desequilibrar o mais equilibrado dos jogos. Após 90' de dificuldades manifestas para circular a bola por dentro do bloco defensivo bem organizado do Irão, e para ter bola em zonas que não fossem aquelas em que o Irão estrategicamente definia como zonas 'permitidas' para o adversário ir tendo a bola, o génio do costume sacou um coelho da cartola a deu a vitória numa bandeja a Sabella que passou o jogo e a sua preparação completamente aos papéis.


Mas afinal, o que esperar de uma equipa que apresenta três disposições estruturais diferentes num jogo, e que inicia o jogo seguinte ainda noutra estrutura completamente diferente de qualquer uma das anteriores? Numa selecção com a variedade e quantidade de talentos individuais como os que Sabella tem à disposição, importa criar condições e ideias para que esta qualidade vá dando frutos e resolvendo jogos, mas Sabella esqueceu-se de trazer as ideias na bagagem na (curta) viagem ao Brasil. Os argentinos iniciaram o jogo frente à Bósnia num 5-3-2 muito pouco ortodoxo e racional na ocupação dos espaços. Inicialmente pela formatação e habituação que os olhos mais treinados podem ter ao jogo, parecia mesmo um 3-5-2, mas era só até percebermos que um dos defesas laterais era Rojo, que pelas suas características dificilmente poderia dar a profundidade que esse sistema pede à sua posição. À sua frente jogava Di Maria, que parece perder muito daquilo que melhor sabe fazer a médio interior, e Maxi Rodriguez, que jogou no Atlético Madrid e no Liverpool e que goza reforma antecipada, de volta ao seu país de origem. Na frente, dois nomes de peso: Kun Aguero e Messi.



Perante as dificuldades que ia tendo - só marcou de bola parada, que parece ter sido a única forma também de assustar o Irão hoje (quem tem Garay, Fernandez, Campagnaro ou Rojo arrisca-se a consegui-lo) - Sabella muda para o sistema que por definição parece no futebol actual ocupar melhor o espaço em todos os momentos, o 4-3-3. Soa quase como uma tentativa de ocupar espaços racionalmente e confiar no talento de quem lá está dentro... Passando por muitas dificuldades, vai segurando o jogo e Messi dá a estocada final na Bósnia. Nos minutos finais a Bósnia reduz e, receoso, faz entrar Biglia que fazendo uma dupla de dentes arreganhados na ponta da chuteira com Mascherano, em 4-2-3-1 sacode os fantasmas e faz a Argentina triunfar.


Foram visíveis ainda assim, nos minutos finais, lances em que a equipa a vencer 2-1 em cima do apito final defendia nos últimos 30 metros com... 6 jogadores: os quatro elementos da linha defensiva, Mascherano e Biglia. Isto ilustra um problema que o 5-3-2 de Sabella parece intensificar mais ainda: parece haver uma divisão demasiado declarada de quem ataca e de quem defende, existem jogadores que são passivos e ocupam zonas mais adiantadas no processo defensivo, e em construção as dificuldades em ligar o jogo são imensas.


Esta é, aliás, a prova de que as ideias (boas ou más) são na sua maioria transversais aos sistemas. Hoje a Argentina defrontou um Irão de linhas baixas e de espera num 4-4-2 com um duplo pivot defensivo (Gago e Mascherano), uma linha de quatro em que Rojo era novamente lateral, com Messi deslocado para um corredor lateral, Di Maria também por fora e na frente Higuain e Aguero. O resultado foi que a posse da Argentina foi absolutamente estéril por falta de referências interiores no processo criativo com bola. Messi bem tentava aproveitar a profundidade de Zabaleta e fugir para dentro por um espaço que chorava por ocupação, mas a Argentina ataca mesmo na maioria das vezes num gigante quadrado: duplo pivot, extremos bem abertos e dois avançados. Com uma circulação lenta e previsível, com os jogadores colocados por fora do bloco iraniano como queria Sabella fazer oscilar a estrutura adversária e resolver aquele puzzle? Mais exasperante que Sabella demorar até aos 77 minutos para mexer na equipa, e procurar que alguém ocupasse aquele espaço central de forma estrutural e como ponto de partida dos seus deslocamentos, só o facto de o ter feito tirando os dois avançados e mantendo a dupla Gago e Mascherano.


Facto curioso: foi o novo e primeiro habitante desse espaço táctico que marcou o golo que resolveu o jogo. Esqueçamos por momentos que se trata de um extraterrestre e lembremo-nos que apenas o conseguiu fazer partindo daquela zona. Fica a questão: quando as individualidades se equivalerem ou quando Messi não estiver lá para depois dos 90' resolver, como vai ser?