quinta-feira, 10 de julho de 2014

Enzo Pérez

Enzo Pérez fez ontem o segundo jogo pela Argentina, depois de ter jogado 57min frente à Bélgica. E, surpresa surpresa, fez um grande jogo.

Enzo é fantástico em todos os momentos, mas em particular num: quando tem a bola e vê espaço para progredir. Bola colada ao pé, condução sempre (que possível) direcionada em direção à baliza e com um timing de passe só superado por Messi. Senão vejamos:



É incompreensível como Sabella apenas o vê como opção secundária quando ele é o médio mais completo da equipa. Di Maria e Lavezzi podem ser portentos nos duelos individuais mas Enzo também o é quando a situação assim o pede. E dá 10-0 no resto dos momentos aos acima citados.

Os problemas da Argentina já aqui foram analisados. Sabella, não há nada que saber: equipa em 4-4-2 losango, com Mascherano, Enzo, Gago e Di Maria como médios, Messi e Aguero (Lavezzi) na frente. Em Organização Defensiva, quando a bola estiver numa das laterais o interior desse lado sai ao portador, avançado do lado da bola a "abafar" e a impedir o passe recuado, médio-ofensivo corta linha de passe interior, médio-defensivo em cobertura orientado pelo referencial bola-baliza e interior do lado contrário a fechar ao meio. Com bola em zona central, médio-ofensivo baixa para a linha dos interiores a proteger o meio, um dos avançados saí na pressão e o 2º avançado equilibra a equipa em cobertura.

Mas mesmo que seja para manter o 4-3-3\4-4-2 na final, Enzo tem, indiscutivelmente, lugar. Veremos se contra a Alemanha Sabella voltará a deixar o seu melhor médio no banco.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

A catástrofe brasileira: o rei vai nu

No futebol a equação está longe de ser simples, mas o jogo é uma amálgama de duas faces de uma mesma moeda: qualidade individual na resolução de problemas micro do jogo, princípios e ideias a sustentar uma intencionalidade colectiva na resolução de problemas de maiores dimensões.

Enquanto os adversários foram sendo a Croácia, o México, o Chile ou até a Colômbia, a maior qualidade individual brasileira em quase todos os sectores foi levando paulatinamente a água ao seu moinho, com maior ou menor dificuldade. As equipas de forma geral eram mais organizadas, mas quem tem Óscar, Hulk, Neymar ou Thiago Silva (entre outros) na resolução deste tipo de problemas de ordem mais reduzida arrisca-se a ganhar qualquer jogo.

Perante esta realidade, era fácil de perceber que quando este Brasil encarasse um adversário igualmente forte a nível individual e que a isso juntasse ideias, intencionalidade colectiva, que juntasse à capacidade de resolver problemas individualmente no centro do jogo (com e sem bola) a capacidade de pensar o jogo por um mesmo cérebro, as coisas podiam correr mal. Junte-se a isso um decréscimo significativo na qualidade individual, pelas ausências do jogador mais influente do sector defensivo (Thiago Silva) e do jogador mais influente do sector ofensivo (Neymar) e Scolari tinha uma bomba-relógio nas mãos.

Desenganemo-nos: nem a selecção alemã tem futebol suficiente para atropelar a congénere brasileira por 7-1, nem o troféu está entregue por ter acontecido este resultado. A aleatoriedade constitui uma parte considerável do jogo, e os golos surgiram hoje em momentos-chave, inquinando completamente o jogo à partida. Não sirva isso no entanto para ocultar que o rei da Copa, o penta-campeão mundial e todo poderoso Brasil, vai mesmo nu.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

A construção sem fim

A carreira de um treinador é madrasta para quem pretende alcançar a perfeição. Ao lidar frequentemente com situações fora do seu controlo e com a obrigação de muitas vezes encarar os objetivos propostos com armas inferiores ao que se precisa, surge a necessidade da reinvenção... constante. Lesões, castigos, vendas, seja o que for, haverá sempre algo a bloquear o sonho do jogar perfeito.

Vejamos a situação atual de Jorge Jesus no Benfica. Do plantel campeão do ano passado, Garay, Siqueira e Markovic (praticamente) já saíram. Rodrigo e André Gomes estão vendidos e o mais certo é ficarem de fora das opções para o plantel a curto-prazo. Oblak está com um pé no Valência e a situação de Enzo Perez e Gaitán continua por clarificar. Ou seja, do 11 base da época passada, Jorge Jesus pode vir a perder mais de metade.

No entanto, os objetivos mantêm-se: Campeonato, Taça e brilharete nas competições europeias. Dê por onde der, Jesus vai ser obrigado a reconstruir ideias e princípios de jogo, com 95% de certezas que a qualidade global do plantel deste ano vai ser inferior ao do anterior que foi, provavelmente, o melhor desde que chegou ao Benfica.

Tendo Jesus até agora nunca abdicado do deu 4-4-2, fica no ar a dúvida de como irá organizar as ideias do seu Benfica. Taticamente, o ano passado foi o melhor até agora, até porque a qualidade individual dos jogadores assim o proporcionou. Talvez a melhor equipa da Europa a defender com poucos elementos, essa qualidade permitia ao Benfica atacar com muitos, mantendo o equilíbrio no momento da perda e reagia invariavelmente da melhor maneira. Mérito do treinador e da capacidade de adaptação dos jogadores às situações de jogo.

Uma das grandes evoluções do Modelo de Jesus no último ano foi ter os médios-ala mais próximos do centro do terreno. Existiam mais opções por dentro, os laterais davam largura e o jogo benfiquista fluía duma maneira que não era vista desde 09\10. Grande parte desse salto qualitativo foi ter Markovic e Gaitán nos flancos, jogadores que pelas suas características "obrigaram" a essa mudança. Era notório, por exemplo, aquando da entrada de Salvio no onze, o decréscimo no jogar do Benfica. O argentino procura mais situações de 1x1, muitas delas em direção à linha final e apesar de dar mais verticalidade perde noutros (vários) momentos para o sérvio. Saindo Markovic e Gaitán, Jesus será obrigado a criar princípios que retirem o melhor dos novos titulares, mas fica a dúvida se isso irá obrigar a um jogo ofensivo mais largo, com apoios mais distantes, e por consequência, com menos controlo da Transição e dos espaços.

Quantos dos que saíram (ou sairão) apanharam Jesus de surpresa? E para colmatar essas saídas, quantos dos que chegaram (ou chegarão) são exatamente aqueles que o treinador pediu? Assim é a vida de um treinador. Fatores internos e externos obrigam a haver uma constante renovação nas ideias de jogo, adaptando-se às circunstâncias e sempre com os objetivos lá em cima. Difícil? Sim. Apaixonante? Sem dúvida. É um trabalho sem fim, com um objetivo utópico e que por muito complicado que seja a certas alturas, é como uma droga: quanto mais se entranha mais falta se sente quando não lá estamos.

sábado, 5 de julho de 2014

Até uma próxima

Mais um jogo a roçar a perfeição de James Rodríguez. Criatividade, criatividade e mais criatividade. Cada toque na bola é um aproximar do que pode vir a ser mágico:


Hoje despede-se do Mundial do Brasil um dos seus maiores intérpretes. 6 golos marcados e uma chegada aos quartos de final com uma seleção que não tem ninguém sequer perto do seu nível. Felizmente, os golos que marcou dar-lhe-ão uma notoriedade internacional que já faltava a um dos maiores prodígios do futebol atual. Que vá para um clube ao seu nível e consiga conquistar títulos verdadeiramente importantes que tamanho talento merece.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Os desequilíbrios da Alemanha

É das ideias de jogo que mais me agrada, aquela que apresenta a Alemanha. Tem como intenção ser dominadora com a bola e criar desequilíbrios nas estruturas adversárias através de uma circulação variada mas, sempre com maior valorização do corredor central. Faz uso dos movimentos horizontais de Muller e da movimentação profunda dos interiores, para que Özil e Götze possam jogar no meio e assim combinar através de tabelas e entradas em profundidade. Teriam ainda mais variabilidade e qualidade ofensiva se tivessem dois laterais que oferecessem profundidade ao jogo alemão (incrível a diferença do jogo alemão com Lahm a lateral). No entanto, e curiosamente, pode ser o momento ofensivo o principal responsável para que a Alemanha não vá mais longe.

Para que uma equipa possa ganhar com maior regularidade é necessário que haja equilíbrio, principalmente em Organização Ofensiva, se este princípio não for respeitado o jogo torna-se mais partido, menos controlado pelas equipas que assumem a posse como intenção para desequilibrar o adversário. Para que haja equilíbrio é necessário que as equipas saibam que, tirando as situações de golo, o próximo passo é perder a bola portanto, é necessário que cada perda de bola não resulte numa situação potencial de golo para o adversário, como aconteceu na primeira parte contra a Argélia. 



Este é um dos factores que provoca os desequilíbrios no momento de perda da Alemanha, nos corredores laterais, e particularmente no último terço, raramente criam apoios por trás da linha da bola, o que torna difícil recuperar a bola na zona da perda ou, pelo menos, condicionar o primeiro passe da equipa adversária. Foi assim que a Argélia criou tanto perigo, roubo nos corredores, onde os laterais tinham muitas dificuldades, e depois um passe longo a sair da zona onde tinham roubado a bola. Valeu Neuer.


Valeu Neuer a compensar os constantes erros de posicionamento dos centrais quando a Alemanha tinha a bola no último terço, sempre muito longe entre eles, sem pensarem no momento da perda. Apesar das imagens serem relativas a apenas um lance de perigo da Argélia, estes erros foram uma constante no jogo da Alemanha e se, neste jogo Neuer chegou para segurar a Alemanha no momento da perda, o mesmo não se vai verificar de certeza contra a França.

Para além deste ponto, do momento da perda, há mais dois que devem merecer reflexão para Löw, estes no momento de Organização Defensiva. Em primeiro lugar, o comportamento da linha defensiva quando o portador da bola não se encontra pressionado, mantém-se sempre muito alta. O outro factor que merece reflexão é a dificuldade que os extremos apresentam para ajustarem o seu posicionamento quando a equipa adversária troca rapidamente o corredor, é muito fácil criar situações de 2x1 contra o lateral alemão.

Acredito que se estes comportamentos não forem alterados veremos no próximo jogo uma Alemanha a passar por grandes dificuldades.