sexta-feira, 7 de julho de 2017

Craques na Sombra (1)

O "Com Pés e Cabeça" tem o prazer de anunciar a criação de uma nova rubrica: Craques na Sombra. Em linhas gerais, esta iniciativa procura referenciar positivamente, em jeito de homenagem, jogadores de inegável qualidade que, pelas circunstâncias mais diversas – a maior parte delas fora do seu controlo – acabaram por ter carreiras afastadas dos grandes palcos. Fundamentalmente, acredita-se que um jogador de futebol não é o que é, pura e simplesmente, e que o contexto envolvente assume muitas vezes um papel decisivo no seu sucesso ou insucesso: sim, a linha que separa um percurso genial de um percurso normal é mais ténue do que se possa pensar…
Antes de mais, devo confessar que, até há relativamente pouco tempo, não conhecia o jogador que merece a honra de protagonizar a primeira edição desta rubrica; chamou-me à atenção pela primeira vez no início da época que agora findou, ao serviço de uma das equipas revelação da liga espanhola, e desde então tenho procurado acompanhá-lo com atenção redobrada.
Pequeno, franzino, com um bigodinho a adornar-lhe o lábio superior e cabelo esticado para trás com gel, é difícil não sentir, ao vê-lo dominar a zona da meia-lua com aparente facilidade, uma certa nostalgia daqueles "jogadores à moda antiga" que preenchiam o nosso imaginário do futebol de antigamente; não o vi jogar, mas gosto de acreditar que, por exemplo, Luis Suárez, o lendário médio do Barcelona e do Inter conhecido como El Arquitecto, teria um carisma, uma aura e uma personalidade semelhantes.
O seu futebol, no entanto, não tem nada de antigo ou de ultrapassado, bem pelo contrário. Podia falar dos excelentes atributos defensivos – da forma como lê e antecipa os lances, da colocação dos apoios, do tempo de desarme, da agilidade – ou mesmo do estilo brigão que faz as delícias dos adeptos, mas são meros fait-divers quando comparados com o que verdadeiramente faz dele um jogador diferente, que é o que faz com a bola nos pés. Dono de um sentido posicional invejável, o que lhe permite acompanhar as jogadas de perto e ser um primeiro apoio para tirar a bola da pressão, é mentalmente muito forte e gosta de ter a bola nos pés e de pautar os ritmos de jogo da equipa. É daqueles médios em quem os colegas confiam, entregando-lhe a bola mesmo estando rodeado de adversários, porque sabem que não a vai perder. Recebe, rodopia no meio da molhada e solta. Isto é, solta se isso for a melhor opção, senão fica com a bola. E se assim for, depois não há ninguém que lha tire! O critério das suas decisões é notável e a exploração dos apoios verticais para quebrar linhas adversárias, colocando a bola nas costas da pressão, do melhor que há por aí.
Aliás, embora jogue mais recuado, como médio defensivo, o seu futebol, que basicamente consiste em tomar a melhor decisão possível a cada momento, faz-me lembrar, em larga medida, Xavi Hernández. A propósito do médio do Barcelona, há quem seja da opinião de que Xavi chegou onde chegou e teve a carreira que teve porque tinha qualidades que mais ninguém tinha. Discordo completamente disto. Não porque não reconheça a Xavi uma categoria absolutamente fora do comum, mas porque médios com a sua inteligência, criatividade, classe, qualidade de passe e finura técnica sempre existiram na história do jogo. Sempre. Xavi é extraordinário, mas não é único. Simplesmente teve a felicidade de estar no sítio certo e na altura certa quando Pep Guardiola assumiu o comando do Barcelona em 2008, o que permitiu dar ao seu jogo um sentido e uma dimensão que não tinha até então, mas estou plenamente convencido de que muitos excelentes jogadores de quem hoje pouco ou nada se fala, se tivessem podido jogar naquela que foi, para mim, a melhor equipa de sempre, teriam atingido um nível e um reconhecimento idênticos ao de Xavi. É, na minha opinião, o caso do jogador de que falo. E também de Iván de la Peña, de Juan Carlos Valerón e de tantos outros, mas isso fica para outro texto…
Os mais atentos já terão adivinhado de quem falo, mas agora que abandonou o futebol espanhol para, aos 28 anos, abraçar um novo desafio na mais mediática Premier League, parece-me a altura apropriada para destacar o pequeno grande jogador que é…Roque Mesa.

domingo, 2 de julho de 2017

Coisas que se passaram em 2016/2017

I. Se há sensivelmente um ano e meio se afirmasse que o Benfica de Rui Vitória iria sagrar-se bicampeão e confirmar definitivamente a hegemonia interna do clube da Luz, muito boa gente (eu incluído) rir-se-ia com gosto. Mas, ao contrário de quase todas as expectativas, foi isso mesmo que aconteceu. Por aqui, ainda que se considere que o atual treinador do Benfica beneficiou de uma conjuntura algo favorável, sobretudo neste segundo ano, com um plantel vários furos acima da concorrência e uma estrutura do futebol consolidada, há que reconhecer que se o Benfica evoluiu de um coletivo totalmente disfuncional, com cada um a correr para seu lado, para uma equipa organizada e que dá liberdade aos jogadores mais talentosos para soltarem o seu futebol, também o deve ao trabalho de Rui Vitória e da sua equipa técnica. O mérito a quem o merece.

II. Sem querer “fazer prognósticos à segunda-feira”, sempre me pareceu que a decisão de entregar um plantel com tantos executantes de qualidade a um treinador com a matriz de jogo de Nuno Espírito Santo tinha tudo para correr mal. O Porto viu-se eliminado das taças internas e da Liga dos Campeões demasiado cedo – é verdade que aqui caiu aos pés da futura vice-campeã, mas apenas porque falhou pateticamente o primeiro lugar num grupo facílimo – e essa circunstância permitiu-lhe concentrar-se exclusivamente no campeonato e disputá-lo quase até ao fim, mas nem esse facto apaga a pálida imagem deixada pelos pupilos do ex-treinador de Rio Ave e Valência ao longo de toda a temporada. Com um sistema de jogo rígido e um futebol retilíneo e aos repelões, que não potenciava minimamente a qualidade individual existente, só por um acaso do destino o desfecho podia ser outro que não zero títulos e o despedimento do treinador.

III. Se em relação ao Porto de Nuno Espírito Santo as expectativas não saíram propriamente defraudadas, porque não se esperava muito do protegido de Jorge Mendes, o mesmo não se pode dizer do Sporting de Jorge Jesus, que depois de bater o recorde de pontos do clube e de perder o título por uma unha negra em 2015/2016, tinha tudo para manter a toada em 2016/2017, pese embora as vendas de João Mário e Slimani. Mas o que se viu foi um Sporting que, em janeiro, já só tinha o campeonato para disputar, sendo que nem nesta competição se apresentou competitivo, tendo ficado a 12 pontos do primeiro lugar e tendo encaixado uns incríveis 36 golos em 34 jogos! Além da crença de que é tão competente que até com três ou quatro marretas na linha defensiva consegue colocar uma equipa a defender bem, o erro capital de Jorge Jesus foi ter abdicado de praticamente tudo o que de bom construiu na temporada transata para tentar encaixar Bas Dost e Gelson Martins no onze titular. Ao avaliar – erradamente – o incrível ponta de lança holandês como “um pinheiro” e ao querer fazer de Gelson o principal (e único?) motor ofensivo da equipa, Jorge Jesus modificou posicionamentos e movimentações que tinham funcionado no passado, para que a bola passasse a entrar nestes dois jogadores nas melhores condições possíveis. É verdade que, com isso, conseguiu fazer de Gelson um dos jogadores mais influentes do campeonato e de Dost o melhor marcador destacado, mas…à custa de quê? De um Sporting mais desequilibrado atrás, com laterais e médio defensivo muitas vezes expostos devido ao posicionamento excessivamente largo dos extremos, e mais previsível no último terço, com a bola a entrar sempre nos mesmos espaços e sempre da mesma forma. Em suma, uma época falhada e que deve fazer refletir seriamente os responsáveis leoninos.

IV. A Premier League, por todas as razões e mais algumas, era a competição sobre a qual recaíam todos os olhares e o melhor elogio que se pode fazer é que não defraudou em nada as expetativas. Na ressaca de uma Premier League completamente atípica, com o inesperado Leicester a sagrar-se campeão, assistiu-se desta feita a um campeonato bem disputado, nivelado por cima, taticamente mais rico do que é habitual (a título de exemplo, Chelsea, Tottenham, Manchester City e Arsenal jogaram regularmente com três defesas, uma autêntica raridade em solo britânico), com a maior parte das principais equipas a melhorarem as respetivas pontuações e classificações. Aliás, a ordem do top 6 foi justa e refletiu, de um modo geral, a qualidade de jogo apresentada pelas equipas: um Chelsea à imagem do seu treinador, ou seja, organizado sem bola e cerebral com ela, que é meio caminho andado para ter sucesso em Inglaterra; um Tottenham superiormente trabalhado por Mauricio Pochettino, mas que revelou alguma falta de tarimba e experiência nos momentos decisivos; um Manchester City a praticar, a espaços, o melhor futebol da prova, mas penalizado pela extrema irregularidade exibicional; um Liverpool com boas intenções, mas contagiado pela vertigem do futebol inglês e com um plantel curto para ambicionar a mais do que o 4º lugar; uma das piores versões do Arsenal de que há memória na era Wenger e que ficou naturalmente fora dos lugares de acesso à Liga dos Campeões, pela primeira vez em muitos anos; e, por fim, um Manchester United mais ofensivo do que se esperava, atendendo ao historial recente de José Mourinho, mas a demonstrar que ter muito volume de jogo não é igual a ter bom volume de jogo, como atestam os apenas 54 golos marcados (menos 25/30 golos do que as cinco equipas que ficaram à sua frente!) e os 15 empates concedidos em 38 jogos.

V. Em Espanha, o Real Madrid venceu finalmente o campeonato, que lhe fugia há quatro épocas, e juntou-lhe ainda a segunda Liga dos Campeões consecutiva, um feito inédito na história recente da competição. Tenho lido análises diametralmente opostas sobre os méritos de Zinedine Zidane – por um lado, há quem sustente que o treinador teve pouca ou nenhuma influência nestas conquistas e, por outro lado, há quem seja da opinião que quando se ganha troféus tão prestigiados, tem que haver necessariamente competência do treinador. A minha opinião estará algures no meio: não concordo, de todo, com a segunda premissa, mas tenho que admitir que nunca tinha visto um Real estrategicamente tão bem preparado para os jogos decisivos (nem com Mourinho), pelo que me parece justo afirmar que também houve dedo de Zidane na excelente época do conjunto madrileno. Porém, a meu ver, o fator realmente diferenciador foi mesmo o incrível plantel do Real, o mais bem apetrechado do mundo nos dias que correm e certamente um dos melhores da história do clube. Quanto ao Barcelona, bastará uma frase para resumir o que foi a época blaugrana: nem a genialidade de Messi foi suficiente para evitar a mais que anunciada derrocada do Barcelona de Luis Enrique.

VI. Na Serie A, o trabalho de Massimiliano Allegri na Juventus não pode ser menosprezado – em três anos, três dobradinhas e duas finais da Liga dos Campeões! – mas tenho para mim que qualquer treinador minimamente competente, ao herdar a máquina bem oleada deixada por Conte, teria conseguido um pecúlio semelhante, pelo menos a nível interno. O desnível individual em relação às restantes equipas é abissal e a organização estrutural do hexacampeão não tem par em Itália. Do meu ponto de vista, o treinador que importa destacar em terras italianas é Mauricio Sarri, cujo Nápoles apresenta um dos modelos de jogo mais completos e complexos da atualidade e que está em crescendo de época para a época. Aliás, não é de agora que acho o Calcio um campeonato extremamente subvalorizado: apesar da hegemonia da Juventus nos últimos anos, é uma prova que se caracteriza pela abundância de treinadores com propostas de jogo interessantes (Sarri, Paulo Sousa, Eusebio Di Francesco, Spaletti, Montella, Pioli, Gasperini, etc), pela variabilidade táctica e pela qualidade dos espectáculos. Para que haja maior alternância no campeão, só falta mesmo uma capacidade de investimento ao nível do que acontece atualmente na Premier League e na La Liga, de forma a que as principais equipas se possam aproximar do nível da Juventus, mas acredito que, com a entrada em força de capital chinês, não deverá faltar muito para que o salto qualitativo aconteça.

VII. Em relação ao sempre polémico tema da Bola de Ouro, neste momento restam poucas dúvidas de que Cristiano Ronaldo arrecadará, pela quinta vez, o conceituado galardão. E este ano, ao contrário do que aconteceu em 2016, não tenho muito a obstar: é indesmentível a preponderância de Ronaldo para as conquistas do Real Madrid, nomeadamente na Liga dos Campeões (recordo que Ronaldo marcou 10 golos nos 7 jogos da fase a eliminar, a maior parte deles decisivos!), e esse critério, ainda que não seja o meu, é perfeitamente aceitável e defensável. O meu único lamento, quando ainda faltam 6 meses para o prémio ser atribuído, prende-se com o facto da unanimidade em torno da justiça de novo triunfo do melhor jogador português de sempre não fazer jus a mais uma sensacional época de Lionel Messi, que levou o Barcelona às costas até quando lhe foi humanamente possível: no fundo, a prestação do craque argentino justificava claramente uma maior dose de emoção e incerteza na hora de entregar a Bola de Ouro.

VIII. Contrariamente às previsões da maioria dos comentadores desportivos, para quem a vitória de Portugal na Taça das Confederações era praticamente um dado adquirido, a seleção portuguesa acabou por não ir além das meias-finais, tendo caído perante o Chile, no desempate por grandes penalidades. O desfecho não me surpreendeu, tal como não me surpreenderá se Portugal tiver uma participação relativamente modesta no Mundial do próximo ano. O que vou dizer certamente escandalizará muitas pessoas, mas cá vai: Portugal não tem um modelo de jogo consolidado e comum a todos os escalões (e tinha condições para o ter), não está sequer a procurar fazer a imprescindível renovação de valores (e tinha condições para a fazer) e o que aconteceu é que se limitou a ganhar uma competição a eliminar da mesma maneira fortuita que, por exemplo, o Chelsea de Di Matteo também ganhou uma Liga dos Campeões, ou seja, com uma abordagem de risco mínimo, alguma qualidade individual e uma improvável e irrepetível conjugação de fatores que não pode controlar. Obviamente, nada disto é sustentável a médio/longo prazo – como ficou evidente nesta Taça das Confederações, em que só por manifesta infelicidade o Chile, uma seleção teoricamente do nosso nível, não resolveu a questão no tempo regulamentar – e se nada de verdadeiramente significativo se alterar até lá, temo bem que as fragilidades desta seleção ficarão à vista de todos no Mundial de 2018.

domingo, 11 de setembro de 2016

O Derby de Manchester


O Manchester City de Pep Guardiola e o Manchester United de José Mourinho defrontaram-se ontem, em Old Trafford, no duelo mais mediático da 4ª jornada da Premier League. O Manchester City, estruturado em 4-3-3, alinhou com Bravo (em estreia absoluta pelo novo clube); Sagna (uma meia-surpresa, já que se esperava a titularidade de Zabaleta), Stones, Otamendi e Kolarov; Fernandinho, David Silva e Kevin De Bruyne; Sterling, Nolito e Iheanacho (rendeu o castigado Agüero), enquanto o Manchester United, em 4-2-3-1, apresentou De Gea; Valencia, Bailly, Blind e Shaw; Fellaini e Pogba; Mkhitaryan (no lugar de Mata), Lingard (no lugar de Martial) e Rooney; Ibrahimovic. Uma constelação de estrelas, portanto, com dois treinadores de classe mundial no banco de suplentes e um ambiente incrível nas bancadas.

Embora os minutos iniciais do Manchester United tenham sido prometedores, com a atitude mandona que se exige à equipa que joga em casa, foi sol de pouca dura, pois o Manchester City, após um período inicial de algum nervosismo, estabilizou e arrancou para uma primeira parte de grande nível: com bola, um ótimo jogo posicional, com linhas de passe e posicionamentos bem definidos a cada momento, para permitir à equipa evoluir no relvado de forma apoiada; sem bola, uma pressão altíssima e sufocante, a “abafar” por completo os comandados de Mourinho, que se afundaram no campo e foram incapazes de ligar três passes seguidos por largos períodos de tempo. Otamendi e Stones fortíssimos na antecipação e no encurtamento dos espaços, David Silva a encher o campo com a sua movimentação e qualidade a gerir ritmos e Iheanacho a fazer um bom trabalho a ligar setores e a segurar a bola para a equipa subir em bloco. Foi por isso com naturalidade que o City se adiantou no marcador, aos 15 minutos, por intermédio de Kevin De Bruyne, num lance, porém, algo incaracterístico, a fazer lembrar o mítico “kick and rush” britânico – bola longa de Kolarov, Iheanacho, em apoio, amortece para De Bruyne, que ataca a profundidade, dribla Blind e finaliza com classe. A toada manteve-se e, aos 36 minutos, Iheanacho ampliou a vantagem, numa recarga a um remate ao poste de De Bruyne. O intervalo aproximava-se a passos largos e o City tinha o adversário completamente manietado, mas um erro do estreante Bravo (um dos muitos disparates que fez ao longo do jogo, diga-se) alterou por completo as coordenadas de uma partida aparentemente controlada; num livre lateral batido por Rooney aos 42 minutos, Bravo quis ir buscar uma bola que não era sua, chocou com Stones e deixou a bola à mercê de Ibrahimovic que, com a qualidade na execução que todos lhe reconhecem, fez o 1-2. Aí, o United galvanizou-se e, ainda antes de Mark Clattenburg apitar para o descanso, o extraordinário avançado sueco teve nos pés o empate, mas falhou clamorosamente.

Após o intervalo, Mourinho fez duas substituições (Rashford e Herrera entraram para os lugares de Mkhitaryan e Lingard) e modificou também alguns posicionamentos, com Rooney e Rashford a fecharem os corredores laterais, Fellaini mais próximo de Ibrahimovic e Herrera e Pogba no duplo pivot, mas também bastante subidos. Beneficiando de um pressing mais alto e de um jogo mais direto, o United começou a criar mais dificuldades ao City, com algumas recuperações altas perigosas, mas Guardiola respondeu rapidamente, fazendo entrar Fernando para o lugar de Iheanacho e alterando o sistema de jogo para uma espécie de 4-6-0, sem uma referência fixa na frente. A ideia era boa – assegurar novamente a superioridade numérica no miolo e retirar as referências à linha defensiva do United, para aproveitar o espaço existente nas costas da pressão – mas não funcionou em pleno, pois, sem Iheanacho na frente a fornecer os apoios verticais e com Nolito e sobretudo Sterling muitas vezes incapazes de dar a melhor sequência às jogadas, o City começou a perder muito bolas no último terço e deixou-se mesmo encostar às cordas em alguns momentos. Nesta fase, o jogo “partiu” completamente e tornou-se numa partida de parada-resposta típica da Premier League, ou seja, com “bola cá bola lá”, uma intensidade altíssima e ambas as equipas a beneficiarem de oportunidades para fazer, quer o 1-3 (De Bruyne enviou outra bola ao poste e David Silva, à entrada da grande área, atirou a rasar a barra), quer o 2-2 (Ibrahimovic, a passe de Rashford, mandou por cima da baliza, já bem dentro da grande área, e Rashford chegou mesmo a introduzir a bola na baliza, mas o golo foi invalidado, por fora-de-jogo posicional de Ibrahimovic), bolas paradas à parte. Contudo, o resultado manteve-se inalterado até final e o City saltou para a liderança isolada da Premier League (4 vitórias em outros tantos jogos), em mais uma vitória de Guardiola sobre Mourinho, a 8ª em 17 confrontos entre os dois treinadores.

Resumindo, a vitória tangencial dos pupilos de Pep Guardiola espelha bem o que se passou em campo: o City foi muitíssimo superior na primeira parte e justificou plenamente a vantagem, o United equilibrou a contenda na segunda parte e criou algum perigo, mas nunca conseguiu impedir o City de continuar a criar oportunidades em transição ofensiva, pelo que o resultado ajusta-se perfeitamente. De salientar também os diferentes estados de maturação dos dois modelos de jogo: enquanto na equipa de Guardiola já existe uma ideia de jogo clara (os posicionamentos para sair a jogar já estão bem oleados, bem como os timings e referências de pressão, e com alguns jogadores a conseguirem já associar-se entre si), do lado oposto, honestamente vê-se pouco trabalho tático, com uma organização defensiva, no máximo, razoável, um par de combinações ofensivas mais ou menos mecanizadas e pouco mais. Muito esforço, mas poucas ideias, pouco pensamento coletivo, pouco entrosamento entre os jogadores…José Mourinho tem ainda muito trabalho pela frente se quer colocar o United a lutar pelo título até ao fim.


Individualmente, do lado do Manchester City, há dois destaques óbvios: Otamendi, imperial na primeira bola, com uma leitura superior dos lances e quase sempre com critério a sair a jogar, e o formidável David Silva, provavelmente o melhor jogador de futebol dos vinte e dois que subiram ontem ao relvado. Fernandinho, Kevin de Bruyne e Stones a muito bom nível também. Do lado do Manchester United, como a organização coletiva não está ainda no ponto que Mourinho certamente deseja, as exibições individuais ressentiram-se, mas Bailly (sempre no caminho da bola) e Pogba (há quem diga que fez uma exibição discreta, mas o seu jogo ganha maturidade quando atua em posições fora do bloco e que exigem decisões mais criteriosas e seguras) foram os elementos em maior evidência. Ibrahimovic sempre inconformado e boas entradas de Rashford e Herrera, a mexerem com o jogo e a justificarem uma aposta mais regular.

No que toca à arbitragem de Mark Clattenburg, pese embora as críticas de José Mourinho, na verdade ficou um penalty por marcar para ambos os lados: aos 55 minutos, Bravo tenta fintar Herrera, adianta a bola em demasia e atinge Rooney; e aos 70 minutos, num lance confuso na pequena área do United, Bailly atropela Otamendi e impede-o de disputar a bola em condições.

Uma incrível Premier League em perspectiva, com todas as condições para a cidade de Manchester se assumir como o centro do universo futebolístico...Para já, neste duelo de titãs, Guardiola ganhou o primeiro round.

quarta-feira, 13 de abril de 2016

O meu modelo de jogo é melhor que o teu?

“Vibram os arautos do andamento
com o aumento da correria
p’ra eles aí reside o talento,
o jogo esse virou porcaria!

Jogadores de futebol
de atletas travestidos,
dando à correria lugar-ao-sol
o futebol fodem e são fodidos!”


(Frade, 2014)


Há inúmeras formas de chegar ao sucesso, na mesma medida em que o sucesso pode ter inúmeras formas.

Linha defensiva em controlo da largura e da profundidade. A entender os espaços que tem de fechar, e as trocas posicionais. Linha de fora-de-jogo definida pelo homem da cobertura. Em caso de desequilíbrio, homens mais próximos a fechar corredor central e a obrigar adversário a jogar por fora. Linhas próximas, mais atrás ou mais à frente, mas sempre próximas. Zonas de pressão definidas, condicionar o portador da bola e ser sempre agressivo quando adversário recebe de costas ou bola pelo ar. Baixar para trás da linha da bola na transição defensiva. Com bola? Jogar, sempre. Primeira fase com 2 ou 3 opções, com objectivo de entregar a bola limpa aos colegas. Com paciência, se necessário rodar o jogo até haver espaço para entregar e receber. Jogar entre-linhas e de cara. O passe vertical, que queima linhas. Se o adversário basculou e está fechado, voltar à 1ª fase de construção ou usar apoio mais recuado para circular. Extremos dentro, arrastam marcações e lateral aparece; se a marcação não vier, recebe e joga dentro. Jogar dentro do bloco adversário. Sair da pressão em segurança. Variar o centro de jogo. Avançado em apoio frontal, quando tem liberdade para definir extremos fazem diagonais interiores. Entender quando adversário está subido: ataque rápido + profundidade. Busca pelo desequilíbrio em todas as zonas do campo: 2x1, 3x2, 4x3, acelerar. Criatividade. Zonas de finalização definidas, com médios a encurtar para linha de passa atrasada ou segundas bolas. Assimilar os comportamentos em treino para os poderes fazer na competição, seja com que adversário for.

O jogo valoriza jogadores, e os jogadores valorizam o jogo. E o treino.


sexta-feira, 8 de abril de 2016

Um Maradona em cada um

Tens meia-hora para Maradona?



Porque a melhor maneira de "quebrar" um adversário ainda é, e sempre será, fazeres o que ele não está à espera. Se tens habilidade, a melhor rentabilidade para a equipa será utiliza-la, mesmo que implique ceder noutros aspetos. Quantas linhas de passe Maradona desperdiçava? E quantas opções, nessa forma, condicionava a atitude da equipa contrária? Vai para a esquerda, direita, vai temporizar ou passar? Era impossível prever. Quebrando linhas, chamando adversários e deixando-os sem saber o que fazer para o parar. Os melhores são assim, imprevisíveis. Poder contar com eles é um privilégio e importa continuar a fomentar e fazer crescer jogadores deste perfil. Sem medo de arriscar, com talento e paixão por fazerem o que os deixa (e que nos deixa) felizes. E só com liberdade o conseguiram fazer.

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Dinâmicas de equipa vs Dinâmicas de jogadores


Decorria o jogo Boavista-Benfica, quando no sítio onde me encontrava, um senhor teve um comentário interessante. "O Benfica hoje não está com a dinâmica habitual!". Isto fez-me lembrar de uma citação de Carlos Carvalhal que li recentemente e que vai um pouco de encontro ao comentário deste senhor. Dizia Carvalhal que as dinâmicas da equipa estão dependentes do perfil dinâmico dos jogadores nas suas posições. Que por exemplo, se uma equipa tiver um lateral direito ofensivo e num certo jogo tiver que jogar um lateral direito mais defensivo, as dinâmicas da equipa vão mudar. Logo podem imaginar o que acontece quando se mudam 4 ou 5 jogadores titulares, que no fundo foi o que aconteceu no jogo do Benfica.

Mas não desviando do tema principal, abrem-se algumas dúvidas na minha cabeça relativamente a este tema. É inegável que o perfil dinâmico de cada jogador é essencial para a forma como a equipa se apresenta em campo. Mas as dinâmicas "originais" da equipa, introduzidas e fomentadas desde a pré-época, mudam apenas por isso? Ou serão antes simplesmente interpretadas de outra forma? Num passado recente vimos, por exemplo, Busquets ou Mascherano a jogar a 6 no Barcelona. O perfil de cada jogador acabava por influenciar as dinâmicas de jogo da equipa, mas ao ponto de as alterar? Ou seriam as dinâmicas as mesmas mas apenas não tão bem interpretadas devido ao diferente perfil dinâmico que se encontrava naquela posição? A minha dúvida insere-se exatamente aqui.

Tenho algumas reticências em acreditar na alteração de dinâmicas coletivas simplesmente pelo uso de jogadores com diferentes perfis em certas posições. As equipas dificilmente conseguem ter 22 jogadores homogeneamente distribuidos por posição, no entanto é óbvio que o procuram. Se o Barcelona deixasse sair Busquets, dificilmente iria à procura de um "destruidor de jogo" para aquela posição. As dinâmicas de equipa são treinadas semana após semana e a tendência será sempre para melhorá-las usando os diferentes perfis dinâmicos dentro de um plantel. Nisso não tenho dificuldade em concordar, em adaptar as dinâmicas às características dos jogadores que temos à disposição. Mais difícil é acreditar que numa semana em que o treinador não tenha jogador X, que as dinâmicas coletivas para esse jogo irão mudar simplesmente porque jogador Y tem um perfil de jogo diferente.

sábado, 26 de março de 2016

Futebol juvenil: As excepções que nos fazem acreditar

Quando falamos em futebol juvenil não são raras as vezes em que associamos tal a fenómeno a comportamentos incorrectos e situações degradantes.

Durante treze anos de ligação ao futebol juvenil enquanto jogador tenho de admitir que foram raras as vezes onde não se ouviam insultos, assobios ou ameaças vindas da bancada, quer fosse em direcção aos árbitros, jogadores ou até mesmo equipa técnica. E isso leva-nos a um ponto crítico. Até que ponto a presença e comportamento incorrecto das pessoas presentes em jogos de crianças é benéfica para as mesmas?

Claro que o calor do jogo, a intensidade e a pressão são tudo factores que fazem uma criança desenvolver-se mental e fisicamente na prática do futebol, mas todos esses factores deveriam ser proporcionados pelo jogo dentro das quatro linhas e não pelo ruído das bancadas.

Num país onde cada vez mais o público do futebol juvenil se revela uma má influência no mesmo, temos de saudar e bater palmas aqueles que tentam ser diferentes. Temos de agradecer a todos os que tentam transmitir aos seus filhos o principal valor e objectivo da prática de uma modalidade desportiva que é divertirem-se.


Não têm de ser os pais a querer e a impor aos filhos o sonho de profissionalizarem-se, isso é uma vontade que tem de partir deles mesmos sem nunca se esquecerem do porquê de gostarem tanto de jogar futebol, seja na rua, num treino ou num jogo do campeonato, eles estão lá porque gostam de jogar e gostar do que fazemos será sempre o passo mais importante para sermos bem-sucedidos nisso mesmo.

Por isso, sigam o exemplo daqueles que mais interessam e deixem os vossos filhos aproveitar o momento que estão a viver no futebol juvenil. Cada agente tem o seu papel na prática do futebol juvenil e o do público é apoiar, não é treinar nem arbitrar. Por isso, deixem-nos crescer, deixem-nos errardeixem-nos viver e deixem-nos saborear aquela que pode ser a melhor passagem no desporto deles.

Em jeito de conclusão e de modo a justificar o título, tenho quase 14 anos de futebol em cima de mim, 13 como jogador e 1 como treinador, e foi neste ano que voltei a ganhar um pouco da esperança no futuro dos miúdos.  Foi bom poder verificar e assistir a pais preocupados com o facto do seus filhos se estarem a divertir em vez de criticarem as opções do treinador.

E são estas as excepções que nos fazem acreditar num futuro melhor para o futebol juvenil. Um futuro onde a exigência e o divertimento possam andar de mãos dadas sem serem precisas pressões adicionais da bancada. 

A estas excepções, o meu obrigado por estarem a fazer aquilo que é correcto.

quarta-feira, 23 de março de 2016

Negligenciando o básico?

Há uns dias atrás, no Congresso de Futebol organizado pela Bwizer, o professor José Soares deu uma excelente palestra onde o foco foi a sua especialidade: a vertente fisiológica do desporto. Acima de tudo, como pode a excelência nesse campo e os estudos que nele são feitos, dinamizar o futebol na prevenção de lesões e na optimização do rendimento desportivo.

O sentimento que existe no futebol atual pende muito para o lado tático e com toda a razão. O legado de Vitor Frade tem vindo a fomentar-se em virtude de vários sucessos, Mourinho à cabeça, um pouco por todo o lado. A Periodização Tática (http://pt.slideshare.net/PedMenCoach/periodizao-ttica-jos-guilherme-oliveira) diz-nos para treinamos como queremos jogar. A padronização de comportamentos de forma a condicionar as ações dos jogadores, para que as variáveis passíveis de orientação possam ser pendidas a nosso favor. Dentro de micro-ciclos semanais, encontramos espaço para treinar macro e micro-comportamentos, em grandes e pequenos espaços, com variações nos estímulos fisiológicos para que a preparação seja feita de forma variada e adequada. Uma das características que surge é a especificidade morfológica, onde a adequação das ações (físicas) para o jogar pretendido vem de arrasto com o estilo de jogo pretendido. Por outras palavras, um estilo de jogo onde a predominância advenha de transições rápidas, por exemplo, irá ser reproduzida, em treino, nessas mesmas condições. O jogador, pela adaptação a tais exigências irá, com tempo e treino, adaptar-se ao que lhe é exigido, como um todo. O mesmo pode ser dito de ações mais simples. Sabemos que um remate, por exemplo, exige uma força predominantemente fornecida pelos quadrícipes. Dado tempo e repetições suficientes, a adaptabilidade correta ao esforço irá acontecer. Ou não?

O futebol, um pouco à parte de outros desportos, tem vindo a mostrar alguma negligência pela vertente física do jogo, do atleta. Seja pelo facto de as criticas (bem feitas) ao exagero de um foco desreguladamente acentuado nas características condicionais em tempos passados que deixavam de lado fatores mais importantes, seja pela nova onda de educação que contrapôs essa mentalidade e, em boa verdade, deixa a milhas metodologias de décadas anteriores e se foca acima de tudo na vertente tática. De uma maneira ou de outra, se levadas muito a sério, podem ser extremos que não beneficiam a evolução neste campo e que continuam a não deixar haver um fundamental equilíbrio nas forças em questão.

Qualquer ação no jogo tem uma base "física", sejam um passe, um remate, uma simples deslocação. São manifestações anexadas a uma ideia sim, mas inerentemente físicas. Num pequeno aparte e parafraseando José Guilherme: "A técnica é a capacidade de um atleta de idealizar corretamente aquilo que quer fazer, manifestando-se depois essa idealização numa ação motora." No fundo, toda a técnica precisa de uma correta ação motora para ser bem realizada. Uma sem a outra não fazem sentido porque atuam juntas (cada uma no seu domínio) e em conformidade com a situação.

Mas divago. Agora, de volta ao tema em questão. Em qualquer movimento que fazemos, entram em ação músculos agonistas e antagonistas. Por outras palavras, sempre que solicitamos o esforço de um músculo (agonista), existe outro (antagonista) que equilibra a balança, para que o movimento seja completo e compensado. No caso do remate acima citado, existe uma solicitação (em extensão) dos quadrícípes, o que torna os isquiotíbiais os antagonistas desse mesmo movimento. O inverso se passa quando falamos de uma flexão do mesmo membro. Os protagonistas são os mesmos, mas com papéis diferentes.


E é aqui que o professor argumenta ser necessário um maior equilíbrio, falando de um défice que claramente existe comparativamente com outros desportos. Lesões traumáticas à parte (e às vezes nem isso dado que o cansaço através deste défice pode bem ser uma das razões para tal em alguns casos), no futebol ainda não existe uma preocupação suficiente para prevenir este tipo de acontecimentos. Podemos comparar esta situação com as ações de uma equipa em atacar prevenindo uma transição defensiva. Não interessa só atacar bem mas sim ter noção que depois disso temos de estar preparados para o momento que se segue, pensando o jogo (e o movimento) como um todo. Se atacamos considerando a hipótese de perdermos a bola e para isso dispomos os jogadores de acordo a terem sucesso numa eventual transição, porque não fazer o mesmo com as exigências musculares de cada atleta?

Vítor Frade costumava dizer que o músculo não é cego. É um órgão sensível, afetado por tudo o que o rodeia, até à mais pequena alteração "não-natural" dos seus companheiros. As alterações morfológicas desnecessárias provocadas pela exigência física fora do contexto de jogo (o treino de força tradicional) são prejudiciais e ditaram a ridicularização do mesmo. Mas José Soares traz bons pontos para a discussão e aborda o tema de um ângulo totalmente oposto, com uma argumentação refrescante. Fala em treinar (preparar o atleta para o esforço) para treinar para jogar, onde a força física tem de ser tida em conta no seu todo e não apenas pela sua manifestação "visível". A ver vamos para quando no futebol finalmente se enraizará uma maior consciência da preparação física.

sexta-feira, 11 de março de 2016

Xavi. Porque quem sabe, nunca esquece

Porque é impossível esquecê-lo quando se pretende falar sobre aqueles que melhor representam o bom futebol. Talvez o mais claro exemplo futebolístico do génio que cria arte para os outros, antes mesmo de a criar para si próprio. O expoente máximo de uma geração espanhola que aprendeu a dominar o jogo através da simplificação de processos, e de uma filosofia que marcou o Barcelona na história do futebol.

Porque, valorizando-se tanto neste espaço a tomada de decisão e a criatividade no futebol, ele é uma referência incontornável. O derradeiro pragmático. Tudo o que faz tem a objectividade como prioridade máxima. Todas as acções que toma têm como grande objectivo aproximar a sua equipa do golo, da vitória. Toda a criatividade que apresenta possui naturalidade. A naturalidade de quem sabe que só tendo a bola pode brilhar. De quem a protege e guarda, portanto, de forma instintiva. De quem apenas a entrega em segurança, porque sabe que ela tem o poder de ser o elemento mais vital de todo o jogo. 

No Qatar, ao serviço do Al-Sadd, continua a fazer aquilo que melhor sabe fazer, e que faz como ninguém. Quem sabe, nunca esquece, e para quem joga o futebol como ele, a idade não é um problema.

Eis Xavi Hernández. Em vídeo. Porque é um crime para o futebol não podermos mais vê-lo nos grandes palcos, semanalmente.



segunda-feira, 7 de março de 2016

Manchester City : Os milhões de um plantel mal construído


Em 2008 o Manchester City foi tomado de posse pelo árabe Al Mubarak. O dinheiro árabe logo se fez sentir quando Robinho aterrou em Manchester vindo de Madrid a troco de 43 milhões de euros. O City tem, desde então, gasto muito dinheiro em jogadores. Exemplos de Tevez, Adebayor, Lescott, David Silva, Yaya Toure, Milner, Javi Garcia, Navas ou Fernandinho. Se há dinheiro bem gasto, embora talvez excessivo, também há dinheiro mal gasto e que tem retardado um sucesso mais constante do clube. Olhando a frio para os números, vamos para a 8º época do árabe à frente do clube e o City ganhou 2 títulos de campeão: um com dois golos nos descontos frente a um quase despromovido QPR e outro graças a uma vitória sobre uma equipa de reservas do Chelsea em Anfield, com o famoso escorregão de Gerrard. Mais grave que isso é o desempenho do City na Liga dos Campeões.

Este ano, como sempre, os citizens voltaram a gastar muito dinheiro. Sterling, Otamendi, De Bruyne e Delph custaram cerca de 200 milhões de euros. Jogadores com muita qualidade, são boas adições ao plantel do City mas para mim voltaram a descurar o reforço do plantel no seu todo, na sua profundidade. Não nos enganemos, o City pode facilmente formar um onze fantástico:

XI - Hart, Zabaleta, Kompany, Otamendi, Kolarov, Fernandinho, Touré, Silva, Sterling, De Bruyne, Aguero.

Top mundial. Onze para ser campeão em Inglaterra e para brilhar nas provas europeias. No entanto, uma época é longa, existem lesões, um calendário apertado e com ele uma necessidade crónica de rotatividade. Estamos numa fase crucial da época e o calendário apertou para o City, com jogos frente ao Tottenham e ao Leicester, com a eliminatória para a Taça de Inglaterra com o Chelsea, com a eliminatória da Liga dos Campeões frente ao Dínamo Kiev e com a final da Carling Cup frente ao Liverpool. Com isto, frente ao Chelsea para a Taça, o City apresentou o seguinte onze:

XI - Caballero, Zabaleta, Adarabioyo, Demichelis, Kolarov, Fernando, A.Garcia, M.Garcia, Celina, Iheanacho, Faupala.

Olhando para o onze, só Zabaleta e Kolarov supostamente são titulares. O City até tem opções, mas ou têm em abundância para certos lugares, ou tem jogadores (demasiado) bem pagos que acrescentam pouco ao plantel. Como exemplo, a questão dos laterais suplentes. Ou no ataque, onde para mim existem 4 números "10" nesta equipa (Touré, Silva, De Bruyne e Nasri) e apenas 2 extremos (Navas e Sterling) fazendo com que jogadores como Silva e De Bruyne acabem por deambular para as alas.

O City, com a contratação de Guardiola, tem agora uma oportunidade fantástica de se afirmar, finalmente, como uma equipa regular na Europa. No entanto, convém melhorar a distribuição dos milhões na profundidade do plantel.

domingo, 21 de fevereiro de 2016

11 contra 11 e no final...ganha a Alemanha

Dois confrontos portugueses com equipas alemãs, duas derrotas contundentes e duas eliminatórias extremamente complicadas para Porto e Sporting. Embora por razões diferentes, a diferença de qualidade entre Leverkusen/Dortmund e Sporting/Porto fez-se sentir. Mas nesta "primeira parte" das eliminatórias, vou optar por me focar nos "dragões".

O Porto entrou em campo na Alemanha claramente limitado, sobretudo no sector defensivo. Peseiro viu-se obrigado a puxar Layún para o meio (e o mexicano, que parece não saber jogar mal, correspondeu), jogando ao lado de Indi, e colocou Varela como lateral direito. No meio-campo, Rúben Neves no lugar do habitual titular Danilo (de fora por castigo) e Sérgio Oliveira ao lado de Herrera. Na frente, a surpresa foi Marega, na ala direita.


Mas desde cedo se percebeu que a principal diferença não seria individual, mas sim colectiva. Este Dortmund de Tuchel joga muito futebol, e é uma equipa muito bem organizada e confortável com o seu estilo de jogo. Raramente vemos os seus jogadores tomarem decisões sem nexo, e nota-se uma complexidade ao nível da dinâmica, quer defensiva quer ofensiva, muito interessante. Prova disso foi a forma como, sem grande esforço, foi forçando o Porto a jogar longo logo na 1ª fase de construção, acção que acabava sempre por ser inócua pois, mesmo quando Aboubakar ou Brahimi (especialmente o argelino, dono de uma capacidade técnica fenomenal, mas que nem assim foi capaz de ter grande sucesso) conseguiam dominar a bola, o Dortmund encontrava-se sempre em superioridade numérica naquela zona. Digo "sem grande esforço", pois foi algo que não se deveu a uma especial intensidade ou agressividade sobre o portador da bola por parte dos alemães, mas sim a um posicionamento exemplar em praticamente todos os momentos sem bola.

E mesmo com bola. Marega, por exemplo, passou o jogo todo "colado" a Varela, no seu meio-campo defensivo, para poder acompanhar Schmelzer, que actuava quase como extremo-esquerdo quando o Dortmund se encontrava em fases de construção (ficando Piszczek sempre mais recuado, junto aos centrais, com Weigl sempre como linha de passe segura no corredor central. Uma espécie de losango na saída de bola, muito interessante em termos tácticos). Esse comportamento reaccionário de Marega, por sua vez, permitiu várias vezes a Hummels (que, no capítulo da construção, é para mim o melhor central do mundo na actualidade) progredir no terreno com bola, criando constantemente um desequilíbrio que o Porto nunca foi capaz de contrariar. Basta ver que o central alemão terminou o jogo com mais passes que o meio-campo do Porto...todo junto. Ainda no capítulo da organização ofensiva, impressionante como Kagawa recebeu várias bolas entre linhas e sem pressão no corredor central, contra um trio de médios que poucas vezes saíram desse mesmo corredor no momento defensivo. Inadmissível a este nível.


Vi surgir, a espaços, o argumento de que o Porto não fez mais no jogo por manifesta falta de vontade para assumir riscos, para subir linhas e para envolver mais jogadores no momento ofensivo. Embora esse argumento tenha algum fundamento, há que realçar também a forma como o Dortmund foi impedindo o Porto de o fazer, e como manietou a equipa portuguesa durante vários períodos do jogo. A vitória alemã nunca pareceu estar posta em causa, e fiquei até com a ideia de que, tivesse o Porto criado outras dificuldades ao Dortmund, e estes teriam capacidade para responder com uma exibição de um nível qualitativo superior àquele que apresentaram na quinta-feira. No jogo do Dragão, parece-me inegável que será necessário um Porto com outra atitude perante o jogo, um Porto que suba bastante a bitola qualitativa, de forma a poder ter hipóteses reais de discutir esta eliminatória.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Lições da Catalunha

Crescer a jogar



Fascinante a metamorfose de Neymar desde os seus tempos no futebol sul-americano para os dias de hoje. Se é óbvio que o contexto competitivo que encontrou na Europa o forçou a se adaptar, menos óbvia é a maneira como a influência que a filosofia e os colegas em Barcelona lhe proporcionaram. É agora um jogador muito mais eficaz do ponto de vista daquilo que pode oferecer de diferente ao jogo: imprevisibilidade, que beneficie o jogo coletivo. O brasileiro continua com a mesma qualidade técnica mas consegue agora fazê-lo para beneficiar da melhor forma a equipa. Utiliza o drible como arma, como chamariz, não necessariamente para progredir ou para o benefício da notoriedade. Atrai, atrai, atrai... e liberta. Quando assim se exige. Mais jogadores à sua volta implica menos jogadores em redor dos seus colegas e mais espaços abertos para penetrar que não os que pisa.






Continua a haver diversão. O atrevimento para tentar algo diferente em cada jogada. Mesmo que não seja com um objetivo imediato, porque nem tudo tem que o ter. Os caminhos para o golo, muitas vezes bem fechados por uma densidade adversária assinalável, precisam de ser trabalhados com objetivos a "longo-prazo". Atrair para enganar. Uma, duas, três vezes. As que forem preciso para que os erros do outro lado surjam para aí sim, ser incisivo.

Referir também, porque assim o merece, a evolução de Suarez. Noutro patamar de qualidade e com outros defeitos mas agora muito mais consciente das suas limitações. Um registo de transformação similar ao brasileiro, onde se percebe que agora compreende melhor o que a equipa necessita. Não extraordinariamente mas bem melhor do que há 2 anos atrás, por exemplo. Mais uma vez, a convivência com colegas que priorizam outras coisas que não o sucesso imediato e, claro, a humildade de o aceitar. De apaludir.

O penalty de Messi


E a criatividade nos momentos que menos se espera. De Messi para o Mundo:


Quantos pensariam sequer em fazer algo parecido? Poucos. Mas deviam ser muitos mais. Surpreendeu por isso mesmo e ainda bem que o fez. Nada é tão eficaz como concretizar algo que ninguém espera. Nota também para o chocolate de Messi na jogada que provocou o penalty. Que delícia.

domingo, 7 de fevereiro de 2016

Performance: a guide for dummies

Dia após dia, semana após semana, continuam a escrever-se asneiras sobre futebol que ajudam a consolidar uma mentalidade continuamente simplista. Como, por exemplo:

"Mas a ‘France Football’ vai mais longe e compara o rendimento de Slimani ao de Lionel Messi. «Com oito golos em seis jogos, em janeiro, o desempenho do argelino equipara-se ao de Messi, que marcou os mesmos golos em outros tantos jogos." - Notícia da France Football veiculada pela ABola em Portugal.

Comparações à parte, não interessa para aqui discutir as estatísticas individuais de cada um dos nomes citados, ou sequer os seus rendimentos nos respetivos clubes. Seja Slimani, Messi, fosse Ronaldo ou Talisca, a ideia mantinha-se a mesma.  O cerne da notícia é uma falsa questão, que não passa de um chamariz para atrair os mais levianos. Mais do que isso, é a noção que existe de rendimento e os dois pesos e dois medidas constantemente aplicados para situações deste género que se entranham e realmente irritam.

Ninguém é parvo o suficiente para afirmar que o futebol se resume a um ou dois momentos, aos números de golos ou à quantidade de assistências.  É uma ideia já amplamente aceite que não oferece qualquer resistência... quando perguntado diretamente, claro está. Mas é curioso que tão peremtórias afirmações se esfumacem no momento em que a discussão se eleva para patamares mais específicos ou quando não existe outro contra-argumento que ajude. Ou, simplesmente, para quantificar e qualificar o tão aclamado rendimento. Pergunte diretamente a alguém se acha que o número de golos define um bom avançado. Certamente que lhe dirão que não. Agora espere e com toda a certeza, mais cedo ou mais tarde, a mesma pessoa lhe irá argumentar o rendimento desse mesmo avançado com o número de golos que este tem ou não tem. É daquelas coisas que quando pensamos que já nos escapamos, elas voltam para nos perseguir, mais fortes e resistentes que nunca.

Faz-nos pensar se realmente existe uma compreensão da complexidade do jogo e o que isso acarreta para diferentes momentos e jogadores. Mais: se existe, realmente, uma coerência de opinião nesse sentido ou se simplesmente se usam os argumentos que estiverem mais à mão. Puxar para um lado quando interessa mas para o outro quando já não interessa. No meio, sofre quem quiser falar de futebol e deixar de lado patetices sem sentido; porque é muito mais cativante e significante falar sobre filosofias, sobre abordagens aos diferentes problemas que surgem, sobre um futebol pensado e estruturado. Se quero sair a jogar de trás, como me vou proteger em caso de perda? Que comportamentos promovo que estimulem nesse sentido? Se já tenho alguém a alongar a linha defensiva adversária, como vou povoar o espaço à frente dela? Procuro rapidamente a profundidade ou aguardo, circulo e abro espaços no bloco? Que indicações dou à minha equipa quando pressiono? Para onde oriento os apoios e quando decido o timing de pressão e consequente zona de pressão? E a distância a que quero a minha última linha dessa pressão? Os escudos dos números redutores escondem uma natureza multifacetada que nem todos querem ou se dão ao trabalho de falar.

De que interessa comparar o número de golos marcados por cada jogador, tendo em conta os seus diferentes patamares de qualidade, as suas diferentes características, os seus diferentes clubes e contextos competitivos, os diferentes modelos de jogo onde se inserem e até os diferentes níveis de dificuldade em adversários que encontraram neste período? Que conclusão relevante é possível retirar de uma avaliação tão simplista? Nenhuma. Dá para encher choriços, enganar tolos e ajudar, mesmo que inconscientemente, a perpetuar conceitos que acabam por moldar opiniões. Se calhar escrevendo um livro, todo bonito e com um aspeto empresarial, ajude a combater estas observações falaciosas. E de preferência em inglês, para lhe dar aquele toque international.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Talisca e as decisões com bola


Talisca nunca foi, nem nunca será, um prodígio com bola. Não pela vertente técnica mas pela pobre perceção do jogo, continuamente exposta jogo após jogo, nas opções que toma. O lance em análise é um de muitos que poderiam ter sido escolhidos, foi-o pela clamorosa situação de potencial 1x0 que Talisca não viu:


Com mais ou menos golos, com mais ou menos passes vistosos, Talisca poderá continuar a mascarar as suas debilidades perante quem olha para o jogo de forma superficial. Esperemos que, aos poucos, o paradigma vá mudando e que a valorização se foque no importante e não na fotografia.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Van Gaal e a comunicação no jogo

«Não sou sir Alex Ferguson, como sabem. Cada um é diferente e eu não grito para dentro do campo, não acredito nisso. Acredito em comunicação durante a semana, nos treinos, e acredito nos meus jogadores, que têm de cumprir», referiu o treinador do Manchester United em conferência de imprensa.

Interessante a afirmação do holandês, não pela demarcação que tenta fazer de Ferguson mas pela justificação da postura, contrária à ideologia comum, do treinador que berra e gesticula constantemente para dentro do campo. Não é caso raro ler na comunicação social e ver adeptos criticarem treinadores que não sigam esse caminho. Ou é porque está perdido, porque não sabe o que fazer... porque não tem "paixão". Porque paixão é ser intenso no banco, viver o jogo ao estilo entretainer e gritar constante e desalmadamente... claro que sim.

A percepção do comum adepto deixa muitas vezes a desejar. Porque é complicado colocar-se no papel de quem criticam. Porque as criticas se focam em comportamentos que não são considerados normais, daí serem maus. Porque, pela falta de conhecimento, valorizam mais o acessório que o fulcral. E porque, no fundo, gostam é de emoção, enquanto o futebol fica para segundo plano.

Por aqui, assim como para Van Gaal, coloca-se a exigência e a responsabilidade acima de atos de circo. Quem já teve a oportunidade de estar dentro de um campo de futebol facilmente admite a dificuldade que existe, em pleno jogo, do treinador fazer chegar informação aos jogadores, seja pela distância, pelo foco dos mesmo no jogo, seja pelo ruído exterior. Mas isso é só parte. O fundamental prende-se não só com a responsabilidade e exigência, mas também com a liberdade. A liberdade dos jogadores pegarem naquilo que foi treinado e aplicarem em jogo, consoante a situação com que se deparam. De alterarem o guião traçado para que este se adapte ao contexto. Mas também para passar a imagem que a intenção de proatividade deve advir deles e não só do treinador. Para isso, só dizê-lo não chega, é preciso que os nossos atos sejam coerentes com as ideias que são transmitidas, mesmo que isso implique ceder o controlo para as mãos de quem lideramos. Se o grande objetivo é formar jogadores responsáveis e conscientes que, a dado momento, possam ter a disposição e coragem de seguirem as suas próprias ideias quando o jogo assim o pede, então essa é a postura ideal.

E claro, liberdade para errarem. Ninguém mais sente tão intensamente os falhanços e insucessos que o próprio jogador e não vai ser uma chuva de críticas, venham elas do banco ou da bancada, a mudarem isso. A critica fácil só serve para alimentar o ego de quem a faz e como tal deve ser descartada, porque se não é fundamentada não vale de nada. Quanto menos Sá Pintos encontremos no futebol, melhor estará o jogo.

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Progredir, passo a passo

Dentro da realidade do treino existem várias vertentes passíveis de serem moldadas para se adaptarem às mais diversas intenções. A complexidade crescente e consequente progressão de determinado exercício é das mais interessantes pelos benefícios que delas podem advir.

Certo dia, na companhia de um dos colaboradores deste blog, alguém com quem trabalhávamos disse: "Nunca repitam o mesmo exercício. Todos os dias, quero novos exercícios." A afirmação deixou-nos apreensivos. Como é que poderíamos trabalhar um determinado estilo de jogo e criar uma identidade dentro da nossa equipa sem repetir exercícios? Aceitando que a repetição sistemática para além do "sumo" que certo exercício pode oferecer é prejudicial, essa repetição, quando bem doseada e dentro de um limite que favoreça um binómio de dificuldade\progressão, é fundamental. Seja na formação de uma ideia de jogo dentro da própria equipa, seja na interiorização de conceitos que, sem ela, se perderiam num curto espaço de tempo.

Contudo, é aprazível refletir sobre o tema. Apesar de não concordar com a peremptoriedade da afirmação, são compreensíveis as suas origens. Estímulos diferentes provocam novas situações que permitem a criação de novas soluções. E se queremos formar jogadores que se adaptem conforme o desenrolar o jogo, essa variabilidade é algo que não podemos descurar. Mesmo assim, pensando em estruturas iguais é possível obter resultados distintos, isto porque os incentivos necessários para evoluir baseiam-se, também, na progressão de conceitos de forma gradual e constante. E neste sentido é possível enquadrar exercícios de estruturas iguais e suas devidas progressões (um bom exercício em Novembro pode já não o ser em Fevereiro e o inverso também pode ser verdadeiro, porque tudo depende do momento da equipa e da sua adaptação perante as ideias que se tentam adquirir).

Seguindo esse raciocínio, o mesmo exercício-base, com ajustes graduais (progressão), permite a continuação de uma implantação coerente de ideias, variando os estímulos e conferindo ao mesmo tempo uma dificuldade ajustada ao momento e compreensão da equipa (complexidade). Ao contrário de tentar criar constantemente novos exercícios, interessa sim moldar os que se tenham provado eficazes, que respeitem e estimulem as ideias pretendidas, de acordo com o estado de complexidade que determinada equipa consegue resolver. Seja através da redução do espaço de execução, de novas regras que dificultem a obtenção dos objetivos, ou apenas objetivos diferentes mas mais exigentes. A validade de um exercício terá sempre que ser analisada por aquilo que objetivamente obtém, diariamente, e não por idealizações pré-concebidas.

Dentro deste pensamento importa também considerar a compreensão e o à-vontade do jogador. Estar constantemente a introduzir novos exercícios torna-se desconfortável e ineficaz pelo período de adaptação que tem necessariamente de existir até haver uma confiança e naturalidade perante os mesmos. Daí que para o contrariar é preciso inovar dentro de situações conhecidas e só dar o próximo passo (novos exercícios) quando realmente for necessário. Mudar por mudar nunca foi nem nunca será boa política.

Uma tangente com fulcral importância no tema poderia aqui também ser referida (a necessidade de exercícios com resoluções "abertas"), mas ficará para outro dia. Importa ter a ideia de que se a repetição é fundamental na aquisição, a evolução que se pretende terá obrigatoriamente que lhe ser associada. Evitar sobrecarregar os jogadores com situações e problemas desnecessáriaos. O caminho para o conseguir está no espaço que podemos e devemos conceder à mutação da nossa operacionalização. Sempre numa progressão constante, não necessariamente linear mas devidamente sustentada.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Ancelotti e Jesus: o mérito das ideias

Mesmo dentro de toda a inutilidade que diariamente enche os jornais desportivos, por vezes é possível encontrar pequenos tesouros que nos mostram aquilo que realmente importa. Pena que quem realmente sabe não tenha mais tempo de antena.

Ancelotti



"O importante é ter haver uma boa relação entre treinador e jogadores, mostrar aquilo em que acreditas e conseguir convencer os jogadores do mérito das tuas ideias. Nunca é bom quando se impõem coisas aos jogadores. É importante que o grupo acredite no que o treinador faz e ter a certeza que tal é aceite por todos."


Descontando os já habituais erros gramaticais, o sumo das declarações de Ancelotti revelam o bom-senso e inteligência a que o italiano já nos habituou. Toca num tema que já foi aqui abordado e que nunca é de mais reiterar: a sedução através da qualidade das ideias como fator determinante para conquistar a confiança do grupo e, por consequência, chegar mais perto do sucesso. O tempo do "mandar fazer" já passou e com a crescente consciencialização dos jogadores, mais será exigido dos treinadores para justificarem as suas opções aos olhos de quem lideram. Um paradigma que beneficia todos os que nele se encontram.

Jorge Jesus


"Primeiro tens que olhar para o jogador não só do ponto de vista da qualidade técnica, mas também a componente física: será que este jogador tem as condições físicas para desempenhar esta função? A partir daí vais para a técnica e para a tática, que tens de lhe ensinar. É preciso ter em conta estas três vertentes: física, técnica e táctica. Agora já há muitos treinadores a tentarem fazer o que eu fiz, mas é preciso mais do que meter um jogador a jogar numa posição, isso é curto, tens de ver se o jogador tem condições para o fazer. E tudo começa no físico. Um jogador que se transformou completamente, de um ala para um médio organizador, foi o Enzo Pérez. É o mais difícil, porque é preciso fazer com que ele acredite que pode fazer essa posição. O Fábio Coentrão passar de extremo a lateral, não é uma transformação tão radical. O Enzo e o Matic, que era "10" e passou a "6", são os jogadores que eu tirei da sua posição para encaixar na ideia que tinha de jogo. Mas isto só se faz se o jogador acreditar que é capaz: se ele não acreditar, nada feito". 

As declarações de Jesus são, por norma, uma delícia de se "ler". Explicitamente ou entre-linhas, o amadorense proporciona sempre um vislumbre daquilo que é a sua lógica de trabalho. Apesar de num registo mais individual, Jesus bate na mesma tecla: o jogador só faz o que se pretende se acreditar nas ideias do treinador, se for seduzido a tal e não forçado. Nunca foi tão importante como agora saber persuadir para transmitir informação. Jesus pode não ser um ás da língua portuguesa mas no que interessa, na interação no campo e no treino, prova ter valências mais que suficientes para convencer e transformar mentalidades. 

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Um final antecipado


Chegou ao fim a estadia de Mourinho no Chelsea. Previsível? Sim. Os resultados, as exibições, as constantes polémicas e as bocas em praça pública antecipavam, mais cedo ou mais tarde, este desfecho. Foi tudo mau demais para ser verdade.

A situação com Hazard exemplificava o atrito (há muito?) existente. Desde as declarações discordantes na imprensa entre os dois, ao momento de frustração do belga no jogo com o Porto, à lide bizarra da sua lesão no último jogo. Mas no meio de tudo, havia algo tangível que pouco destaque mereceu: notava-se, aqui e ali, que os jogadores não se sentiam confortáveis com a sua forma de jogar, especialmente os mais talentosos. Hazard chegou a afirma-lo publicamente, numa entrevista que agora me escapa.

A situação faz-me lembrar um post de Carlos Carvalhal no seu blog que, parafraseando, dizia: "Quando entras para um novo clube, tudo importa. Tens de ter em conta a mentalidade do clube, as suas ambições, a personalidade dos jogadores, a cultura dos adeptos, até a sua religião! Tudo para que quando crias uma identidade, essa seja compatível com o contexto em que te encontras."

De certa forma, esse é o lado do problema que mais importa referir aqui. Não interessa se tens boas ideias quando elas não encontram concordância do outro lado. Podes preferir jogar de determinada maneira mas se os teus jogadores não estiverem a bordo contigo, tudo se perde. E desse prisma, José Mourinho não tinha os jogadores do seu lado, algo que se torna particularmente surpreendente quando falamos de um treinador amplamente elogiado no passado pela capacidade de exponenciar, a níveis incríveis, a coesão do seu grupo.

Existe algo inegável: os jogadores são e serão, sempre, o melhor barómetro. São eles que jogam, que colocam em campo as ideias e são eles que, no final, ganham ou perdem jogos. Se tens o apoio e a dedicação deles ficas muito mais próximo do sucesso. Se não, nem todos os elogios da imprensa, dos adeptos, da direção e dos teus colegas importam porque no fim o fracasso será anunciado.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Balanço de Final de Ano

1. O Sporting, na novela mais quente do Verão, trocou Marco Silva por Jorge Jesus e, à passagem da 13ª jornada, está na liderança isolada do campeonato, com dois pontos de vantagem sobre o Porto e sete sobre o Benfica. Além disso, comparativamente com o mesmo período da época passada, o Sporting tem menos um golo marcado, mas tem mais onze pontos, mais cinco vitórias, menos quatro empates, menos seis golos sofridos, ainda não perdeu…Sinal de que tudo vai bem no reino do leão? Com certeza que não. Não partilhando da opinião veiculada sobretudo por adeptos dos rivais de que este Sporting joga pouco futebol – defensivamente, a diferença é do dia para a noite, e mesmo em termos ofensivos, já se veem movimentações e intenções dos jogadores que não se viam com Marco Silva e não se veem nem no Porto nem no Benfica – parece-me haver um défice claro de qualidade individual, o que retarda necessariamente o crescimento da equipa enquanto coletivo e pode ajudar a explicar algumas vitórias tangenciais, que podiam perfeitamente ter resultado em empates. O modelo de jogo de Jorge Jesus é complexo e exigente a todos os níveis e, para estar em Dezembro a jogar já perto do seu potencial máximo, eram precisos executantes com uma qualidade técnica e de decisão que não está ao alcance de um João Pereira, de um Naldo, de um Adrien, de um Teo ou de um Slimani (só aqui já está meia equipa habitualmente titular). Ewerton, André Martins, Aquilani, Carrillo, Matheus Pereira e Montero, esses sim têm essa capacidade, mas, por uma razão ou por outra, não têm estado entre as primeiras opções de Jesus, pelo que o futebol do Sporting tem tardado em dar o salto qualitativo. Resumindo: a meu ver, apesar dos indicadores positivos, o Sporting será tanto mais candidato ao título quanto mais vezes incluir no onze inicial os jogadores acima referidos. Noutro âmbito, a chegada do fantástico Bryan Ruiz constitui a melhor notícia do defeso em Portugal, talvez a par da contratação de Mitroglou pelo Benfica.

2. Há quem seja da opinião que Julen Lopetegui é um treinador com uma boa ideia de jogo, mas que não sabe bem como operacionalizá-la, nem quais os melhores jogadores para a executar. Acho precisamente o contrário: o treinador espanhol sabe pôr uma equipa a jogar como quer e também sabe escolher os executantes mais adequados para o seu modelo de jogo, mas boas ideias é tudo o que não tem, pelo menos a nível ofensivo. É tudo rígido, padronizado e previsível, mas estou plenamente convencido de que Lopetegui quer e sempre quis que o Porto jogasse como joga: sem bola, uma reação rápida e agressiva à perda, com um meio-campo essencialmente de suor e rigor tático; com bola, uma circulação em “U”, sempre por fora e com largura máxima em todos os momentos, para que depois os laterais e os extremos desequilibrem ofensivamente. Alguma vez o Porto de Lopetegui foi ou pretendeu ser algo diferente disto? Não me parece. E é por essa razão que o Porto não se consegue assumir definitivamente como o candidato mais forte ao título, como era, de resto, sua obrigação: uma ideia de jogo sem qualidade, que não potencie toda a qualidade individual existente, mesmo que esteja superiormente operacionalizada, não deixa de ser uma ideia de jogo sem qualidade.

3. No Benfica, Luís Filipe Vieira, que se não está com a corda ao pescoço em termos financeiros, disfarça muito mal, decidiu abrandar o investimento massivo no futebol e abdicou do bicampeão Jorge Jesus (que, para grande transtorno seu, foi parar ao outro lado da Segunda Circular…) para ir buscar o mais económico Rui Vitória. Rui Vitória é um treinador que subiu na carreira a pulso e que tem conseguido resultados interessantes, sobretudo no problemático Vitória de Guimarães, mas o futebol pouco elaborado das suas equipas não augurava nada de bom e estes primeiros meses à frente do Benfica apenas têm confirmado essas suspeitas. O que se vê é um treinador de equipa pequena a tentar, sem sucesso, operacionalizar um modelo de equipa grande e, seja qual for a opção tomada daqui para a frente, as perspetivas não são animadoras: se quiser trabalhar o modelo em que acredita, o mesmo não vai ser suficiente, porque a concorrência está forte e colocou a fasquia alta; se quiser trabalhar um modelo em que não acredita, não tem competência para tal, pelo que os resultados dificilmente serão positivos. Prevêem-se tempos difíceis na Luz, ainda para mais sem um plantel extraordinário em termos individuais…No entanto, além dos consagrados Júlio César, Gaitán, Jonas e Mitroglou, há um valor seguro para o futuro: Nélson Semedo. Quanto aos hipervalorizados Renato Sanches e sobretudo Gonçalo Guedes…Bem, vamos esperar para ver.

4. Em Inglaterra, a Premier League, ao contrário do que se apregoa, é um campeonato competitivo, mas nivelado por baixo, como se comprova pelos constantes insucessos das equipas inglesas nas competições europeias: o Manchester City tem todas as condições para dominar o campeonato, mas joga abaixo do seu potencial, porque não tem uma liderança técnica capaz de elevar a equipa para um patamar superior (não está em causa a competência de Pellegrini, que é um treinador que aprecio); Van Gaal está ultrapassado e já não parece ter capacidade para operacionalizar a 100% a sua interessante ideia de jogo; Mourinho estagnou completamente e, neste momento, é um treinador que não se diferencia dos demais e que tanto pode ser campeão num ano, como no ano seguinte andar pelo meio da tabela; Wenger continua a repetir os mesmos erros, ano após ano, e o Arsenal estava melhor servido com uma equipa técnica mais moderna e bem preparada. O Tottenham de Pochettino e o Everton de Roberto Martínez são equipas que procuram um “jogar” mais evoluído do que é habitual em terras de Sua Majestade, e a contratação de Klopp pelo Liverpool é uma ótima notícia para a evolução do futebol inglês, mas não é suficiente, nem de perto nem de longe. É necessário que as equipas com maior poderio financeiro da Premier League contratem não só jogadores de grande qualidade, mas também treinadores que consigam rentabilizar ao máximo toda a qualidade individual existente, para que as restantes equipas também sintam necessidade de evoluir e subir a fasquia, contratando jogadores de qualidade e sobretudo treinadores com ideias e métodos de trabalho diferentes. Por exemplo, só num campeonato nivelado por baixo e em que as equipas grandes estejam mais próximas em qualidade das equipas mais pequenas do que o contrário, é que é possível que equipas com modelos de jogo rudimentares como o Leicester e o Crystal Palace estejam, em Dezembro, tão acima na tabela classificativa. O facto de o melhor treinador britânico em atividade ser provavelmente Alan Pardew também devia ser um indicador, no mínimo, preocupante. A Premier League tem evoluído muito na última década e o conhecimento técnico-tático existente é agora maior do que nunca, mas, no meu entender, ainda tem um longo caminho a percorrer até poder justificar o epíteto de “melhor liga do mundo”. Talvez a mais que anunciada chegada de Guardiola seja a pedrada no charco de que o futebol inglês necessita.

5. Em Espanha, não há muito a destacar: Florentino Pérez, não contente com a decisão absurda de afastar Ancelotti do comando técnico do Real Madrid, resolveu animar ainda mais as coisas e entregou aquele que é, provavelmente, o melhor plantel do mundo a…Rafa Benítez. Sim, aconteceu mesmo. No momento em que escrevo estas linhas, a vantagem pontual do Barcelona já é de cinco pontos, por isso ficarei muito surpreendido se Messi, Neymar, Iniesta & Cia não revalidarem o título de campeões espanhóis em Maio, desta feita sem o lendário Xavi Hernández. O Barcelona de Luis Enrique é, nos dias que correm, uma equipa super vertical, que pratica um futebol direto e de procura constante da baliza contrária, e que, por isso, já não consegue controlar tão bem os ritmos de jogo e o adversário, mas a qualidade individual assombrosa e a falta de oposição interna deverão chegar para vencer tranquilamente o título (porém, muita atenção ao Atlético de Madrid!). Destaque para o aparecimento na equipa principal do jovem Sergi Roberto, que agarrou a oportunidade que Luis Enrique foi obrigado a dar-lhe (saída de Xavi, lesão prolongada de Rafinha, problemas físicos de Iniesta, etc) e tem agora o caminho aberto para se afirmar como um dos grandes médios espanhóis do futuro.

6. A Serie A, um campeonato caído em desgraça e que bem precisa de novos estímulos, deu a conhecer ao mundo dois treinadores de enorme valor: Maurizio Sarri e Paulo Sousa, este bem conhecido do público português. A Fiorentina de Paulo Sousa e sobretudo o Nápoles de Sarri são equipas que procuram controlar o jogo através da posse de bola e da pressão alta desde o primeiro minuto e que não têm problemas em jogar com três e quatro médios de características ofensivas ao mesmo tempo, o que constitui claramente um sinal de que o futebol italiano, se houver um esforço coletivo dos clubes, pode perfeitamente reinventar-se e reerguer-se. Infelizmente, Juventus, Inter e Milan, os clubes que, pelo seu peso histórico, mais possibilidades tinham de comandar esta mudança de mentalidades, preferiam manter ou ir buscar treinadores que pensam e trabalham como 90% dos treinadores mundiais, por isso o campeonato perdeu algum do interesse que poderia ter. No entanto, já que Rudi García da Roma se revelou uma desilusão, quero acreditar que Sarri e Paulo Sousa estão a lançar algumas bases importantes para o futuro a médio prazo do Calcio.

7. Na Bundesliga, o Dortmund contratou um dos treinadores mais talentosos da atualidade – Thomas Tuchel – e mantém um plantel repleto de jogadores que tinham lugar em quase todos os grandes clubes europeus, com Hummels, Gündogan, Kagawa, Mkhitaryan, Reus e Aubameyang à cabeça, mais o muito promissor Weigl, mas Guardiola é mesmo de outro planeta e o Bayern chega ao dobrar do campeonato com 43 pontos em 48 possíveis e cinco pontos de vantagem sobre o Dortmund. Além dos resultados esmagadores, o genial treinador catalão continua a inovar taticamente como nenhum outro e a dar lições em todos os jogos, embora muitos nem sequer se apercebam disso: recordo que o Bayern, a jogar habitualmente num 2-3-5 (!) com Boateng como único jogador de características defensivas e Robben, Müller, Douglas Costa, Coman e Lewandowski na frente, mesmo que os adversários concretizassem todos os remates enquadrados com a baliza de Neuer, continuaria a liderar a Bundesliga. Incrível! Já para não falar da facilidade com que o Bayern troca de sistema de jogo para jogo ou mesmo durante o jogo, alterando entre 4-3-3, 4-4-2, 3-5-2, 3-4-3 e 2-3-5 como se nada fosse, e do rendimento estratosférico de jogadores como Alaba, Douglas Costa, Müller, Lewandowski ou mesmo Boateng. Luis Enrique merece o prémio de melhor treinador de 2015, pelos títulos que conquistou, mas não tenho dúvidas nenhumas de que o treinador referência foi, para não variar, Pep Guardiola.

8. Sobre a Bola de Ouro, cujos resultados serão conhecidos no dia 11 de Janeiro, apenas duas notas rápidas, porque há algumas pessoas com problemas de memória. Primeiro, para os que são da opinião que é um escândalo Luis Suárez não estar no lugar de Cristiano Ronaldo nos três finalistas, convém lembrar que o avançado uruguaio só em Abril/Maio é que começou a render a bom nível e a contribuir com alguma qualidade para a manobra ofensiva do Barcelona para além dos golos…Até lá, foi quase sempre um corpo estranho na equipa e sentiu grandes dificuldades de adaptação, por isso a escolha de Ronaldo é mais do que compreensível, pese o final de época algo apagado. Segundo, Neymar teve um ano incrível, não só na finalização, mas também na criação, e assumiu-se definitivamente como jogador de eleição, mas só merece a Bola de Ouro se se esquecer tudo o que Messi fez até se lesionar em Setembro. É bom não esquecer que Messi rubricou possivelmente a melhor época da carreira – o que quer dizer muito, tendo em conta o nível elevadíssimo que atingiu com Guardiola – com exibições quase sobre-humanas, em que foi o principal motor criativo de um Barcelona que ganhou tudo o que havia para ganhar. Mas a Bola de Ouro sempre foi isto: aconteça o que acontecer, para a opinião pública, o que interessa é como se acaba o ano. Posto isto, Messi, Neymar e Ronaldo seriam as minhas escolhas para a Bola de Ouro, por esta ordem.

O "Com Pés e Cabeça" aproveita para desejar a todos os leitores um Feliz Natal e um Bom Ano Novo!