O Brasil de Scolari, com um futebol aos trambolhões, lá vai ultrapassando os obstáculos que lhe aparecem pela frente, mas está quase tudo errado: é o duplo pivô que só serve para destruir jogo, é o ponta-de-lança dos anos 80 que só lá está para responder a cruzamentos, é Neymar a jogar por dentro, é Oscar a jogar por fora, é Willian, Hernanes e Bernard praticamente sem minutos, são as substituições troca por troca em qualquer altura do jogo…Não há organização, não há ideias, não há jogo interior, é fé no Neymar e esperar que ele faça umas coisas giras com a bola. Este Brasil, a jogar em 3x5x2 com Júlio César, Thiago Silva, Dante, David Luiz, Dani Alves, Marcelo, Fernandinho, Hernanes, Oscar, Neymar e Hulk e com Sampaoli no banco, era a selecção mais poderosa em prova e a maior candidata à vitória final, talvez a par da França. Assim como está, claramente não é e, apesar do factor casa e das individualidades de luxo que tem, acho que é uma questão de tempo até ficar pelo caminho, como o Chile, aliás, se encarregou de demonstrar. O Brasil teve as melhores oportunidades de golo? Talvez, mas só quando o Chile rebentou fisicamente e foi obrigado a jogar num bloco mais baixo, um registo em que claramente não se sente tão confortável. Até lá, o jogo foi repartido e o Júlio César também teve que ser chamado a intervir um par de vezes. E se aquela bola à trave do Pinilla tem entrado…Scolari está a meter-se a jeito, a única dúvida que há é saber durante quanto mais tempo é que a sorte vai durar. De resto, nota muita negativa para Howard Webb, que continua a demonstrar uma falta de categoria nada consentânea com a distinção de «melhor árbitro do mundo». É preocupante que um árbitro tão reputado não saiba o que é uma falta nem um cartão amarelo.
Colômbia-Uruguai
A Colômbia, sob a batuta daquele que é, para mim, o melhor jogador do Mundial até à data, James Rodríguez, despachou o Uruguai por 2-0 e já está nos quartos-de-final. No entanto, a equipa de Pekerman, embora seja uma das boas selecções da prova, não é tudo aquilo que dizem que é. Ofensivamente tem alguma qualidade (o primeiro golo de James é sensacional, mas é a jogada que dá origem ao segundo golo que melhor ilustra aquilo que esta equipa é capaz de fazer no ataque), mas falta imaginação no meio-campo (Guarín? Quintero?) e, sobretudo, maior qualidade nos processos defensivos. Mau controlo da largura, mau controlo da profundidade, linha defensiva muitas vezes mal alinhada, muito espaço entre linhas…Quando há tempo para formar duas linhas de quatro elementos bem definidas, ainda disfarça, mas quando isso não acontece, abrem-se buracos por todo o lado, que podem ser aproveitados por uma equipa com mais qualidade do que Grécia, Costa do Marfim, Japão e Uruguai. Sinceramente, via o Chile com mais capacidade colectiva para eliminar o Brasil, mas a Colômbia também vai ser um osso duro de roer e não foi à toa que fez o pleno de vitórias até agora. Quanto ao Uruguai, são aquilo que já eram em 2010, quando beneficiaram e muito de um sorteio favorável para chegarem às meias-finais do Mundial da África do Sul: uma selecção de rapazes pouco talentosos (Tabárez certamente deve ter um conjunto recheado de opções, para se dar ao luxo de deixar Lodeiro e Gastón Ramírez no banco de suplentes…), cujas maiores armas são a disponibilidade física e a agressividade. Não vão deixar saudades.
Holanda-México

Costa Rica-Grécia
Há poucos chavões que me irritem mais no futebol do que este: «Cada um joga com as armas que tem, esta Grécia não dá para mais…» Tretas. Se uma equipa que conta com jogadores como Torosidis, Manolas, Sokratis, Holebas, Katsouranis, Karagounis (se tem 37 anos, não parece…), Kone, Lazaros, Fetfatzidis, Samaras, Salpingidis, Gekas e Mitroglou não tem qualidade individual para mais do que defender com muitos e bombear bolas para a frente o jogo todo, não sei quem é que tem. Tanto tem que contra a Costa Rica fez uma primeira parte bem agradável, com um futebol mais apoiado do que é costume, e em que podia inclusivamente ter-se adiantado no marcador. Se não querem jogar tudo o que sabem porque acham que não lhes vai trazer resultados e preferem adoptar uma postura mais calculista e menos arriscada, tudo bem, é uma opção e não tenho nada a ver com isso. Agora não me venham é dizer que o fazem porque não têm matéria-prima, porque isso é mentira! Quanto ao jogo em si, foi pautado pelo equilíbrio, com um ligeiro ascendente da Grécia na primeira parte e com uma Costa Rica mais perigosa na segunda parte, pelo menos até à expulsão. A partir daí, a Grécia tomou conta do jogo, mas sem grande engenho e acabou por marcar quando pouco tinha feito para aproveitar a vantagem numérica. No prolongamento, aí sim a história foi outra, com a Grécia a fazer o que lhe competia e a conseguir várias vagas de ataque, que esbarraram sempre nas mãos do excelente guarda-redes da Costa Rica, Keylor Navas. Foi injusto perderem nos penaltis? Sem dúvida, mas não lhes fez mal nenhum provar um pouco do seu próprio veneno... Do lado da surpreendente Costa Rica, além da organização defensiva, que é do melhor que se viu neste Mundial e que vai certamente causar muitas dificuldades à Holanda, apetece-me destacar um jogador em particular. Sim, eu sei que o Campbell é o jogador da moda, porque é irrequieto, vai para cima e não pára quieto um segundo, mas não é dele que vou falar…Vou falar antes do número 10, Bryan Ruiz. Já tem 28 anos, joga a passo e o melhor que conseguiu na carreira foi um Fulham da vida, mas é só o melhor jogador desta Costa Rica. É o mais inteligente, o mais criativo, o mais maduro. Acelera quando tem que acelerar, temporiza quando tem que temporizar, percebe sempre o que se está a passar à sua volta com extrema facilidade e quando pega na bola, não há ninguém que lha tire. Mas será que ninguém lhe pega? Num colectivo forte, que jogasse um futebol apoiado, de pé para pé, teria sido melhor aproveitado e teria tido certamente uma carreira com outra expressão. Um dos craques deste Mundial.